Novas leituras realçam poesia de Marize Castro

Setembro passado foi um mês importante para a poesia de Marize Castro e, consequentemente, para a poesia contemporânea norte-rio-grandense, graças a duas matérias saídas em prestigiosas publicações culturais. O jornal literário “Rascunho” trouxe, na coluna “Fora de Sequência”, assinada pelo escritor Fernando Monteiro, e intitulada “Poetas admiráveis”, uma abordagem ligeira sobre a autora de “Esperado Ouro”, juntamente com apreciações das poetisas Nina Rizzi e Mariana Ianelli. O professor Moacir Amâncio, por sua vez, publicou no suplemento “Sabático”, do jornal “Estado de S. Paulo” (22 de setembro), um artigo sobre a poetisa potiguar, intitulado “Versos de Reflexão: versos de Marize exploram os extremos do eu lírico”.

É compreensível que a abordagem de Moacir Amâncio, feita em torno do livro mais recente de Marize, “Habitar teu Nome” (Una, 2011), seja mais inovadora, na medida em que se centra num tema ainda pouco explorado criticamente. Referimo-nos à ambiguidade das vozes protagonistas que animam não só os poemas de “Habitat teu Nome”, mas outros títulos mais recentes de Marize. Assinala o crítico: “[…] a perspectiva do Eu lírico muda sutilmente [em “Habitar teu Nome”] até o ponto de perder os contornos de macho e de fêmea sugerindo um ser em movimento, intangível portanto”.

Na tríplice apreciação que faz em sua coluna, Fernando Monteiro explica a escolha das poetisas Nina Rizzi, Mariana Ianelli e Marize Castro pelo fascínio que elas exerceriam sobre ele. Ao contrário de Amâncio, Fernando não se prende a considerações de ordem teórica na sua apreciação feita de “confessado fascínio”. Entretanto, diz por que não gosta da poesia de Antonio Cicero, porventura arrolado entre suas não admirações, o que se apressa em justificar citando um terceto ciceroniano como exemplo de “versos rasteiros”. Mas, por que razão o poeta carioca foi convocado à seara das admirações de Fernando para servir de contraexemplo, é algo que não fica de todo claro. Nem é crível que um suposto mau poema seja razão suficiente para o julgamento sumário de um poeta.

Em compensação, os leitores do “Rascunho” foram brindados por Fernando Monteiro com o poema “Erma”, de Marize Castro, a respeito do qual se esqueceu de citar que está no livro “Esperado Ouro” (Una, 2005). É evidente que a intenção do escritor pernambucano não vai além do propósito de apresentar suas escolhas poéticas espontâneas as quais, embora de regiões distintas, se irmanam na tessitura de finos bordados poéticos. Por isso, pinçou na poesia de Nina Rizzi e na de Mariana Ianelli outros exemplos aos quais acrescenta explicações a título de justificativas. Sobre Marize, define-a como “uma moça de expressão tão sensual quanto espiritualizada”. Seria o correspondente, na linguagem de Amâncio, aos que este classificou de “os extremos do eu lírico”? É possível, haja vista que as antíteses que se notam em um e outro leitor de Marize deixam entrever nessa autora sugestões que vão além daquilo que é dito dos seus versos, para buscar nas entrelinhas e reticências verbais algo mais valioso, um “esperado ouro” que subjaz a esses vácuos poéticos.

De todo o modo, tanto na visão de Moacir Amâncio quanto na de Fernando Monteiro, a poesia de Marize Castro oferece elementos suficientemente instigantes para situá-la entre as vozes poéticas pertinentes nos nossos dias. Ali onde o professor paulista percebeu a “vibração delicada e ao mesmo tempo intensa dos versos”, o colunista pernambucano distinguiu um amálgama de sensualidade e espiritualidade. A tensão gerada por esses contrastes funciona como um dínamo do qual decorre um amálgama de sentimentos nunca pacíficos, nunca resolvidos. Daí que novos poemas se façam necessários à construção dessa obra que revela cada vez mais compacta e uníssona, uma vez que suas partes não passam de componentes de um mesmo e único poema.

Se esse não é o traço mais marcante da poesia de Marize Castro, é suficiente, todavia, para criar em torno de si um campo de força sensorial a que mais e mais leitores se mostram atraídos. Irresistivelmente.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 13 de outubro de 2012 19:16

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