Novos clássicos?

Por Maria Esther Maciel
ESTADO DE MINAS – CONTEÚDO LIVRE

No início de dezembro, um jornalista de fora me pediu que lhe enviasse uma lista de 10 romances que, a meu ver, já seriam clássicos do século 21 ou teriam potencial para isso. Ele estava preparando uma matéria sobre o tema, a qual, porém, nunca saiu. Havia uma restrição temporal para a lista: os romances, de diferentes países, tinham que ter sido publicados entre 2001 e 2011. Ou seja, o ano 2000 não entrava, o que acabava por excluir da lista publicações importantes do ano como Bartleby e companhia, do catalão Enrique Vila-Matas, e Dois irmãos, do nosso Milton Hatoum. Aliás, nunca entendi ao certo a posição dos anos redondos na linha temporal: 2000 seria o último ano do século 20 ou o primeiro do século 21?

Não foi fácil fazer a lista, pois não me sentia muito preparada para avaliar uma produção de 10 anos no mundo inteiro. Ao expor minha inquietação ao jornalista, ele ponderou: “Escolha os romances que a marcaram e que você elegeria como clássicos.” Isso facilitou um pouco a tarefa, embora eu me perguntasse o que seria de fato um clássico. Recorri, então, ao livro Por que ler os clássicos, de Italo Calvin, e entre várias definições dadas por ele, adotei como referência a ideia de que clássico é um livro que se torna inesquecível e “persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”.

Não vou inserir aqui minha lista comentada dos 10, mesmo porque só tive realmente certeza de sete escolhas. A primeira recaiu em Austerliz, do alemão W.G. Sebald, vertiginoso romance que mescla narrativa, ensaio, relato de viagem, memórias e fotografias, para narrar os horrores do século 20 a partir do olhar melancólico e reflexivo de um personagem em permanente estado de exílio. Reparação, do inglês Ian McEwan, também entrou, por trazer denso e fascinante drama familiar, pautado não apenas no que ocorreu como no que poderia ter ocorrido. O sul-africano J. M. Coetzee foi incluído com seu livro Verão, autobiografia em terceira pessoa, com várias vozes narrativas, que desestabiliza os princípios do gênero e leva os poderes da ficção às últimas consequências. Do Brasil, escolhi o alentado romance da mineira Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor, que aborda, sob o ponto de vista de uma ex-escrava, a história da escravidão dos negros no Brasil. Isso por meio de escrita apurada, enredo marcante, árduo trabalho de pesquisa e interessantes estratégias ficcionais. É, a meu ver, um livro que permanecerá como documento, testemunho e exercício de imaginação sobre o lado mais terrível da vida colonial brasileira.

Outros que fizeram parte da lista foram O museu da inocência, do turco Orhan Pamuk; 2666, do chileno Roberto Bolaño; e uma pequena obra-prima, A hora entre o cão e o lobo, da australiana Eva Hornung. Um romance belamente escrito e perturbador, que narra a impressionante história de um menino de 4 anos adotado e criado por cães selvagens na Rússia pós-Perestroika.

Como se vê, minha lista é precária, subjetiva e insuficiente, como todas as listas. E nada garante que esses romances, em 2100, serão lidos e amados. Nada garante que eles vão se alojar, como clássicos, nas dobras da memória coletiva de seus países e do mundo.

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