O 11 de setembro nos EUA

Der Spiegel/UOL
Gregor Peter Schmitz

O dia 11 de setembro costumava ser uma data na qual os Estados Unidos se uniam –a política partidária tornava-se secundária diante da reconciliação. Mas não é isto o que está ocorrendo neste ano. De salas de orações muçulmanas no marco zero (“ground zero”, conforme é conhecido o local em que ficavam as torres do World Trade Center) à queima de exemplares de Alcorão na Flórida e à reunião de radicais de direita no Alasca, o aniversário dos ataques terroristas neste ano corre o risco de transformar-se em um dia do ódio.

A carta aberta tinha como objetivo o desejo de simplesmente lamentar o acontecido. Entre as assinaturas contidas nela estavam as do pai de Jonathan Ielpi, um bombeiro que morreu nos destroços do World Trade Center em 11 de setembro de 2001; da cunhada de Myra Aronson, que estava no avião que fazia o Voo 11 da American Airlines, que foi sequestrado quando seguia de Boston para Los Angeles e lançado contra a Torre Norte do World Trade Center; e de Mary Ellen Salamone, mulher de John Salamone, que trabalhava no 104º andar da Torre Norte quando ocorreu o ataque terrorista.

Juntamente com vários outros indivíduos que também perderam entes queridos nos atentados, eles escreveram: “Fazer manifestações de qualquer tipo em 11 de setembro seria um ato inapropriado e desrespeitoso para com todos nós que vemos esta data como um dia que não pertence à política”.

A carta tinha como alvo os ativistas que desejam usar o 11 de setembro para protestarem contra a planejada construção de uma mesquita – na verdade um centro cultural islâmico dotado de uma sala de orações – próximo ao marco zero.

A carta aberta não teve muito efeito sobre os manifestantes contrários ao centro muçulmano. “Agora, mais do que nunca, nós precisamos estar no marco zero em 11 de setembro de 2010”, insistem eles, bem conscientes de que escolher esta data para um protesto é uma boa forma de garantir espaço nas manchetes da mídia.

Contra-manifestantes anunciaram planos no sentido de defender o centro cultural de forma igualmente enérgica – eles também conhecem as vantagens de se protestar no aniversário dos ataques. Os familiares das vítimas também escreveram para esse grupo para pedir que os seus integrantes não organizem manifestações.

Um dia de luta

Toda essa agitação deixou uma coisa bem clara: a data da memória dos atentados transformou-se em um dia de luta e em um palco para batalhas políticas. E isto não apenas em Nova York, mas em todos os Estados Unidos.

Muito distante dali, ao sul da cidade, Terry Jones, pastor do Dove World Outreach Center, uma diminuta congregação em Gainesville, na Flórida, está planejando queimar publicamente exemplares do Alcorão no próximo sábado, em uma pira que arderá das 18h às 21h – o horário nobre da televisão norte-americana.

O general David Petraeus, o comandante das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão, implorou ao pastor que não pusesse a ideia em prática, por temer que isso viesse a gerar ódio entre os muçulmanos. Petraeus declarou que as tropas norte-americanas poderão correr riscos como resultado de tal ação. No entanto, Jones ainda não recurou, insistindo que o Alcorão é uma obra do demônio.

Enquanto isso, bem longe de Nova York, na direção noroeste, no Alasca, a ex-candidata à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin e o apresentador de televisão e fanático de extrema-direita Glenn Beck estão planejando realizar um evento de grande escala em 11 de setembro. Eles querem se reunir em um salão em Anchorage, a maior cidade do Estado, para comemorarem os Estados Unidos, ou, mais precisamente, o aniversário dos ataques terroristas.

Tons ríspidos

As entradas mais caras para o evento custam bem mais de US$ 100 (78 euros, R$ 172), mas este promete ser um bom espetáculo. Talvez Beck aproveite a oportunidade para reiterar as suas dúvidas de que Barack Obama seja um verdadeiro cristão, apelando para o boato falso e bastante disseminado de que o presidente é muçulmano. Cerca de 20% dos norte-americanos acreditam nessa falácia, segundo pesquisas de opinião pública recentes. Os oponentes de Barack Obama gostam de reforçar esta falsa crença, referindo-se sistematicamente ao presidente pelo seu nome completo: Barack Hussein Obama.

Os tons ríspidos que dominam o aniversário dos atentados são uma novidade. Há muito tempo o 11 de setembro é uma data de reconciliação. O país uniu-se logo após os ataques. Até mesmo os nova-iorquinos, que são geralmente reconhecidos pela sua grosseria, foram um pouco mais gentis uns com os outros naqueles primeiros dias. O presidente George W. Bush declarou que os ataques fizeram com que a nação “ficasse de luto junta” e “permanecesse unida”.

E as linhas partidárias continuaram a se dissolver no aniversário dos ataques muitos anos depois. Até mesmo durante a agressiva campanha eleitoral de 2008, os candidatos presidenciais rivais John McCain e Barack Obama compareceram juntos ao marco zero no dia 11 de setembro. As batalhas políticas tiveram que ficar para o dia seguinte.

O mesmo se aplicou ao ódio em relação aos muçulmanos. Nos dias que se seguiram ao primeiro aniversário dos ataques, Bush visitou publicamente uma mesquita, enfatizando que os Estados Unidos não desejavam lançar uma guerra contra o islamismo.

O que aconteceu com a reconciliação?

Os políticos norte-americanos pareciam estar determinados a não deixar que os ataques desfizessem a bem sucedida integração dos milhões de habitantes muçulmanos do país. O ceticismo em relação ao islamismo sem dúvida aumentou, mas o fato de que os muçulmanos norte-americanos estão bem integrados ao país não pode ser negado. Pouca gente se sente incomodada com as várias escolas muçulmanas do país e os norte-americanos de forma geral não veem sentido naqueles debates acalorados em torno do uso de lenços de cabeça e da construção de mesquitas que volta e meia tomam conta da Europa. Até mesmo os especialistas em segurança norte-americanos veem mais ameaça de terrorismo na Europa do que entre os muçulmanos do próprio país.

Esse tom prevaleceu durante comemorações e debates seguidos. Porém, ultimamente esse foco na reconciliação está correndo o risco de desaparecer. Não foi só o número de norte-americanos que acreditam que Barack Obama seja muçulmano que aumentou desde a campanha eleitoral; a quantidade de gente que acredita que se ele fosse muçulmano isto seria um fator negativo também cresceu. Além disso ocorreram fatos mais drásticos: um motorista de táxi muçulmano foi esfaqueado neste verão norte-americano e houve protestos em frente a mesquitas do país.

Várias organizações muçulmanas dos Estados Unidos anunciaram que não comemorarão o fim do Ramadã, o mês do jejum islâmico, no sábado, conforme geralmente fazem, já que neste ano esse feriado cai no dia 11 de setembro.

Uma guerra em casa

Um motivo extra para preocupação entre esses grupos é o aumento da agressividade do debate político nos Estados Unidos, com os ativistas do movimento sociopolítico Tea Party ditando o tom. O movimento ultraconservador deseja que o país retorne às ideias dos seus fundadores brancos e em sua maioria cristãos. Os extremistas do Tea Party são atualmente a força motriz do Partido Republicano, e colocaram os democratas na defensiva dois meses antes das importantes eleições parlamentares deste ano.

Este é um cenário político no qual não há espaço para nuances. Quem exibir tolerância é suspeito – a aparente simpatia de Barack Obama pelo centro cultural islâmico a ser construído próximo ao marco zero gerou protestos imediatos e o presidente recuou rapidamente.

Os assessores de Barack Obama não querem mais que ele vá a Nova York em 11 de setembro, tamanho é o temor de que a aparição do presidente possa provocar novas polêmicas em torno da “mesquita no marco zero”. A política da polarização tornou-se mais forte do que os atos para lembrar os mortos.

Enquanto isso, o presidente acaba de comemorar a retirada de tropas de combate norte-americanas do Iraque – marcando o começo do fim daquela que talvez tenha sido a pior das reações exageradas aos ataques de 11 de setembro de 2001. Nove anos depois, a guerra no exterior parece estar diminuindo de intensidade.

No entanto, a guerra em casa pode estar apenas começando.

Tradução: UOL

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