Notícia do sarau Marize-Prévert

As comemorações do ano da França no Brasil se restringiram oficialmente ao ano de 2009. A rigor, porém, a agenda de aproximações aberta entre brasileiros e franceses prossegue este ano. A Aliança Francesa de Natal, por exemplo, tem larga experiência nessa área, desde os tempos áureos do diretor Bernard Alléguède, nos anos 1970 e, pelo visto, esse processo está em plena renovação. O sarau Marize de Castro/Jacques Prévert, abrindo a temporada 2010 na quinta-feira passada, mostrou o grande potencial que eventos dessa espécie sempre apresenta. E não deixou de funcionar como um contraponto “acidental” ao evento luso-brasileiro reunido por estes dias no Teatro Alberto Maranhão.

Conduzido com humor e irreverência pelo mestre-de-cerimônias Rodrigo Bico caracterizado de palhaço circense, e pela professora Selma Bezerra, mas também com a própria poeta natalense, o sarau alternou poemas de Marize com poemas do francês Prévert sem qualquer preocupação em estabelecer paralelos, apontar coincidências ou diferenças, mostrar afinidades etc. Pelo contrário, o que prevaleceu foi um confronto sem ranhuras nem estranhamentos entre dois poetas de épocas muito distintas. Por que haveriam de se confrontar, se o primeiro já tem o seu lugar definido nas letras francesas como um poeta “menor”, enquanto a segunda, como observou o poeta Dorian Gray, é um nome que já ocupa posição destacada na poesia potiguar?

A distância tranquilizadora entre os dois poetas permitiu que viessem à tona outras componentes próprias a um sarau poético tão singular. Sobretudo no que respeita à poesia de Marize Castro, cuja sujeição a um exercício frequente de oralidade parece aí encontrar um espaço propício ao seu crescimento.

De fato, surpreende como a poesia de Marize parece se renovar quando falada. Em parte, a explicação pode ser encontrada na composição específica dos seus versos, ao mesmo tempo cáusticos e sutis, incisivos e discretos, passando ao leitor (ou ouvinte) a ideia de que algo ficou por dizer. Quem sabe, o próximo poema desfaça essa impressão? Novo engano, em parte. Porque o poema que se lê a seguir diz algo de si, não do poema anterior. Que recurso, então, restaria ao desamparado leitor? Ler mais Marize, na esperança de que o círculo se feche e a verdade poética que parece em fragmentada mil poemas por fim se some num todo harmônico e acabado.

É evidente que essa impressão, a qual tem tudo a ver com a magia do poema enquanto instância particular da linguagem, pode ser captada na leitura silenciosa. Mas ouvi-la de viva voz num auditório voltado exclusivamente para esse fim parece acrescentar um grão de sal a cada verso, independentemente de que a leitura provenha de Rito, de Marrons Crepons Marfins, de Esperado Ouro etc.

Se a cada poeta é dado escrever um único livro – como alguém já propôs –, não importa que multiplicado por dez, vinte ou mais, com mais razão Marize Castro persegue o seu poema em cada um de seus livros, pois cada um acrescenta um verso que retoma o ponto em que o anterior foi interrompido. E aí talvez se explique a necessidade de lê-los um a um a fim de recolher os versos que prosseguem nos livros seguintes…

A leitura da poesia de Jacques Prévert, por sua vez, se prestou a um caráter “didático”, haja vista que é um poeta pouco ou nada conhecido pelo leitor brasileiro mediano de poesia, mas que apresenta um atrativo próprio que reside na decantação da poesia do cotidiano. Não se pode esquecer também que um de seus poemas ganhou notoriedade internacional, depois de musicado por J. Kosma. Referimo-nos, é claro, a “Les Feuilles Mortes”, grande sucesso na voz de Yves Montand e Mireille Mathieu, entre outros grandes intérpretes da canção francesa. Em sua carreira internacional, ganhou versão inglesa, chamando-se “The Falling Leaves”, e é um hit atemporal da canção americana.

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