Nunca está só quem tem boas memórias

Por Fátima Oliveira
Vi o Mundo

Uma tendência a partir da década de 80 nos países de cultura europeia é a moradia unipessoal, hoje um fenômeno social mundial. Argumenta-se que o aumento da expectativa de vida criou condições para que uma população com mais pessoas idosas morasse sozinha. Depois virou um estilo de vida de jovens que conseguiam se sustentar, fora de suas casas de origem, demolindo o mito de que morar só é um sofrimento.

Em 2009, a taxa de pessoas que moravam sozinhas era de 30% na Inglaterra; 25% nos Estados Unidos, mas em Nova York chegava a 50,6%; e de 11% no Brasil, onde a maioria das pessoas que moram sozinhas é de pessoas mais velhas – cerca de 40% com mais de 60 anos. Na cultura brasileira, um homem morar sozinho não é tão estranho quanto uma mulher. Se para o homem é uma opção, para a mulher é “encalhe”, daí o estigma de mal-amada e enjeitada que ficou no caritó. Lembra da música: “Oi, bota pó, Vitalina tire o pó, moça velha não sai mais do caritó”? Era a imagem do inferno!

Eu morria de medo de ficar no caritó, explicado na crônica “Vitalinas”, por Rachel de Queiroz: “Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem, fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaço de fumo e o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a moça velha que se enfeita – bota pó e tira pó -, mas não encontra marido. E assim a Vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta” (“O Cruzeiro”, 19.9.1959).

Dados científicos atuais demonstram que o caritó, como significado de solteirice, adoece é os homens! Recente estudo da Universidade de Cornell (EUA) constatou que pessoas idosas que moram sozinhas, sem vínculos com a família e nem com amigos, são propensas a doenças físicas e mentais. Barbara Bartlein, autora de “Why Did I Marry You Anyway?”, diz que tudo indica que os homens se beneficiam mais do casamento do que as mulheres, embora a expectativa de vida das mulheres seja maior no mundo.

A taxa de mortalidade de solteiros é 250% mais elevada, por todas as causas de morte, do que a dos casados; os solteiros consomem bebidas alcoólicas duas vezes mais que os casados; e que no caso de câncer os casados tendem a ter melhores taxas de recuperação.

Pesquisa da Universidade de Tel Aviv (Israel, 2010), com mais de 10 mil funcionários públicos israelenses, acompanhados por 34 anos, comparando solteiros com casados na década de 60, concluiu que homens que relataram serem felizes no casamento correm menos risco de acidente vascular cerebral fatal do que os solteiros e os infelizes no casamento, que apresentaram 64% mais chances de um “derrame fatal”.

Estudo da Universidade de Otago (Nova Zelândia, 2010), com mais de 34 mil pessoas de 15 países, concluiu que “o fim de um casamento, seja pelo divórcio ou por morte do cônjuge, está associado a um aumento nos riscos de distúrbios de saúde mental, com as mulheres sendo mais propensas a abusar de drogas – incluindo álcool e medicamentos -, e os homens a se tornarem depressivos; e que homens casados correm menos riscos de problemas com ansiedade e depressão do que os solteiros”.

Morar só é o mesmo que viver em solidão? Solidão é sinônimo de sofrimento? Por entender que quem tem memórias prazerosas para recordar nunca está só, vejo a solidão como um estado mental, prazeroso ou não, que independe de companhia presencial.

FÁTIMA OLIVEIRA – médica, fatimaoliveira@ig.com.br

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