Novo romance sul-africano em alta

NA TRIBUNA DO NORTE

Sempre que ouço que a literatura acabou, ou que a era do romance já chegou ao fim, penso no meu colega Woden Madruga andando pelos corredores da velha TRIBUNA DO NORTE sempre com uma dica nova de um romance que ele está lendo de um autor dos cafundós de Judas. Geralmente é autor português, africano ou árabe. E ele me diz com aquela velha sabedoria, “ainda tem muita gente boa escrevendo excelentes romances, Carlão”. E eu penso, “o professor Woden tem razão”.

Foi pensando nisso que separei O Impostor, de Damon Galgut, Record, 272 páginas, R$ 39,90 (no site da Livraria Cultura sai por R$ 32.90) para ler durante a semana. Galgut é um premiado escritor sul-africano que começa a despontar em seu país, apesar do estrondoso sucesso do seu conterrâneo, o premiado com o Nobel, J. M. Coetzee, bastante conhecido no Brasil. Realmente quando você começa a ler as primeiras páginas do livro de Galgut, não dá para não comparar com seu colega ilustre.

Vamos à sinopse do livro: “O principal personagem do livro, Adam Napier perde o emprego devido às cotas pós-apartheid, que colocam uma negra em seu antigo posto de trabalho. Endividado, ele se muda para uma casa abandonada no interior do país, com o intuito de retomar sua carreira literária. Porém, as manchas do passado sul-africano se tornarão cada vez mais presentes em sua vida, e sua estada naquela pequena cidade não será tão idílica quanto ele esperava. Após encontrar o inescrupuloso Canning, um ex-colega de escola, e fingir reconhecê-lo, Adam torna-se um impostor sob a ameaça constante da descoberta. Ele se vê num mundo selvagem, onde o sexo e a morte estão sempre próximos a eclodir e a amarga herança do apartheid parece onipresente”.

O que me levou a ler este livro foi exatamente a curiosidade de saber como andam as coisas na África do Sul, que ficou tão perto de nós durante a Copa, país sofrido que tem um herói do quilate de Nelson Mandela. Sim, eles conseguiram a liberdade dos negros num dos piores regimes raciais do mundo. Mas depois do porre de liberdade restou a dura realidade. As coisas não são tão floridas como parecem. A África do Sul é um país corroído pela corrupção, assim como nosso querido Brasil.

É nesse lodaçal que trafega o herói de Damon Galgut, que escreveu um desses romances que não deixa você largar as páginas depois de ler as primeiras linhas. Com pleno domínio da narrativa, ele vai desnudando as paisagens da bela e áspera África do Sul. Em determinado trecho ele chega a tocar na poesia, coisa rara entre romancistas. Pelo menos uma vez eu o vi tropeçar em uma frase comum, quando bem podia comparar os olhos da mulher aos olhos de uma pantera, ele se contenta com uma frase fraca, sem poesia. Não vou repetir aqui, se você for ler o romance vai notar esse pequeno deslize.

No mais das vezes, ele escreve como um verdadeiro mestre da literatura. Frases bem construídas trama bem amarrada, suspense no lugar certo, sem enrolação, sem querer embromar o leitor. Outro dia eu disse aqui que se você quer escrever um bom livro, escolha escrever sobre sua terra, seu torrão. É isso que nós, leitores ávidos, curiosos, buscamos nos escritores. Queremos que ele nos explique como vê a vida ao seu redor. Sempre que quero ler um bom romance, não penso duas vezes. Vou direto a um clássico e encontro lá tudo que estava desejando ler. Mas como, diz meu caro Woden, tem muita gente boa escrevendo romances por aí, cara. O difícil é encontrar. Mas só há um jeito: procurando.

Cheguei num ponto de minha existência que um livro ou um filme tem que me seduzir nas primeiras páginas, nos primeiros minutos. Se o autor não conseguir isso, largo a leitura, saio do cinema (no meu caso agora, desligo a televisão) sem nenhum remorso. Damon Galgut ganhou a minha admiração. Fazia tempo que eu não lia um livro quase de uma vez só. Levei uma semana para ler este por causa de minhas atuais obrigações de trabalho. Geralmente leio um livro assim em menos tempo.

Damon Galgut nasceu em Pretória, África do Sul, em 1963, e hoje mora na Cidade do Cabo. Escreveu seu primeiro romance, A Sinless Season, aos dezessete anos. É autor de Small Circle of Beings, The Beautiful Screaming of Pigs e The Quarry. Mas se você ficar encantado com sua maestria pode encontrar mais um livro de sua autoria no Brasil: O Bom Médico, Companhia das Letras, 264 páginas, R$ 50,50 (no site da Estante Virtual você consegue por R$ 15,00 numa boa).

Vamos dar uma olhada na sinopse: “Em um hospital no coração rural da África do Sul pós-apartheid, o resignado Dr. Frank Eloff vive à espera de uma promoção que nunca chega. Em meio à falta de recursos e de funcionários, Eloff vê com desconfiança a chegada do jovem e idealista Laurence Waters, médico voluntário em um programa do novo governo. Os dois terão de conviver num mesmo quarto. As ambigüidades de seu relacionamento serão acentuadas pelo retorno à região de figuras do passado, como um pequeno ditador que vivera seu auge no regime de segregação e um nefasto oficial do Exército. Ambientado em um bantustão, O Bom Médico combina investigação psicológica, suspense e crítica social para explorar os desdobramentos da nova realidade política da África do Sul”.

Pois é, um forte candidato à minha próxima leitura. Antes de concluir meu comentário de hoje, gostaria de falar um pouco no ofício de escritor. Não sei por que, muita gente que escreve um livro, instala um rei na barriga e olha para as pessoas como se fossem superiores a elas. Ora, escrever um livro não torna ninguém mais especial que outro. É apenas mais um trabalho que o sujeito realizou, assim como o cara que acabou de consertar aquele sapato que você estava dando por perdido (estou falando de pessoas normais, que não vivem na cultura do descartável).

Eu estou num ponto de não suportar, absolutamente, as vaidades tolas dessa gente. Você escreveu um livro? Ótimo, as pessoas que leram ou vão ler seu livro agradecem o tanto de prazer ou informação você deu a elas. Mas você não é um semideus por isso, meu chapa. Você é apenas mais um e se não conseguiu vender milhões como Paulo Coelho ou ser reconhecido como Ronaldo Correia de Brito ou Milton Hatoum, você continua sendo um nada. Então fique na sua, vá roer sua frustração no escuro do quarto e deixe os outros em paz.

No mais é o doce exercício da leitura, que faz nossas vidas parecer mais belas e mais suportáveis. Faz com que a cada dia aprendamos mais coisas sobre esses pobres seres humanos que rastejam sobre a Terra.

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

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