O ano em que perdemos a eternidade

“O que está além, pressentimos apenas

                  na expressão do animal; pois desde a infância

                              desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,

                           ah, esse espaço profundo que há na face do animal.

Isento de morte. Nós só vemos

                              morte. O animal espontâneo ultrapassou seu fim;

                              diante de sim tem apenas Deus e quando se move

                              é para a eternidade, como correm as fontes.”

                         (Rainer Maria Rilke, Oitava Elegia de Duíno)

Esse poema de Rilke trata da consciência da morte, que os humanos têm, e os animais, não. Mas como lidamos com essa nossa consciência? Na maior parte da vida, ela fica em estado de letargia, como se não quiséssemos o incômodo de conhecer o fim.

Até o ano passado, até março deste ano mesmo, a gente já sabia que podia morrer a qualquer momento, é bem verdade. Afinal, até Oscar Niemeyer, que viveu mais de cem anos, cunhou uma das mais famosas frases sobre a nossa finitude: “a vida é um sopro”. A gente sabia, mas não queria saber. E era um saber diferente do saber a morte que sabemos hoje.

Na real, já podíamos a qualquer momento sofrer um acidente fatal, ou padecer de uma doença letal, ou ser atingidos por uma bala perdida (sendo preto e morando numa favela no Rio de Janeiro, as chances de isso acontecer se multiplicam) ou ser assassinados por mil outros motivos ou mesmo tirarmos a própria vida…

Enfim, há muitas formas de morrer, inclusive as epidemias.

No fundo, porém, tudo isso, pensávamos, vai acontecer com os outros. Nós, os nossos, vamos todos “ficar para semente”. Ou nem pensávamos. Era mais uma sensação. E quando acontecia de a morte atingir um dos nossos, era sempre uma situação inusitada, por mais certa ou esperada que fosse. Eram lutos individuais, periódicos, até certo ponto curativos.

Porém, em 2020 tomamos uma outra consciência, coletiva e trágica, da nossa finitude. Qualquer um de nós e todos nós podemos agora morrer em poucos dias, de uma só causa, um vírus com alto poder de transmissibilidade. Nossos corpos carregam a morte dos outros corpos. Ou eles carregam a nossa.  

É bem verdade que também pode a morte não vir, e não acontecer nada, ainda que contraiamos o vírus. Mas… vai saber… O que temos hoje é a mais angustiante das incertezas. E às vezes não temos sequer a despedida.   

Aquela situação de surpresa que nos acontecia de vez em quando pela morte de alguém que até bem pouco tempo estava ali, rindo, contando histórias ou fazendo planos para o futuro, começou a ocorrer com frequência. No mundo inteiro, qualquer um pode morrer a qualquer instante. E essa obviedade nunca tinha sido tão concreta.   

Muitos de nós perdemos pessoas fundamentais nas nossas vidas. E quase todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa que morreu em razão da covid-19, o nome banal que foi dado à nossa mais trágica fragilidade coletiva em pelo menos cem anos.

Agora todos esperamos coletivamente pela morte que certamente virá. Se não para nós mesmos ou um familiar, virá para alguém conhecido, mais ou menos próximo.

A eternidade já não nos pertence, nem mesmo na forma da antiga ilusão de potência que nos embalou um dia. Nem nos pertencem mais uns tantos rituais de adeus.

Talvez de perder a eternidade saiam muitos de nós impunes. Alguns comportamentos apontam para isso. Outros tantos, porém, guardaremos sequelas profundas deste ano, que só o tempo nos permitirá entender. 

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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