Do novo livro de Paula Fábrio e das viagens que também são fugas de nós mesmos

O mundo é lá fora e dentro de nós. É o que vemos e o que sentimos. E o que sentimos parte muitas vezes do que vemos. Daí a necessidade de fuga. Fuga do que vemos, fuga de nós mesmos. Essa lógica é premissa do livro da escritora paulista Paula Fábrio, Um Dia Toparei Comigo (2015, Editora Foz). Seu primeiro livro, Desnorteio (2012, Editora Patuá), venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante.

Capa-Um-dia-toparei-comigo-1Neste segundo livro, a viagem é mais perturbadora. Parte da arte de observar e se ver através do mundo. E a vida não é bela aos olhos da protagonista Isabel. A fuga dos problemas financeiros e da morte do pai a leva para a Europa, na companhia da namorada Virginia; uma tentativa de saturação do seu passado incômodo. E a sensação durante este road livro é a de que a felicidade ora está na cidade seguinte, ora estaciona no presente, por instantes poucos e loucos.

Há uma frase simbólica de toda a trama: “(…) Porque viver é sublime, quando não estamos pensando tanto”. Esses momentos de adrenalina acontece justo quando Isabel parece sair de si ou se entrega livre a alguma situação, longe das lembranças perturbadoras. Uma paisagem, uma conversa regada a álcool numa varanda em Madri, parecem refúgios às suas lembranças. É bem o retrato da vida apregoada por Schopenhauer, que atribui a felicidade como eterna busca, como se estivesse sempre um passo adiante.

A eutanásia aplicada ao pai é outro trauma recorrente na protagonista quando seu passado vem à tona. Quando o amigo Ramires, também condenado por enfermidade, pede para Isabel repetir o gesto, a filosofia de Schopenhauer retorna evidente: “Não havia o que fazer nas próximas horas, dias, e também não importavam os ponteiros do relógio. Eles marcam a duração da alegria e só. Até mesmo o túnel do tempo não seria vantagem, caso não saibamos tim-tim o que fazer da vida. Presumo, toda viagem é um pouco à deriva e, enquanto não nos conformamos em fruí-la sem nos debater, não poderemos nem ao menos contar uma boa história aos próximos da fila”.

Isabel é a narradora onipresente. Uma observadora aguçada, com olho de lince a qualquer pormenor da vida ou de sua alma aflita. E são observâncias demasiadas sinceras, desnudas, posto que brotam do inconsciente de Isabel, como se fosse ele, o inconsciente, o narrador do livro. E todo esse pensamento é organizado em frases curtíssimas, que flertam a todo instante com a poesia, com ironias a dogmas religiosos e a comportamentos sociais, além de indagações inquietas, como neste trecho:

Paula Fábrio
Paula Fábrio

“Ah, por que as pessoas deslumbradas precisam de aventuras? Por certo, falta-nos um pouco de malícia para detectar a ficção em que vivemos.” E se o intuito da viagem era a fuga, em outra passagem, as lembranças de um acidente com seu pai ressurgem de forma avassaladora, e Isabel lamenta: “Sem me aperceber, estava de volta ao passado. Longe. Longe. Como se fosse agora.” E um pouco adiante, atesta, livre do conforto da “ficção”: “Estamos loucamente lúcidos”.

A narrativa do livro, talvez pela própria confusão nata do inconsciente, é totalmente não-linear. Passado, presente e futuro se misturam em cada capítulo, que mais parecem pequenos contos tamanha falta de elo entre eles. Em cada conto-capítulo, um naco niilista. E afora as lembranças da infância pobre e a tentativa de fuga de uma opressão de conceitos sociais estabelecidos, Isabel também tem de lidar com a responsabilidade pela eutanásia do pai.

É um livro repleto de esquinas. Esquinas onde o leitor se depara com novos problemas existenciais. E de tantos, afirmo que Um Dia Toparei Comigo é um livro para todos. Todos que querem viajar de si, fugir do agora até um futuro, de certo, mais ameno. Ora, apenas a possibilidade das viagens já desperta ilusões do que pode vir a ser. E as ilusões estão sempre mais próximas daquele nosso mundo ideal e inatingível.

NATAL COMO REFÚGIO
Nossa capital Natal é citada de forma simpática nas páginas 64 e 65, do curto romance de 155 páginas. Natal como rota de fuga de tudo o que disse acima:

“Sete anos antes, eu e Virginia descobrimos Natal e redescobrimos o verão. Vinte e oito graus nos acompanhavam das dunas até o Morro do Careca, na Ponta Negra. À noitinha, no restaurante vazio, em formato de arquibancada, nossos encontros clandestinos com os gatos. Ali, realizávamos a filosofia boba dos desocupados. Interessava-me o verão, o sotaque nordestino, o ventilador que nunca desliga entre as aroeiras. Contava para Virginia: o realejo noticiou, você ganhará a rifa. Como tenho sorte! Ganhei uma caixa de bonecos no primeiro ano na escola.

Mal formulo cenas agradáveis e ouço meu pai, menina ingenuazinha. Os professores arranjaram para você ganhar. Refuto sua voz. Insisto no verão. Insisto em escutar uma canção que fale do mar. Insisto, insisto, insisto. No bumerangue riscando o céu no descampado; a cabeça cheia de planos e o tempo em aberto para ser escrito desde a primeira letra.

Era o que eu buscava em Natal, a vida no seu início. A garantia solar de que ainda havia estrada pela frente, para os planos dourados, pelo menos parte deles. Não seria assim que nascem as excursões, e se transformam em incursões? Partir para o largo e desembarcar numa ilha. Provar o fruto da terra e alcançar o âmago de si. Talvez, por essa razão, o turista tenha o apetite tão abundante.”

E na página seguinte, mais uma citação à capital potiguar, como gancho para iniciar as vivências em Sierra Morena, na Espanha:

“Em Natal toda gente come camarão. Até quem não come. Besta de quem não come. Na Sierra Morena, não sei o que se come…”

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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