Notas sobre “Cravo”, de Letícia Torres

Não. “Cravo” não é fácil. Não é uma leitura fácil. “Cravo” vem e fica. Ali na esquina do coração, permanece, questiona, provoca e, quando saí, deixa a porta entreaberta, como uma fresta que acorda as retinas fatigadas.

“Conheci” Letícia Torres pelas redes sociais, uma poeta amiga de outros ‘poetamigos’ que tenho. Sua beleza e leveza chamaram-me atenção, ao ver suas fotos criei um estereótipo desmontado no primeiro áudio trocado.  Preciso ler seus textos, pensei, pois creio que quando leio poetas, conheço seus corações. Procurei, achei e li alguns versos previamente publicados por ela e por quem já tinha o livro em mãos. Invejei. “Cravo” chegou.

Não, não foi uma leitura fácil. Em versos livres, os poemas trancafiam nossa mente só de pensar que “a dor posta de bruços/para conseguir deitar em si”, pois “O pensamento precisa doer para a mão conseguir falar […]”. A mão de Letícia não fala, porém grita e confessa: “[…] Finjo não ser de vidro, protejo a língua ferida […]”. Ler “Cravo” exige habilidade, pois na mesma proporção que fala, a escritora é educada ao alertar: “[…] Faço silêncio ao esbarrar nos móveis, me perco noutras quinas […]”. 

Dona de uma escrita hermética, lia e lembrava-me do mesmo desafio — sim, poesia boa é poesia desafiadora — que tive ao deparar-me com a portuguesa Maria Teresa Horta e a angolana (Ana) Paula Tavares. Mulheres de escritas elegantes que nunca terminam quando o livro é fechado, oferecem-nos um novo poema a cada nova leitura. Nessas escritoras, incluindo Letícia, o regresso é, e sempre será, necessário.

Em seu lançamento, a autora afirmou: “Cravo vem comigo desde que aprendi as palavras.” Eu ousadamente afirmo: “Cravo irá conosco até o findar da vida”. Em um determinado momento, questionaram: “qual o tom da sua poesia?” e, sobre a escrita de Torres, na mesma hora respondi a mim mesmo parafraseando Octávio Paz (in O arco e a lira, 2014, p. 21): “pão dos escolhidos; alimento maldito”, porque a todos alcança. Posteriormente, alguém falou: “Letícia é misteriosa para mim”. Ri e sozinho concordei: “a mim também”, pois ela — como se autodefiniu — é uma cega de futuros.

Em “Cravo”, Letícia Torres “deu vazão ao que estava na gaveta” e desconcertou nossos seres.

Sobre seus poemas e falas no lançamento nasceram alguns “poeminhas” em mim:

I

a libélula morta no chão

convida-me à existência que voa

por entre as brechas dos dedos

e escorre pelos vãos

da vida”.

II

“quando o amor fez a curva

na esquina da espera

o sol já não estava mais lá

III

a mesa era enorme

e cheia de asas de inseto

um imenso jardim abandonado

em mim”

 

 

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