Nostalgia, aventura (e cervejas)

Por Leandro Sarmatz
BLOG DA COMPANHIA

Veja bem, não me entenda mal. Não sou reacionário, passadista, há tempos que me esforço para deixar de ser nostálgico. Porque cada vez mais acho a nostalgia o fascismo da memória. Sim: lembrar é importante, a memória é o que nos faz humanos, mas nostalgia é outro negócio. Nostalgia é política daninha, nostalgia é marketing ruim, é uma engenhoca mental que pode nos aprisionar em desvãos pouco recomendáveis. A nostalgia está para memória assim como a aventura está para o turismo. É outra coisa. Talvez um rebaixamento da experiência, um universo edulcorado, frequentemente falso, uma impostura esperneando sua pretensa verdade. Tenho lutado contra a nostalgia.

É difícil, todavia. Esses dias meu boteco predileto atravessou a rua em Santa Cecília, aqui em São Paulo, e foi para um logradouro a princípio melhor, mais novo, mais ajeitado, moderno e cômodo. (O imóvel antes era ocupado por uma videolocadora, e é lícito dizer então que o streaming ajudou o boteco, tão real, a desbancar um negócio que sobreviveu mais do que deveria graças à nostalgia.) Ainda não o conheci — faltou tempo, e também coragem. Receio desgostar de cara, temo não aprovar a mudança e me enredar (novamente) na teia horrorosa da nostalgia.

Porém, se na chamada “vida real” a nostalgia pode ser corrosiva e paralisante, nas artes da imaginação ela me parece essencial. Como combustível, a nostalgia é parte constituinte da própria criação literária. A literatura ocidental, que começou sob o signo da aventura homérica, iria se nutrir da nostalgia desde o princípio. Pois ela é a fonte primordial da aventura. Exércitos empreendem uma guerra para reaver o status perdido; busca-se a amada para recriar um éden de paixão original; sujeito embarca num navio para reencontrar as paragens da infância. Sempre que há ação, a nostalgia está lá, explícita ou bem disfarçada.

É mesmo paradoxal. Porque realmente, na vida cotidiana, a nostalgia é uma botinada na memória, é uma violência e uma prisão. O que diferencia, digamos, um sujeito que fica com muxoxos diante da mudança de seu bar predileto e aquele que, num poema, romance ou filme evoca um passado? Antes que você diga, claro, o talento, acho que tem alguma coisa além disso. Talvez o filtro da linguagem seja a grande questão. Porque quando você reconstrói uma cena antiga — numa crônica, digamos —, é necessário um esforço organizador entre a memória e os limites (reais, possíveis) do próprio meio de expressão. É aí, então, que começa a aventura: a nostalgia deixa de ser um objeto em si (um telefone de baquelite anunciando uma ligação perdida) e passa a ser algo significativo não apenas para um pessoa. Ela vai falar algo para quem lembra e para quem lê (ou escuta) essa memória alheia.

Pensando bem, acho que vou fazer um poema pelo meu querido e velho bar Ugue’s.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

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