Nosferatu e o jogo do poder

O mito do vampiro é uma das poucas expressões do imaginário popular que remonta a arquétipos universais, transcendendo aos limites temporais e espaciais. Diferentemente de alguns mitos típicos de determinados países, ou mesmo microrregiões, o vampiro se liga à legião de outras deidades atemporais e utópicas como os anjos, demônios, sereias e bruxas.

Todavia, difere dos demais por ser um mito relativamente atual. Aproxima-se do imaginário das bruxas, essencialmente medieval, mas ainda assim mais jovem. Suas raízes se plantam num período posterior ao feudalismo, ligado aos primeiros conglomerados urbanos e aos primórdios da revolução industrial.

Por que situo primeiramente esse mito temporalmente? Porque percebo que a imagem do vampiro está intimamente ligada ao nascimento do capitalismo.

Sua ideia é a representação simbólica desse sistema político, sua efígie arquetípica, assim como a bruxa representara um momento anterior, quando a lógica econômica do escambo superava ainda a força da moeda.

O vampiro representa a ambiguidade do jogo de poder do capital, o qual se dá, mesmo à luz do dia ou à luz da eletricidade, de forma soturna, obnubilada e, muitas vezes escusas. Diferentemente da lógica típica dos escambos em que objetos eram trocados à luz do dia, avaliados e mensurados pelas proporções, volumes, quantidades, e contornos, na troca propícia ao capital, em que a moeda substitui os objetos, os valores são mensurados de forma equívoca e contraditória, os valores monetários obedecem a uma norma flutuante e indefinida.

Por outro lado, o mesmo se dá nas relações do poder. No pensamento da natureza, de onde todos os humanos partimos, o poder sempre se deu em função da clara supremacia da força física.

Todavia, no âmbito do capital, o poder é resultado de todo um jogo cujas regras mal se justificam, num sistema de trocas tão escuras quanto a cripta funérea de onde sai o vampiro em suas incursões noturnas em busca do elixir vital à perpetuação de sua vida morta. Tudo se dá num jogo de bastidores, em que as luzes se apagam mesmo sob os influxos do sol.

Tramas subterrâneas

Igualmente o mito em questão, no mundo do capital, nada se pode fazer às claras. Exigir clareza e transparência no mundo capitalista é exigir que o vampiro se entregue à luz do sol e pereça transformado em cinzas.

Criatura afeita às sombras, o capital exposto à luminosidade denunciaria sua fragilidade física e espiritual, seria presa fácil aos sólidos e compactos agrupamentos humanos, cujo poder emana justamente de sua condição de maioria e de sua capacidade gregária. É mister as sombras justamente para impedir a união das classes.

Em função de impedir a força dessa união é que se dão as tramas subterrâneas, que plantam e disseminam a discórdia entre os pares, evitando-lhes o pensamento único e a coesão dos princípios.

Vivemos atualmente sob o signo do vampiro. Domina indiscutivelmente o espírito de Nosferatu.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × um =

ao topo