Notas sobre o narcisismo

Por Francisco Bosco
O GLOBO

Diferentemente do que se poderia pensar a princípio, um ego forte não é um ego sólido

“Me decepcionei com você.” A esse comentário, a única resposta decente é: “Problema é seu”. É preciso estar atento contra as tentativas de controle pelo narcisismo. Funciona assim: a pessoa enaltece em você qualidades e condutas que interessam ao desejo dela. E assim espera que você se comporte da maneira que, no fundo, interessa a ela. Tenta prendê-lo por uma imagem. Mas essa imagem de você foi feita à semelhança do desejo dela, e não necessariamente do seu. Então, se você age em desacordo com essa imagem, vem a moralização vitimada: “Me decepcionei com você”. Pois bem: “Problema é seu”.

Uma pessoa que quer ser percebida como autossuficiente, como alguém sem falta, pode ser desejável, mas não amável. O desejo quer o objeto que preencha sua falta; o amor quer preencher a falta do objeto.

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A diferença entre o competitivo e o invejoso é que o primeiro quer superar o outro, enquanto o segundo quer anular o outro. O competitivo não toca, imaginariamente, no outro. Sua relação é consigo mesmo, apenas se mede por meio do outro. Já o invejoso deseja o lugar do outro, e não um lugar melhor do que o do outro. O competitivo deseja que o outro exista. O invejoso deseja que não exista. Por isso aquele é vital, e esse é mortífero.

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Quando temos ciúme por causa do desejo da pessoa que amamos por um terceiro, sentimo-nos abandonados por ela, isto é, não reconhecidos por ela. Mas nem é preciso isso. Uma das provas da natureza imaginária do ciúme é quando se tem ciúme por causa da manifestação do desejo de um terceiro pela pessoa que amamos. Basta que ela seja desejada explicitamente para nos sentirmos não reconhecidos por quem a deseja. Produz menos ciúme, pois, quem quer que seja o terceiro, não nos será imaginariamente tão importante quanto a pessoa que amamos. Não ocupará tanto o centro de nossa autoimagem. Mas incomoda, numa escala progressiva que vai do totalmente estranho ao amigo mais íntimo.

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A tendência a torcer pelo mais fraco tem duas explicações, uma via psicanálise, outra via teoria da informação: escolhe-se o pior por compensação narcísica (sentir-se menos inferior por meio do rebaixamento do superior) e por ganho informacional (quanto mais imprevisto o resultado, maior a informação).

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“Inbox pra vc”, ou: uma espécie de voyeurismo às avessas. Mas não se trata exatamente de desejar ser visto, e sim de desejar o desejo do outro de o ver. Avisa-se a todos que há um segredo, mas que eles não podem ouvir. É uma manipulação do privado para fins públicos; da intimidade para fins de exclusão; do invisível para fins de inveja. Um exibicionismo com véu.

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Diferentemente do que se poderia pensar a princípio, um ego forte não é um ego sólido. Ao contrário, os sujeitos que têm uma relação mais segura com a sua autoimagem são aqueles que a têm leve, arejada, inconsistente, frágil, em certo sentido. Lembremos que estereótipo vem do grego stereos, que quer dizer sólido. Um ego sólido é frágil porque depende todo o tempo da confirmação de sua autoimagem. Um ego frágil é, ao contrário, forte, porque não se abala facilmente com os reflexos distorcidos que o outro lhe apresenta. O maior atestado de saúde imaginária é apresentado pelas pessoas que podem rir de si mesmas.

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Balança da separação: quem dá um pé na bunda arca com a angústia da decisão, a responsabilidade e a culpa (além das ações em baixa no caso de reconciliação) — quem leva o pé na bunda leva um tiro no coração do narcisismo.

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Um livro importante dos anos 1970, “A cultura do narcisismo”, de Christopher Lasch, flagrava uma transformação cultural, a partir do final dos anos 1960, cujo sentido era o esvaziamento dos agenciamentos coletivos de transformação da sociedade, em privilégio de uma nova forma de individualismo, um cuidado de si multifacetado, variado pacote terapêutico, desde a psicanálise até a alimentação saudável, desde a yoga à ideia de “espiritualidade”. Em linhas gerais, vivemos ainda nesse déficit dos agenciamentos coletivos, cujo outro lado da moeda é o aprimoramento individual, dissociado portanto do aprimoramento da sociedade como um todo. Tenho um amigo que costuma dizer só ter compreendido profundamente o “Seminário XX”, de Lacan, na The Week. Pois bem, eu tive a epifania do sentido da cultura do narcisismo na antessala de um terapeuta. Homeopata, médico tradicional, acupunturista e nutricionista, ele assina… a “Veja”.

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A diferença entre o narcisismo e as críticas que lhe são endereçadas é que essas últimas são, além de também narcisistas, ressentidas.

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