O adeus de Ettore Scola

Por André Barcinski
FSP

Ettore Scola cansou.

O cineasta italiano, 80 anos, afirmou à revista “Il Tempo” que, após 47 anos como diretor e quase 40 filmes realizados, abandonou de vez o cinema.

“É o momento de dizer ‘basta’, sem arrependimentos. Há lógicas de produção e distribuição que não me dizem respeito mais. Para mim, é fundamental ter liberdade de escolher”, disse.

A afirmação de Scola tem muito a ver com o que escrevi, há alguns dias, sobre Nick Tosches.

Não é uma questão de idade (há vários diretores octogenários na ativa), mas reflexo de uma total incompatibilidade com a indústria do cinema atual. Para muitos veteranos, a lógica do mercado não lhes diz mais respeito.

Ponha-se no lugar de Scola: imagine que você começou a trabalhar em cinema nos anos 60, passou por grandes fases do cinema italiano e viveu num período em que cineastas talentosos faziam os filmes que quisessem.

Hoje, você é um artista consagrado e, justamente quando deveria estar no apogeu de sua liberdade criativa, precisa passar anos em busca de financiamento e vê o cinema de seu país sucateado por uma padronização estética que tem transformado tudo numa massa amorfa e incolor.

Gostaria muito de ouvir a opinião de Scola sobre a tal globalização do cinema, que está acabando com as características regionais e tornando cada vez mais difícil reconhecer um filme italiano de um espanhol ou sueco.

Uma pena. Scola era um dos últimos remanescente da geração de ouro do cinema italiano. Se alguém ainda poderia fazer um filme que prestasse na terra de Pasolini, Fellini, De Sica, Visconti e tantos outros, era ele.

Só nos resta agora rever seus filmes antigos, dramas pessoais intensos que tinham, como pano de fundo, importantes épocas de nossa história.

Como “Nós Que Nós Amávamos Tanto” (1974), “Um Dia Muito Especial” (1977), “O Terraço” (1980), “Casanova e a Revolução” (1982) e o musical-histórico “O Baile” (1983).

Mas meu filme favorito de Scola sempre foi “Feios, Sujos e Malvados” (1976), uma comédia escrachada e politicamente incorreta sobre a vida numa favela de Roma, com Nino Manfredi em seu melhor papel no cinema. Aliás, vou revê-lo hoje mesmo, em homenagem a esse gigante que se rendeu ao tempo.

P.S.: Um livro divertidíssimo sobre economia. Juro!

Nunca imaginei que um livro sobre economia pudesse ser tão divertido. Mas “Crash – Uma Breve História da Economia, da Grécia Antiga ao Século 21” (Leya), de Alexandre Versignassi, me provou o contrário.

Trabalhei com Alexandre na Folha. Hoje ele é editor das revistas “Superinteressante” e “Aventuras na História”, e lançou esse livro, que li em duas noites, em ritmo de “thriller” policial, cheio de histórias curiosas, picaretagens inesquecíveis e roubalheiras indecentes.

Se até eu, um confesso analfabeto em economia, curti o livro, acho que qualquer um vai gostar também.

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