Nós dentro do filme

Por Pedro Dória
O GLOBO

Realidade virtual é uma experiência que surpreende; depois de muitos anos, a tecnologia está finalmente pronta e acessível

Em janeiro deste ano, quando alguns dos homens e mulheres mais importantes do mundo se reuniram na cidade suíça de Davos para seu encontro anual, Chris Milk os esperava. Prestes a completar 40 anos, o produtor oferecia a quem se dispusesse uma experiência nova. Punha na cabeça do voluntário um aparelho de realidade virtual da Oculus Rift que o transportava para a sala de estar da menina Sidra no campo de refugiados de Za’ataria, na Jordânia.

Realidade virtual é uma experiência que surpreende. O projetor lembra uma caixa colocada em frente aos olhos. O usuário vira o rosto para a direita, o cenário o acompanha. Para cima ou para baixo, idem. É como se fosse um filme no qual se mergulha dentro. “Não é uma mera ferramenta para videogames”, contou Milk, uns meses depois em uma conferência TED. “Essa tecnologia conecta humanos a outros humanos de uma forma profunda, como nunca vi em qualquer outra mídia.”

Seu filme sobre a jovem Sidra, feito com o patrocínio da ONU, é desconcertante. Porque, acompanhados dela, passeamos pelo campo, testemunhamos o fazer de pão ázimo, assistimos a uma aula na escola. É estar lá. Este nosso 2015 não é o ano da realidade virtual. Mas, possivelmente, não se falará de outra coisa em 2016. Porque, depois de muitos anos, a tecnologia está finalmente pronta e acessível.

O kit da Oculus Rift custará US$ 1.500 quando chegar ao mercado, no primeiro semestre do ano que vem. A empresa, que foi adquirida pelo Facebook por US$ 2 bilhões, tem a melhor tecnologia. Mas há opções muito mais baratas. O Beenoculus, um aparelho brasileiro que transforma o telefone celular num display de realidade virtual, sai por R$ 129. Nos EUA, outro modelo para encaixar celulares, feito de papelão e promovido pelo Google, custa US$ 22.

A diferença é que o aparelho da Oculus se liga a um computador potente para que jogos pesados possam ser desfrutados. Os adaptadores de celular estão limitados pelo processamento dos próprios telefones. Nos últimos anos, sempre que a tecnologia foi mencionada parecia se tratar de algo para games. Agora que está na boca de estourar, os limites se ampliaram.

O documentário de Milk é apenas um dos exemplos. A própria Oculus montou um estúdio de cinema interno. Já aprenderam algumas lições de como construir os filmes. O protagonista deve olhar no olho do espectador no início. É incômodo, mas, ao mesmo tempo, é o que envolve o usuário. Pequenos detalhes que atraiam para um lado ou outro da cena são instrumentos importantes para orientar quem assiste. No Festival de Sundance, este ano, a exposição paralela que mais se destacou foi justamente a dos primeiros filmes imersivos. São filmes sem “quadro”. É como o encontro do teatro com cinema, você nunca sabe para onde olhar. Mais do que isso. É um teatro em que você está no meio do palco e que permite efeitos especiais.

Para quem compra os óculos, há vários filmes gratuitos na rede para assistir. Inclusive o da menina síria. Brevemente, ficará comum fazer filmagens em casa. Um kit com cinco câmeras GoPro arranjadas como numa esfera basta. Sim, pode ser um brinquedo caro. Hoje. Os preços cairão. O Skype do futuro será imersivo. Filmagens da festinha dos filhos também.

Esta será daquelas mudanças tecnológicas que modificam profundamente a maneira como lidamos com pessoas e com nossa própria memória.

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