Novo filme de Carito retrata as dores do mundo contemporâneo pela arte

O niilismo de Nietzsche, apesar de sombrio e amparado na morte dos sentidos ou na desvalorização dos valores, tinha um fim nobre: a liberdade.

Para o filósofo alemão, o homem precisava passar por esse processo de ceticismo completo para extirpar qualquer influência sistêmica do mundo e ganhar a sonhada liberdade a partir do nada, ou a partir da construção do novo homem livre de conceitos estabelecidos – o “super-homem”, como ele chamou.

É diferente dessa depressão contemporânea. O homem moderno não consegue mais se livrar das dores do mundo. Os valores invertidos da sociedade estão impregnados na pele, correm pelas fibras ópticas dos computadores e smartphones e desafogam em gestos de intolerância, preconceito e ignorância nas redes sociais.

Já não é niilismo. Não há buscas, apenas a vida torpe manipulada por um capitalismo cristalizado de 350 anos.

Frame de Ana Mendes, em Vida Vazia
Frame de Ana Mendes, em Vida Vazia

Resta a esperança? Não só. Ferreira Gullar já dizia: “A arte existe porque a vida não basta”.

Arte e esperança como antônimos do mundo zumbi.

E para retratar esse paradoxo do colapso social contemporâneo e a crença na mudança, o poemúsico e cineasta Carito Cavalcanti idealizou um filme para expressar esse mundo doentio pelo viés artístico, pelas expressões e manifestações de artistas.

São poetas, atrizes, músicos, rostos tristes e poesias pintadas pela doçura melancólica.

Frame de Michelle Ferret, em Vida Vazia
Michelle Ferret, em Vida Vazia

“Eu não queria fazer um filme político ou social de maneira direta. Mas queria expressar a minha dor e principalmente as dores das mulheres depois daquele caso do estupro coletivo, a dor que sentimos com esses retrocessos se instalando no país. Então fui atrás de recortes poéticos, imagens metafóricas”, ressalta.

“Parir a humanidade
é pouco
ainda querem mais
o corpo, a vida, o seu inferno
ainda querem as pernas
com os pés juntos
seus caminhos
e alguns sonhos

Parir a humanidade
é muito pouco
querem o útero
o sangue”…
(Trecho de poema de Michelle Ferret, que passa no filme)

Carito observou fragmentos sociais para compor essa colcha de retalhos de uma época em frangalhos, mas ainda dotada de esperança e resistência.

“Às vezes a dor existencial é tanta que desperta um sentimento de impotência nas pessoas, então sinto que há muito paradoxo no amor e dor, na fuga e encontro, na esperança e niilismo…”.

A arte como instrumento de rebeldia. Essa é a diretriz deste documentário experimental intitulado Vida Vazia, com previsão de lançamento no mês de julho pela Praieira Filmes.

Os artistas natalenses reunidos no filme refletem as dores da sociedade contemporânea.

Frame de Paula Vanina, em Vida Vazia
Paula Vanina, em Vida Vazia

“E por entre as dores a vida vaza: vaza indo embora e paradoxalmente vaza pingos de esperança e resistência, em um caleidoscópio de emoções. Esperança e niilismo se confundem nas metáforas do filme. Um manifesto poético-musical-imagético em busca da delicadeza perdida”.

“Escrever porque se sangra
Quando esfolam minha cabeça na calçada
E pro poema dizem ‘não’!
Ana, me ajuda nessa travessia!”
(Ayrton Alves)

Frame de Ayrton Alves, em Vida Vazia
Ayrton Alves, em Vida Vazia

Ficha Técnica:
Direção, Roteiro, Fotografia e Som Direto: Carito Cavalcanti
Edição: Carito Cavalcanti e Levi Herrera
Finalização: Levi Herrera
Trilha Sonora Original: Toni Gregório
Músicas incidentais: Dia Vermelho (Gato Lúdico); A Chave Mestra (Pedro Mendes / Babal – Tradução para o italiano de Franco Maria Jasiello)
Poemas de Ana Mendes, Ayrton Alves, Michelle Ferret, Regina Azevedo e Marize Castro
Narração Final: Marize Castro
Imagens do Gira Dança: Trecho do Espetáculo “A Cura”
Elenco: Ana Mendes, Ayrton Alves, Michelle Ferret, Gato Lúdico, Gira Dança, Regina Azevedo, Joanisa Prates, Rozeane Oliveira, Paula Vanina, Titina Medeiros, Pedro Mendes
Participação especial: Leilane Assunção
Filmado em Natal-RN em 2015 e 2016; Montado em Natal-RN em 2016
Realização: Praieira Filmes
Data prevista para lançamento: Julho de 2016

Rozeane Oliveira
Rozeane Oliveira

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. maGodaSilva 21 de junho de 2016 13:27

    É melhor usar a expressão o “além-homem”, pois super pode significar levar esse homem que temos hoje ao extremo. Não! É libertar-se dos paradigmas que vigentes.

    • Sergio Vilar 21 de junho de 2016 13:44

      Aí tem que falar com o amigo Nietzsche rs. Ei, acho que hoje sai a matéria sobre vosmicê, viu? Conrado tá lambendo a cria rs

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