Nós da política potiguar

Li com atenção a entrevista de Antonio Spinelli sobre mazelas do PT no RN, com o título “No estado, o problema do PT é o PT mesmo”. Já na introdução, a jornalista Ana Ruth Dantas advertiu sobre limitações paralelas do PSB: caberia desdobrar o título da entrevista em “No estado, o problema do PSB é o PSB mesmo”? A prefeitura natalense, dirigida por uma Micarla filiada ao PV, pouco se parece com a pujança da candidatura Marina: “No município, o problema do PV é o PV mesmo”? Não por acaso, PSB e PV aparecem no decorrer da entrevista, embora o título dê a impressão de que o PT é seu grande tema.

Não sou cientista político, falo sobre o assunto como cidadão potiguar fora da terra que sempre volta à casa por uns poucos dias no ano e procura se manter informado sobre suas andanças. Talvez valha a pena evocar algumas tendências estruturais da política potiguar (e natalense) para entender melhor aqueles problemas.

Numa das eleições anteriores para a Câmara Federal, cheguei a Natal no momento em que os resultados eram divulgados. Havia muitos deputados jovens, todos com sobrenomes velhos. Evidentemente, a pobre coitada da elite tradicional tem todo o direito de lançar seus filhos no mesmo ramo em que atua há séculos (vide os Albuquerque Maranhão). Talvez ela o faça com excessiva sede em nosso estado.

De longe (moro fora do RN há algumas décadas), tenho a impressão de que o PT local diversifica um pouco mais os sobrenomes de seus líderes e candidatos que os demais partidos. Isso é bom mas também significa enfrentar uma grande dificuldade: o sistema político local é muito cobiçado e controlado por aqueles grupos que poderemos chamar elegantemente de tradicionais. As peripécias desses grupos, durante a ditadura, incluíram Arenas I e II – disputa entre famiglias pelo espólio ditatorial, depois discretamente oculta.

A trajetória do PT é diferentes mas mal resolvida. Talvez o PT local tenha que enfrentar duplo desafio: afirmar um discurso (no que foi razoavelmente bem sucedido, acompanhando seus congêneres de outros estados) e criar bases efetivas de poder para seus projetos, que não derivam automaticamente de eleições nacionais ou noutros estados. O segundo desafio está longe de ser vencido.
Certamente, nem tudo é PT. Há muitos outros partidos, há os sem partido.

Radicalizando a generalização do pensamento originalmente expresso por Spinelli, sugiro pensarmos que o problema da política do RN é a política do RN.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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