Nosso 1º domingo venezuelano

Por Marcus Faustini
O GLOBO

Que bom que a classe média alta vem descobrindo o protesto ao longo dos últimos anos no país

Não é deplorável ou ilegítimo que cidadãos de classe média alta, protestando, articulados pelas redes sociais, batam panelas das varandas de seus andares altos, como aconteceu durante o pronunciamento da presidenta Dilma na TV no último domingo. Classificar isso de coxinha, risível, é apenas estar na mesma frequência daqueles — geralmente esses mesmos das panelas — que chamam, com ódio, de vagabundo qualquer um que está na rua reivindicando melhorias de vida ou que recebe apoio de programas sociais de assistência ou mobilidade.

Que bom que a classe média alta vem descobrindo o protesto ao longo dos últimos anos no país, melhor do que a aposta ou omissão em operações perversamente escondidas para eliminar oponentes, como foi a marca de uma parte significativa da geração anterior desta classe ao longo da ditadura militar, e que ainda persiste em vários momentos. A democracia não é apenas palco de pactos sociais construídos através de consensos que, por vezes, subtraem mais que adicionam direitos. A democracia se faz com conflitos e debates, mas ninguém é dono de determinada forma de expressão de insatisfações.

A era das redes sociais como um instrumento de mobilização foi um oásis das esquerdas num primeiro momento. O represamento da diversidade de vozes, a possibilidade de visibilidade de lutas das minorias, a articulação em rede para pautas comuns foram elementos de conexão com os discursos totalizantes de visão de país que a esquerda cultivou durante anos de luta como ativo simbólico. Isso foi determinante para engajamentos nas eleições do governo Lula — da corrente de e-mails até os posts e memes.

Porém, no governo Dilma, tanto setores mais à esquerda como os mais à direita descobriram as potencialidades das redes sociais para articulação para protestos, campanhas e, sobretudo, o que é chamado de difusão da cultura de boatos e contrainformação — usando um vocabulário em desuso, da Guerra Fria. A apertada vitória de Dilma para o segundo mandato demonstrou forte mobilização de seus opositores nas redes e uma disposição de protestar, incorporando elementos clássicos de uma aguerrida e performática militância estudantil.

Essa descoberta das redes e da radicalização de protestos pelos setores chamados de conservadores não acontece apenas aqui; a Venezuela é também marcada por isso — no final das contas já temos uma venezuelização em curso impulsionada também por setores da elite que, ironicamente, acusam o governo de fazer o mesmo. Esse aspecto não é ruim. Protestos claros de diferentes setores fazem o debate entre diferentes visões de país, pelas classes, aparecer.

A esquerda governista — sem ser pejorativo o termo — abandonou a conexão com a vida nas ruas e no debate do espaço público, em função da crença no sentimento de gratidão eterna do “povo” pelas conquistas da era PT. E acreditou, assim como a esquerda universitária, que as redes sociais seriam suficientes para a disputa de projetos e imaginários. No máximo, o contato com os que falam igual.

É preciso que a esquerda, se ela ainda deseja conduzir o país e não apenas marcar posição, vá novamente interpretar as ruas, a vida das pessoas, reconectar a esperança. Dar resposta de narrativa através das redes sociais não será mais consistente no cenário que se desenha. A esperança de mudança, apoiada em análises que revelavam processos de desigualdades e formas de superação sempre foi a marca da esquerda, agora presa na própria armadilha de não ter encarado uma mudança do sistema político.

Por fim, pensando sobre esse episódio do final de semana como um provocador plot dramático para uma novela venezuelana por aqui, cabe dizer que a presença da defesa do direito democrático de protesto no discurso da presidenta, num 2015 que já se demonstra imprevisível politicamente, foi valioso — “você tem todo o direito de se irritar e reclamar”, ela disse — deixando para trás sua aproximação com falas vergonhosas sobre junho de 2013, que classificavam aleatoriamente de vândalos quem estava na rua. Essa posição marca importante diferença com setores que apostam na insatisfação de grupos para promover uma aposta na bestialização do debate que aponta para o fascismo. O que decepcionou foi ver “enrolation” — num inglês de Lapa pela noite — sobre a decisão do ajuste econômico afetar mais diretamente os trabalhadores e não tomar posição mais clara de liderança sobre a necessidade da reforma política como única forma de superação da crise.

Um pouco antes, no final de feira na Glória, hora da xepa, meu ouvido aguçado de quem já teve tuberculose na juventude — condenado a ouvir demais, como decreta o saber popular — capturou a conversa de uma senhora negociando o valor das folhas de verduras com o feirante, caprichando nos argumentos — tá tudo ficando caro de novo, ela não parece mais capaz de melhorar isso, tomara que sim, tá muito enrolada com aquelas coisas de Brasília que tu sabe que sempre foram assim — afirmou com o rigor de quem faz comida e não gastronomia.

De minha parte, estarei na rua no dia 13.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo