Novelas

Nunca mais assisto essa novela! Exaltou-se a mulher, fingindo deixar o sofá. Levantou-se, foi até a cozinha, pegou alguma coisa e voltou a reclamar das partes da trama: sei como será tudo… E debulhou as cenas antes delas acontecerem para a admiração dos outros da sala.

De toalha, a filha mais nova sai do banheiro com metros de cabelos por enxugar. A mãe lhe lança um olhar por cima dos óculos. Certifica-se que foi percebida e volta a brigar com a telenovela.

A moça senta-se próxima do ventilador e alisa o cabelo com uma escova, tentando reproduzir a letra de uma música em inglês que toca no rádio. Na rua, sempre que passa exibindo suas nuances de ninfeta arrebitada, as mulheres profetizam que será como as outras irmãs: perdida.

Diante do espelho, experimenta uma lingerie imprópria para a sua idade. Acha-se tão bonita quanto a Hally Barry, mesmo com cabelos crespos e dentes empinados. No forró, ninguém notará a diferença e os que notarem é porque não conhecem a Hally, diz para si mesma no espelho, pronunciando o A de Hally.

Mãe, vou ali… Diz, passando sobre os pés do pai na porta da frente, sem esperar resposta. Quando entra o comercial, do alto de sua cadeira de balanço no batente da entrada, o velho resmunga, enquanto cutuca o bolso da camisa: quando essa outra chegar sem rumo, eu só quero ver!
Do sofá, a mulher espia como se não fosse com ela, mas não se aguenta: e tu né pai também, oxe! Diga alguma coisa!

Mas pai é diferente, tenta remendar o homem “mandando ao céu o fumo de um cigarro”. Não há mais resposta, pois se acabam os reclames e uma música denuncia o começo de outro capítulo novelesco.

Na rua, as vizinhas voltam a debochar da menina que passa ligeiro no rumo do forró. Mas a conversa muda de rumo novamente por causa da novela: daqui a pouco essa daí aparece grávida e sua mãe terá outra boca para alimentar, diz uma delas apontando para uma atriz da televisão. As outras concordam e se calam para esperar acontecer.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo