Obra de Tony Judt junta retalhos do século 20

Por Marcelo Ambrósio
Jornal do Brasil

RIO – À primeira vista, o título é tão promissor quanto as credenciais do autor. Reflexões sobre um século esquecido: 1901-2000 chega antecedido pelo impacto do excepcional Pós-guerra, no qual o historiador britânico Tony Judt conseguiu, com rara felicidade, descrever a segunda metade do século mais violento de que se tem notícia com fluidez, naturalidade e coerência. O novo trabalho evoca ao leitor a possibilidade de uma nova leitura dos mesmos fatos e consequências, os quais transformaram profundamente as sociedades. O estilo direto de Judt, sem maneirismos úteis para os que privilegiam forma e conteúdo, encanta já no prefácio.

Mas a questão do livro é filosófica. Embora seja apresentado como um caleidoscópio no qual podemos observar o mundo sob diferentes e nunca repetidos desenhos, há nele uma pequena armadilha: o volume, com quase 500 páginas, é o resultado da compilação de 24 ensaios escritos por Judt entre 1995 e 2006 para publicações respeitáveis e díspares em termos de público alvo como o New York Review of Books, o Ha´aretz e a revista Foreign Affairs.

O lançamento do livro envolve um pouco o drama pessoal do autor, diagnosticado em 2008 com esclerose amiotrófica lateral, uma doença degenerativa. Assim, não deixa de ser importante poder depurar o pensamento de um historiador objetivo a partir da condensação do pensamento costurado no elemento comum do cenário histórico, social, político, internacional, da época.

E mais: é a visão de um período riquíssimo – mesmo negativamente – organizada em torno da trajetória de nomes como Albert Camus (o intelectual com raízes argelinas e seu sofrimento interior de colonizado na França), Hannah Arendt (por sua clarividência em delimitar o mal dentro de cada um e a soma desse todo, por exemplo, no nazismo), ou ainda Arthur Koestler (“mais importante intelectual anticomunista na segunda metade do século 20”) e Eric Hobsbawn (por sua vinculação cega ao marxismo). Nem todos os ensaios são favoráveis aos homenageados. O dedicado a Louis Althusser, por exemplo, não esconde o espanto pela aceitação de ideias que ele, Judt, considera despropositadas. Há mais: Kissinger, João Paulo II, a Guerra dos Seis Dias, e por aí vai.

No fundo, a compilação é bem intencionada por conseguir demonstrar que uma década depois do encerramento do século, aqueles 100 anos parecem ter sido relegados ao esquecimento, em uma amnésia acelerada pela tecnologia e pelo conforto. A questão é se a constatação é válida, a conclusão nascida da reunião de textos que não foram escritos originalmente com esse fim não passa muita verossimilhança. Dizer que o mundo hoje perdeu o interesse pelo debate em torno do bem maior ou do ativismo social, reproduzido nos ensaios, é fácil. Mas não há como concordar muito com a conclusão de que a leitura nos levaria de volta em uma espécie de resgate atemporal. Isso seria atribuir aos escritos um significado que, em sua gênese e separadamente, jamais puderam ter.

Tony Judt é um historiador crítico e detalhista. Ressalvando a intenção perigosa de uma análise de conjunto, seus textos explicam o século de forma independente, desconhecendo a necessidade de uma conclusão. Como autor, o britânico tem e exerce esse direito. Assim como o leitor, do outro lado, tem o direito de se incomodar por não alcançar a mesma conclusão. O melhor título é mesmo o do prefácio, “O mundo que perdemos”. Mas é preciso acreditar que isso pode ter sido em prol de uma boa causa. Agarrar-se a certas lembranças nem sempre é saudável.

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