Novo modelo informativo pode combinar financiamento público e privado da imprensa

Por Carlos Castilho
NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

A transformação dos jornais em empresas com financiamento público surge como uma opção cada vez mais frequente entre os que procuram alternativas para as dificuldades atuais enfrentadas pela imprensa, principalmente nos países mais ricos do mundo.

É o que fica claro na maioria dos textos de vários especialistas incluidos no livro Will the Last Reporter Please Turn out the Lights: The Collapse of Journalism and What Can Be Done To Fix It (O último repórter, por favor, desligue as luzes. O colapso do jornalismo e o que pode ser feito para salvá-lo). Autores como Michael Schudson e Robert McChesney afirmam que estamos caminhando inexoravelmente para um novo modelo informativo baseado numa combinação de empresas públicas voltadas para a informação em massa e privadas, para nichos informativos especializados.

Quando uso da palavra público não estou me referindo apenas ao financiamento estatal. Nessa mesma categoria público estão também os recursos oriundos de organizações não governamentais, de fundações e qualquer outro tipo de entidade sem fins lucrativos. As organizações com financiamento público provavelmente coexistirão com empresas privadas voltadas para a exploração de atividades lucrativas, mais ou menos como já acontece no setor da saúde e da educação.

O que parece não ter mais salvação é o atual modelo baseado num monopólio privado na informação, porque a produção, processamento e publicação de notícias em massa simplesmente deixou de ser um negócio lucrativo, pelo menos com as altíssimas taxas de retorno financeiro registradas até a virada do século.

A notícia não dá mais dinheiro porque ela se tornou abundante e, pela lei básica do capitalismo, tudo o que apresenta excesso de oferta perde valor. Mas isso não quer dizer que ela se tornou menos necessária. Pelo contrário. Hoje a informação é quase tão essencial para o ser humano quanto a comida.

O paradoxo entre a desvalorização da notícia e o aumento de sua importância é causado pelo fato de que ela era um bem de interesse público tratado até agora como uma mercadoria. A commodity informação perdeu valor nos negócios capitalistas, mas ganhou valor social por suas caracteristicas especificas, como bem que se multiplica quanto mais for usado, ao contrário das commodities fisicas como minerais, petróleo e grãos.

A explicitação desta contradição entre a notícia como produto comercial e como bem público é uma conseqüência direta das mudanças radicais introduzidas pela internet em nosso quotidiano. Num momento em que mais precisamos de notícias, dados, informações e conhecimento, menor é a capacidade de as empresas jornalísticas — tradicionais prestadoras desse serviço — oferecê-los ao público. Não porque estejam privadas de ferramentas tecnológicas, mas sim porque não conseguem mais obter o excedente financeiro necessário para manter o seu modelo de negócios, e preservar o seu poder político.

Por isso temos que encarar a alternativa do financiamento público no fornecimento de informações, a exemplo do que já ocorre noutras áreas econômicas e sociais que contam com subsídios governamentais. A menção ao governo, quando se discute notícias e jornalismo, provoca de imediato uma passionalização do debate, porque surge o fantasma do controle estatal da informação.

Seria ingenuidade dizer que este fantasma é irreal, da mesma forma que é impossível passar um recibo de isenção, objetividade e fidedignidade às indústrias privadas de comunicação e informação. O desafio atual é encontrar uma alternativa que preserve o caráter público da informação, como algo a que todos têm direito inalienável, e ao mesmo tempo mantenha a independência noticiosa dos poderes estabelecidos, em especial do corporativismo estatal.

A presença do governo no debate sobre o futuro dos jornais e revistas é, na conjuntura atual, tão transcendental quanto o foi nos primórdios da imprensa como segmento empresarial, nos séculos 18 e 19. A imprensa norte-americana, considerada hoje um modelo mundial, só conseguiu sobreviver no seu início graças a milionários subsídios postais.

Um estudo publicado em agosto pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, mostrou a intensidade atual do uso de subsídios estatais para a imprensa privada em cinco países europeus e nos Estados Unidos. A Finlândia, junto com a França, Inglaterra e Itália, são os países onde a imprensa recebe mais subsídios estatais. O estudo acaba com dois mitos: que o subsidio estatal é mortal para a liberdade de imprensa, e o de que internet e jornais são mutuamente excludentes.

Discutir abertamente a participação do Estado no financiamento da imprensa não deve provocar calafrios e sim abrir a possibilidade de impor ao poder público um novo comportamento em matéria de informação. Cabe a sociedade buscar a informação que ela precisa, limitando a onipotência estatal e a cobiça financeira das indústrias de informação e comunicação. Essa mudança depende apenas dos cidadãos e a internet oferece as ferramentas para que ele possa expressar o que quer.

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