O acordeonista apavorado

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Antes de dormir, um tanto comovido com a atmosfera imóvel produzida pela chuva fina e tipicamente curitibana, decido, em um rompante, reler “O corvo”, o célebre poema de Edgar Allan Poe. Talvez, penso, atmosfera e poema entrem em sincronia e, com isso, produzam algum diálogo, algo que me salve do silêncio em que me afundo. Escolho o poema, assim como quem escolhe um bote salva-vidas. Mas que poema!

Em O Corvo e suas traduções, livro impecável organizado por Ivo Barroso (Editora Leya), opto, entre tantas traduções possíveis (tantas maneiras de ler), por aquela assinada, no ano de 1924, por Fernando Pessoa. Talvez não seja a mais perfeita, talvez (ouso pensar até) esteja ultrapassada _ medito eu, que tenho um inglês medíocre, que mal dá para o gasto. Não poderei avaliar a qualidade da tradução; nem isso, no momento, me interessa. Busco, apenas, a sombra que Pessoa foi capaz de lançar sobre “O corvo”, de Poe. As coisas que, ao traduzir, sublinhou.

E as encontro. Avanço na leitura, até que esbarro na advertência célebre. “Never more”, “nunca mais”, lá me detenho eu diante da ameaça feita pela ave agourenta de Poe. Impossível não me deter onde todos se detêm. Por que comigo seria diferente? “Nunca mais, nunca mais”: por que essa advertência se impregna com tanta força no espírito de quem lê? Eu já a ouvi em algum lugar, constanto. Muito antes de ler o poema de Poe _ que, pelo que me recordo, li pela primeira já na adolescência _, bem antes ainda, essa advertência já martelava em minha mente.

Trato de retroceder. Quando menino, estudei acordeão. Fui um dos discípulos do Método Mário Mascarenhas, uma moda que, mais tarde, se tornou um tabu. Até os treze ou catorze anos, dediquei-me a tocar as adaptações dos clássicos: Bach, Brahms, Chopin. Lembro que, durante as aulas, enquanto tocada as “Fugas” de Bach, lágrimas me escorriam pela face. Minha professora, uma acordeonista experiente, se assustava como uma adolescente. Primeiro, fingia não ver. Depois, me oferecia um lenço _ mas eu não conseguia pegá-lo. Ao fim, ela me perguntava: “Por que?” Nunca soube (ou quis) lhe responder.

“Nunca mais, nunca mais”, era a ameaça que eu ouvia enquanto tocava as “Fugas” de Bach. Mas por que ameaça? Aquela música me doía tão fundo, mais tão fundo, que eu tinha medo de nunca mais conseguir tocá-la. Tinha esse sentimento claro, a cada vez que a repetia: “Nunca mais, nunca mais”. Não que eu não voltasse a tocar, pois voltaria. Ela fazia parte de meu repertório de aluno aplicado. Meu medo era não mais sentir o que sentia _ era tocar mecanicamente, exemplarmente, o que seria matar a própria música.

Traduz Pessoa: “E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda./ No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais/ Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha”. Os versos me atingem em cheio. O mesmo medo que sentia quando menino, abraçado a meu acordeão, sinto hoje enquanto escrevo. “Nunca mais, nunca mais” _ e me vem o medo de, mesmo continuando a escrever, já não conseguir escrever o que quero escrever. O receio de apenas repetir tudo o que já disse e já fiz. É um medo (um demônio) que sonha. É um pesadelo que não me deixa. Mas qual escritor não sente isso?

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