Novo livro confirma atualidade de Jacques Derrida

Por Eneida Maria de Souza
O GLOBO

Ensaio de Elizabeth Muylaert Duque-Estrada mostra espaço indecidível entre vida e obra do filósofo francês, cuja morte completa dez anos

Em 2014, dez anos depois de sua morte, renovou-se a importância de Jacques Derrida para os estudos literários e filosóficos no Brasil, com publicações e traduções de sua obra. A recepção desta complexa teoria nos departamentos de letras, embora não tenha sido bem aceita em muitos deles, encontrou acolhida na PUC-Rio, onde, na década de 1970, Silviano Santiago foi responsável pela sua divulgação. A proliferação desse pensamento desconstrutor tem produzido reflexões de nível avançado para o aprimoramento de questões não restritas à crítica literária e à filosofia, mas endereçadas a outros domínios das humanidades. A publicação de “Nas entrelinhas do talvez — Derrida e a literatura”, de Elizabeth Muylaert Duque-Estrada (Editora PUC- Rio e Viaverita), vem confirmar a atualidade de um pensamento que desafia o senso comum e a facilidade interpretativa, vícios ainda reinantes na prática universitária.

O livro presta um serviço inestimável à compreensão dos dilemas em torno de definições e perguntas dirigidas à literatura, ao lugar/não lugar das teorias e dos conceitos, ao optar pela leitura cuidadosa do texto derridiano, quando este se refere especificamente ao discurso literário. Por uma feliz coincidência, acaba de ser publicada pela Editora UFMG a tradução da entrevista de Derrida concedida a Derek Attridge, “Essa estranha instituição chamada literatura”, com a qual o livro de Elizabeth dialoga de forma motivadora.

No momento em que se apregoam a suposta crise das disciplinas, a indeterminação conceitual como traço negativo das teorias, a reflexão do filósofo nos alerta para a indefinição e o indecidível como saída para os radicalismos e para o raciocínio binário e excludente. Por outro lado, a interpretação da ensaísta das ideias de Derrida se pauta pelo rigor e fidelidade ao seu pensamento descentrado, deslocado e desconstrutor. Há certa lógica neste aparato pretensamente destruidor de certezas.

A articulação engenhosa da escrita de Elizabeth, que logo na entrada do livro assume o cruzamento de literatura e vida, inscreve sua assinatura no texto teórico, por ocasião da releitura da entrevista de Derrida. Imobilizada numa cama de UTI, a sensação de morte e vida foi vivenciada graças à lição da literatura, “que excede qualquer definição, mas também que excede a própria vida — ela se confunde com a sobrevida”. Neste clima de abertura, o livro nasce do sentimento de sobrevivência da autora e como homenagem à sobrevivência do legado do filósofo, por continuar vivendo após a morte, “através das marcas do que já se foi”.

As associações entre sobrevivência, espectro, fantasma e ficcional atuam como semiconceitos que atravessam este espaço teórico. Por meio de posições contrárias às ideias de origem e fundamento, os semiconceitos se constituem no espaço indecidível do entre, por não comportarem exclusões entre vida/morte, real/ficcional, autobiografia/autoficção. Reside aí a reflexão do livro, por esclarecer o impasse de forma sofisticada. Se a crítica literária se concentrasse na eficácia do vocábulo “entre”, abandonaria a inócua discussão sobre as diferenças entre os termos, por não atentar para o aspecto paradoxal das relações. Como assinala Elizabeth, “nem a vida nem a obra, mas o entre, o abismo aporético, que, ao irromper, as diferencia, opondo-as, mas nunca como duas ‘coisas em si’”.

Como o livro se dedica à discussão sobre o talvez dos discursos da literatura e da filosofia, são aí inseridas denominações caras ao pensamento derridiano: o devir, a indecidibilidade, a impossibilidade, o não lugar, o por vir, os quais se concentram na operação do deslocamento. Na tentativa de aos poucos se configurar um raciocínio por vezes de difícil acesso, a ensaísta reforça a necessidade desse deslocamento, tanto espacial quanto temporal dos conceitos. A crítica aos estudos culturais, por exemplo, quando algumas vertentes se fixam em posições ortodoxas, justifica-se pela impossibilidade de responder a perguntas de feição identitária, na definição de “o que é”? O talvez se resumiria, portanto, nas indefinições e possibilidades abertas pelo gesto da dinâmica do por vir.

Muito há de se lucrar com essa aguda exposição de princípios derridianos. Sua assinatura não se contenta em reproduzir o pensamento do outro, mas de contra-assinar sua marca, por estar ciente de que, nas palavras de Derrida, “é a orelha do outro que diz eu para mim e que constitui o autos da minha autobiografia”.

 

Eneida Maria de Souza é professora emérita da UFMG, autora de “Janelas indiscretas — ensaios de crítica biográfica”

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