O 16 de junho

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

“Estou escrevendo isto no dia 16 de junho. Me informa o Google que o único evento com importância histórica no dia 16 de junho de 1904 foi o assassinato do governador russo da Finlândia, Nicolas Bobrikov. Não me lembro se a morte de Bobrikov aparece no livro “Ulisses”, de James Joyce, que se passa todo num dia só, justamente o 16 de junho de 1904. Se ninguém hoje se importa com Bobrikov, os nomes de Leopold Bloom e Stephen Dedalus, cujos caminhos por Dublin se entrecruzam na trama de “Ulisses”, entraram para a história da literatura, e o próprio dia 16 de junho, o “Bloomsday”, é comemorado em Dublin e em outras partes do mundo como uma data histórica. Não deve haver dúvida de que o assassinato de Bobrikov mudou os destinos da Finlândia, mas as histórias de Bloom e Dedalus na Dublin de James Joyce mudaram a cabeça de uma geração – uma área muito mais extensa.

Anthony Burgess escreveu um livro sobre Joyce chamado “ReJoyce”. O trocadilho do título – que quer dizer, ao mesmo tempo “referente a Joyce”, uma releitura de Joyce e “regozige-se com Joyce” – é uma homenagem ao autor que tornou o trocadilho literariamente respeitável. O livro de Joyce que se seguiu ao “Ulisses”, “Finnegans Wake” é um interminável – literalmente, pois não termina mesmo, a última frase do livro emenda na primeira – jogo de palavras no qual só deve se aventurar quem tem tempo , além de erudição ou um bom manual explicativo, como o de Burgess.

Como “Ulisses”, “Finnegans Wake” é uma celebração complicada de vidas simples, as vidas que acontecem longe dos grandes acontecimentos históricos mas ganham um significado simbólico que abrange mais do que a mera História. O universo reduzido a uma cidade, o tempo reduzido a um dia, os ciclos e os mitos da humanidade reduzidos a uma linguagem e todo o humor e a glória desta espécie falante reduzidas a um livro. Quase indecifrável, mas quem disse que nós temos explicação?

Os dois livros são grandes regozijos pela vida e suas reincidências que transformam qualquer beberrão em Dublin num arquétipo universal de morte e ressurreição. A palavra “regozijo” pressupõe a existência de “gozijo”
e gozijar com Joyce deve significar isto, um gozo comum, um gozo de cada um integrado num gozo da nossa humanidade em comum. E “regozijo” significa a sua repetição através da história.

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