‘Número Zero’, de Umberto Eco, é um romance simples apenas na aparência

Por Luiz Zanin Oricchio
O ESTADO DE S. PAULO

Novo livro do autor de ‘O Nome da Rosa’, que chega agora às livrarias, elege o mundo contemporâneo como espaço ficcional

Número Zero, novo romance de Umberto Eco, alude ao jargão jornalístico sobre as edições experimentais de um novo periódico. Estes números experimentais são feitos apenas para uso interno, para ver “como ficam”, são mostrados a anunciantes e, em tese, passam despercebidos do público-alvo, os futuros e hipotéticos leitores.

Em sua trama, Eco reúne uma esdrúxula equipe editorial, formada por Colonna, um tradutor de alemão e ghost-writer na casa dos 50 anos e sem nenhuma perspectiva profissional pela frente; Maia, uma jovem redatora de gossips, cuja única e frustrante experiência se deu num semanário sensacionalista; um repórter experimentado, Braggadocio, dado a teorias de conspiração, e por aí vai.

O chefe vem a ser um antigo professor universitário, Simei, por acaso incumbido por uma pessoa influente dos meios de comunicação, o comendador Vimercate, de fundar esse novo periódico. A época histórica é 1992, ano particular para a Itália, no qual teve lugar a operação Mani Pulite (Mãos Limpas), espécie de Lava Jato deles, que provocou prisão de poderosos e ricaços, mas também causou a debacle da classe política italiana. Na esteira da esperança provocada pela operações Mãos Limpas, surgiu a figura de Silvio Berlusconi, como salvador de uma Itália falida.

Há uma particularidade a respeito do Amanhã, título escolhido para o jornal: é que ele não está destinado a circular. Ou seja, não deve ultrapassar o período experimental. A ideia (que apenas dois dos membros da equipe conhecem no início) é produzir “números zero” tão acintosamente reais que, espera seu idealizador, as pessoas ameaçadas se sintam compelidos a pagar (em dinheiro ou influência política) para que a publicação jamais venha à luz.

Nesse ponto, Número Zero revela-se um sarcástico anticompêndio jornalístico, descrevendo práticas que bem podem servir de carapuça para parte da imprensa contemporânea. Discute-se, por exemplo, como produzir acusações vagas, e sem provas, de modo que certas pessoas se sintam intimidadas, mas não consigam processar o jornal por difamação. Não se trata, ensina o chefe, de contar mentiras, mas de distorcer a realidade apenas relatando verdades.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo