O amor é comum, mas precisa ser fundamental

Tenho respeitado mais os gatos e cães. Confesso ter preconceito com o tipo de tratamento que muitos dão a esses irracionais, tornando-os parte das famílias, às vezes, com a mesma dimensão dos filhos. Ganham tratamento especial, têm médico particular, comida especial, hora de passeio e uma série de vantagens que seria o sonho de qualquer criança pobre. Talvez esse seja um dos motivos para esse meu estranhamento, vez que muitos gatos e cachorros têm uma vida melhor do que a que tive na minha longa infância. Outro fator, suponho, seja o da minha criação entre os bichos. Onde cresci, cachorro dormia, comia e vivia no lado de fora.

Tínhamos uma atenção bem especial com eles, mas mantínhamos uma distância entre homem e bicho. Um cachorro só entrava em casa quando era convidado. Deitar num móvel era inadequado, que dirá subir na cama ou dormir com um humano. Os gatos, esses nem se fala. Habitavam a casa, mas sem receber qualquer atenção. Uma relação de total antipatia. Isso porque, para nós da zona rural, cachorro e gato tinham a função de proteger a casa dos invasores.

Confesso ainda que fui de total oposição e cheguei a falar mal desses bichos tratados melhor que gente. Mas hoje mudei de opinião. Não vou colocar nem um nem outro dentro de minha casa, mas também não vou mais atacá-los porque como defensor da vida e dos direitos, tenho de respeitá-los. Decidi assumir esta postura com os bichinhos quando me peguei pensando na conduta do homem.

Regredindo na história encontramos situações muito bizarras. Índios e negros, por exemplo, já foram tratados como animais e “criados” de forma absolutamente insalubre, muito pior que os bichos domesticados. A prova disso está em todos os livros de história ou nos monumentos, incluindo as igrejas coloniais que ainda preservam as senzalas e cadeias. Buracos tão insalubres que é impossível, nos tempos atuais, imaginar que prendiam gente lá dentro.

O clero não se importava que escravizassem, batessem e até matassem índios e negros porque, naquela época eles acreditavam que não tinham almas. Por serem ou intrusos ou bens comerciais, estes “bichos” não mereciam a compaixão humana. A mulher também foi trada um pouco assim, como ainda é em alguns países da África e Ásia. Em 1943, o jornalista potiguar Eloy de Souza, que depois virou senador, escreveu uma crônica no antigo jornal A República, que começava assim: “A degradação da mulher nos países muçulmanos levou-me certa vez a perguntar a um egípcio talentoso e culto se por aquelas terras de sol e de sonho não havia lugar para o amor”. Isso nos leva a outra citação, desta vez do chileno Humberto Maturana. Segundo ele, é comum encontrar aqueles que dizem amar seus companheiros, seus filhos, seus amigos, mas não os aceitam como são. “Amam a si mesmos e àquilo que desejam que o outro seja ou se torne. Não amam, oprimem, e o fazem considerando fazê-lo para o bem do outro”.

Hoje, entre os animais humanos, são os homossexuais as maiores vítimas. Os negros e índios já não são mais escravos, mas ainda sofrem o peso da mão da exclusão. Contando no calendário praticamente mais um fim de ano, da segunda década do século da revolução digital, fico inconformado com a lentidão do homem de aceitar a própria espécie e acabar com as inumeráveis formas de preconceito. Em pleno século XXI presenciamos frequentemente o trabalho escravo, a intromissão da igreja nos avanços científicos, a limitação comunicacional e as incontáveis tentativas fascistas de impedir manifestações, fechar sindicatos e tantas outras ações que nos levam sempre a uma sensação de ainda estar no passado.

Por isso mesmo, decidi mudar minha postura. Como não concebo nenhuma dessas práticas e atitudes ignóbeis e muito mais desarrazoadas do que a dos verdadeiros irracionais que agem unicamente pelo instinto, também não posso continuar nutrindo a antipatia pelos felinos e canídeos que como todos os seres vivos, merecem respeito e porque não dizer, amor, afinal, como disse Maturana, o amor é algo muito comum, muito simples, mas fundamental.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 3 de Agosto de 2013 7:32

    Amigo, não deu pra copiar e colar a foto que você sugeriu. Abç.

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