O Amor É Para Os Valentes: Sobre “Bandeira de Trapos”, de Themis Lima

“De qualquer país, classe social ou origem genética, todos somos pedaços da trama que nos une” – Eduardo Galeano

Bandeira de Trapos é o relato de uma brasileira viajando nove meses entre as veias da América Latina. Mas isso é só o começo.

Convido você, amiga leitora, amigo leitor, a mergulhar comigo no ventre desta obra. Sigamos.

Para começar, alerto: Bandeira de Trapos é uma espécie de pináculo da produção literária do Estado. É a melhor obra da melhor editora que tive o prazer de conhecer. Explico.

A Tribo Editora, aqui, combina a relevância de conteúdo da Sebo Vermelho à qualidade estética da Jovens Escribas. O resultado é esta peça maravilhosa cujas dimensões serão apresentadas.

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Publicado no ano da Copa do Mundo no Brasil (Ê, ano bom!) Bandeira é ao mesmo tempo documento pessoal e relato de aventura pesquisatória.

“Entendi que observar a vivência dos outros vale mais a pena que proclamar o próprio discurso. Aprendi a respeitar diferenças mais do que eu imaginava tolerar”, Themis.

Recheado de conhecimento, o livro carrega uma dimensão científica deliciosa. Traz muita informação concreta sobre lugares sem soar chato, já que aborda, por igual, uma outra, humana, que a reveste e preenche, enxertando vivacidade em cada descrição.

“É demasiada a água que segue pulsando rio abaixo, se dissipando como veias entre a carne viva do continente.”

Para completar, Themis injeta o texto com sua própria experiência de vida, de forma cuidadosa, longe de cair em exibicionismo vulgar. Pelo contrário. São essas sacadas que dão à obra o tom de conversa calorosa.

“Eu contava nove meses desde que deixara a inércia do lar, mas tinha a sensação de que as vivências não cabiam no calendário”.

Entre o diário de viagem e a reportagem

É que Themis, além de pesquisadora atenta, é uma repórter valiosa, dona de uma prosa ágil e desenvolta. Bandeira de Trapos situa-se na fronteira entre o diário de viagem e a reportagem. Lados que se complementam ao invés de se opor.

A palavra em seu texto é bem trabalhada, medida e pesada para que caminhe com equilíbrio. É coisa de gente esmerada que não se permite publicar qualquer coisa.

Lembro de Aureliano levantando uma discussão fundamental: mais que por ser local, o trabalho merece valor pela sua qualidade intrínseca. Se não, a mera ‘localidade’ torna-se uma coisa menor, quase digna de pena. Não é porque “é daqui” apenas, é porque é bom e bem feito.

Dito isso, voltemos à obra. Seu corpo é dividido em oito capítulos, precedidos de um prólogo e seguidos por um epílogo. Antes deste, a autora reserva uma breve seção (Sopa de Números) para mostrar dados que servem de formação ao leitor e ajudam numa compreensão mais ampla do relato.

Gostaria de falar sobre cada um deles, esmiuçando sentidos sentimentais e históricos, mas o respeito pela paciência de quem me lê impõe algo mais condensado.

Mascando folhas de coca


“Entendi que observar a vivência dos outros vale mais a pena que proclamar o próprio discurso. Aprendi a respeitar diferenças mais do que eu imaginava tolerar”, Themis Lima.

Comecemos pelo final. O Epílogo revela uma síntese que ressalta, por um lado, a experiência pessoal (engrandecimento absorvido e compartilhado) e, por outro, o significado político, tão caro a uma geração que em 2013 protagonizou reflexões ainda não digeridas.

Interessante notar que a viagem começa em junho de 2012, mais ou menos um ano antes do auge das manifestações.

“Compartilhamos até aquilo que nos distingue: somos o andino mascando coca, o campesino que marcha à plantação, somos o caudilho tomando mate e a enxada para preparar a terra, somos asfalto e somos floresta, somos o estudante e somos a bala de borracha, somos os dois lados da ponte”.

Sopa de Números traz tintas ainda mais carregadas que se conectam muito bem ao Capítulo Oito, onde Julio, com 82 anos, fala da odisseia em busca do filho desaparecido durante o violento regime de Jorge Rafael Videla, na Argentina.

O oitavo é, de longe, o capítulo mais pesado e funciona como espécie de ápice trágico do relato. Confesso que, apesar de tocante, não é meu favorito. É que durante o percurso Themis se depara com personagens e situações maravilhosas.

Tenho uma queda gigantesca por música. Então, conhecer gente como Luís, o músico dos ônibus brilhantes ou Ché Limón cantando seus tangos em milongas empoeiradas foi colossal.

Também fiquei encantado com as histórias de Trainor, abandonado pelos pais hippies na Irlanda e de Tony, que fugiu de Tucumán, no norte árido da Argentina, até Buenos Aires em busca de seus sonhos.

A descrição da viagem por terra à Bolívia é soberba. A narradora nos conduz enquanto atravessamos a fronteira e passamos por Jujuy, Tupiza e Uyuni, mascando folhas de coca, conhecendo mercados e descobrindo a força das tecelãs índias, como Gabriela e seus doze filhos.

Mais para Diários de Motocicleta que On The Road

É nesse percurso, curiosamente, que temos notícia da morte de Chávez, justamente no país libertado por Simón, outro venezuelano.

O Capítulo Dois, sobre a loja de máquinas fotográficas dos irmãos Gustavo e Alejandro, revela uma ligação fundamental. Herdada de Pepe, seu pai, a Antique Cámaras permite a Themis mostrar um pouco da sua paixão pelos registros em celuloide. Isso merece atenção pois as fotografias são um espetáculo próprio.

Em sua maioria são retratos eloquentes das pessoas encontradas. Além da beleza, são elementos que complementam a composição da narrativa. Dão uma face às personagens e exibem o talento da autora.

Exceto os quadros de Bárbara Low (que por si valeriam um livro inteiro!), todas as imagens são em preto e branco. Arrisco o palpite de que os intensos contrastes das fotografias servem de paralelo simbólico aos contrastes latino-americanos (temperados em cores intensas e sensuais).

Por tudo isso, também arrisco dizer que Bandeira de Trapos está mais para Diários de Motocicleta que On The Road. É livro que interessa muito a quem já gosta de Garcia Márquez, Cortázar e Allende. Não por acaso uma citação de Galeano abre o livro.

Livro foi lançado pela Editora Tribo em 2014; “[…] as fotografias são um espetáculo próprio. Em sua maioria são retratos eloquentes das pessoas encontradas.

O prólogo avisa: Bandeira de Trapos é feito de versões particulares de uma história comum – ‘comum’ não pela banalidade, mas pelo sentido de coletivo, daquilo que atravessa e compõe a individualidade.

Há outros elementos que me encantam; o papel um tanto áspero, a contralombada em que escapolem os pretos, os desenhos de Aureliano Medeiros, a rosa da capa, suas chaves, seus agradecimentos.

Enfim, é como diz o professor Emanoel Barreto, Bandeira de Trapos é obra que merece ser relida. E que, acrescento, aumenta em beleza a cada releitura.

Lo que es bueno dura pueco, eu diria recomendando Bandeira a um argentino em Pipa. É que a Tribo fechou as portas e só deus sabe quando Themis nos mandará outro livro falando das suas experiências em Barcelona. Ai, ai.

Enquanto aguardamos quem sabe a gente vai lendo o Madame Xanadu pra matar a saudade…

Até a próxima.

Raul.

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