Novo filme de Jafar Panahi estreia este mês no Brasil

Jafar Panahi em cenas de ‘Isto não é um filme’

Por André Miranda
O GLOBO

Cineasta iraniano expõe sua rotina desde que foi condenado por se opor ao regime de seu país

O nome do novo filme do iraniano Jafar Panahi pode assustar os desavisados, mas cabe perfeitamente bem na situação vivida pelo diretor e por seu país. “Isto não é um filme” é um documentário que mostra o caso particular de um artista que enfrenta perseguição política, só que poderia ser adaptado para retratar uma nação com os títulos “Isto não é uma democracia”, “Isto não é uma liberdade” e, até, “Isto não é o Irã”. Porque democracia, liberdade e os conflitos ideológicos que vêm ocorrendo no Irã estão presentes em cada canto da nova obra de Panahi, um filme de verdade, cheio de representações e referências, e cuja estreia no Rio está prevista para este mês. “Isto não é um filme” é, sim, um filme. Mas é também um grito de socorro.

Panahi está proibido de filmar e foi condenado a seis anos de prisão por supostamente apoiar os movimentos de oposição ao governo de Mahmoud Ahmadinejad, num caso que se arrasta desde 2009. O filme, feito em parceria com o documentarista Mojtaba Mirtahmasb, acompanha um dia da rotina de Panahi dentro de seu apartamento, em Teerã. A data escolhida para a filmagem foi a da Chahar Shanbeh Suri de 2010, uma tradicional comemoração do Irã, ocorrida a cada última quarta-feira do ano, em que o povo costuma acender fogueiras nas ruas e soltar fogos. Em casa, acompanhado de seu lagarto de estimação, Panahi faz chá, lê jornal, vê TV e assiste a algumas cenas de seus filmes antigos, como “O balão branco” (1995) e “O espelho” (1997). Em determinado momento, ele liga para sua advogada para perguntar sobre seu recurso na Justiça contra a condenação, e ela diz que a briga não será fácil. Em outro, Panahi descreve o roteiro de um filme que ele não teve permissão de rodar e mostra, com marcações de cena no tapete da casa, como construiria a história.

Com humor, o próprio diretor comenta o processo de realização de “Isto não é um filme”, afirmando que o governo o proibiu de dirigir, mas não o proibiu de atuar na frente das câmeras. No fim, quando sobem os créditos, todos os campos, do roteiro aos agradecimentos, aparecem em branco.

O filme deixou o Irã de forma misteriosa, obviamente sem autorização do governo, a tempo de ter uma sessão especial no Festival de Cannes, em maio. Diretor do Centro Cultural Pouya, uma organização para difusão da cultura iraniana cuja sede fica em Paris, o compositor Abbas Bakhtiari é quem tem cuidado da divulgação de “Isto não é um filme” pelo mundo.

— Não podemos dar muitas informações sobre como o filme deixou o Irã por questões de segurança. Mas seu sucesso é uma ajuda muito importante para Jafar Panahi e Mojtaba. Quanto mais se fala do filme na mídia, mais eles ficam protegidos. Nós também temos organizado mostras de seus filmes. Tudo isso expõe ao regime iraniano que eles não estão sozinhos e que não se pode agir livremente contra os cineastas — explica Bakhtiari, um iraniano que deixou seu país em 1983, por discordar do regime islâmico, e nunca mais voltou. — Eu falo todos os dias com os dois. É importante esclarecer que nós não somos um partido político. Apesar de o regime iraniano não querer que pensemos, estudemos e vejamos filmes, o cinema é como uma criança para nós: nós continuamos a defendê-lo, contra tudo e contra todos.

Os problemas de Panahi começaram em julho de 2009, pouco depois dos protestos que tomaram o Irã por conta das denúncias de fraude na reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Sob acusações pouco claras de ter apoiado o movimento oposicionista, Panahi foi preso durante algumas semanas, seu passaporte foi suspenso e ele foi proibido de deixar o país.

Desde então, cineastas de todo o mundo vêm se mobilizando a seu favor, e ele se tornou um símbolo da luta pela democracia no Irã. Sua situação, porém, não melhorou muito. Por duas vezes, em 2010 e 2011, ele pediu permissão para deixar o país para participar do Festival de Berlim, a primeira como palestrante e a segunda como integrante do júri. Em ambas o pedido foi negado. Entre março e maio de 2010, ele foi novamente preso, mais uma vez sob acusações nebulosas de apoiar a oposição. Na ocasião, Panahi foi levado para o presídio Evin, um centro penitenciário ao norte de Teerã conhecido por abrigar presos políticos e marcado por acusações de tortura contra os detentos. Durante sua estadia em Evin, o próprio cineasta enviou uma mensagem para Bakhtiari relatando maus-tratos.

A questão ficou ainda mais dramática no fim de 2010, quando a Justiça proferiu a sentença de Panahi: seis anos de prisão e 20 anos proibido de filmar. Em resumo, o que o país estava dizendo era que um dos maiores artistas iranianos — premiado em Berlim (com um Urso de Prata, em 2006, por “Fora do jogo”), em Cannes (com uma Câmera de Ouro, em 1995, por “O balão branco”, e com o Prêmio do Júri do Un Certain Regard, em 2003, por “Ouro carmin”) e em Veneza (com um Leão de Ouro, no ano 2000, por “O círculo”) — não poderia mais exercer sua arte. É uma tentativa, de acordo com Bakhtiari, de controle do livre pensamento.

— Para você fazer um filme no Irã, é necessário que o ministério da Cultura Islâmica aprove os roteiros. Na semana passada, eles recusaram vários roteiros, de filmes que nunca poderão ser feitos — afirma Bakhtiari.

De acordo com Abbas Bakhtiari, os problemas do cinema iraniano vêm crescendo. Há uma semana, a Casa de Cinema, órgão que cuida de sustentar a produção e a difusão dos filmes iranianos, foi fechada pelas autoridades.

— Vinte e quatro associações internacionais de cinema emitiram um apelo contra essa decisão — diz Bakhtiari. — Eu vou regularmente à Turquia e a Dubai para encontrar iranianos que me falam do sentimento do país. A cada duas semanas recebo diretores e artistas iranianos na França. O governo atual torna as coisas cada vez mais negras.

Já Panahi está hoje exatamente onde estava quando fez “Isto não é um filme”: em casa. Em 18 de dezembro de 2010, ele entrou com um recurso para tentar rever sua condenação. Em outubro do ano passado, porém, a decisão foi mantida, mas ninguém apareceu para prendê-lo, e Panahi segue recluso à espera de que sua pena seja revista.

— No caso de Mojtaba, a situação é outra. Ele foi preso em setembro, dentro do aeroporto de Teerã, antes de embarcar para Paris. Ficou detido por 84 dias, foi torturado psicologicamente e perdeu 18 quilos. Ele está identificado na Justiça como um espião e porta-voz de oposição. Agora, espera pelo julgamento — conta Bakhtiari.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo