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O Apagão

Acordei da soneca da tarde aperreado com um calor sufocante em meu quarto. O suor escorria em bicas pelas têmporas agoniando-me ao exaspero. Cuidei de levantar-me e, ao perceber o condicionador de ar desligado, constatei que casa estava sem energia elétrica e que as sombras já se faziam mais intensas, prenunciando uma noite às escuras.

Primeiras perguntas: o problema é só aqui mesmo? Foi sobrecarga? Curto circuito? Qual nada! O apagão é geral! A vizinhança confirma: toda Natal está sem luz!

A noite chega e a escuridão e o caos se instalam por completo. Acendemos umas velas vermelhas com odor de canela e ficamos esperando a caçula chegar do colégio. O filho, que mora em João Pessoa, liga para o irmão perguntando se aqui também faltava eletricidade. -Então a coisa é séria! digo isso com base na experiência obtida em blackouts anteriores.

Provavelmente foi uma sobrecarga de consumo devido à temperatura elevada. Ou, talvez, tenha havido um atentado terrorista e explodiram alguma linha de transmissao lá para o lado da Bahia.

Ou, mesmo, algum técnico tenha desligado sem querer o sistema e agora, na escuridão que provocou, não consiga achar a chave para reiniciá-lo. Nessa hora de desespero só consigo me lembrar daquelas malditas bandeiras coloridas que encarecem a minha conta de luz no final do mês. A pequena chega na van escolar e o motorista relata os perigos que passou no trânsito com todos os semáforos desligados.

– Não saiam de casa. Lá fora está um inferno!

As três velas vermelhas já se foram e eu nem senti os odores da canela. Acho mais duas brancas em estado de toco em alguma gaveta esquecida. Tento colocar querosene em um lampião muito antigo e constato que o mesmo está se despedaçando de tão velho. Improviso um pavio, mas a ferrugem esburacou seu depósito de gás e o combustível escorre encharcando o chão sob meus pés.

Mesmo assim, insisto em acender o artefato que se inflama por completo e, tendo que apagá-lo, ganho de quebra uma queimadura em meus dedos da mão direita. Diabos! Que imbecilidade essa minha! A filha começa a gritar escandalosamente aturdida com a escuridão e me deixa mais estressado ainda. Decido: -não aguento mais!…vou ao shopping agora mesmo comprar lanternas, pilhas, velas e um lampião novo.

-Não vá que o motorista disse que está muito perigoso nas ruas! Aconselham os familiares.

-Tenho que ir! Se eu não for, isso aqui vai ficar insuportável!

Saio pela escuridão das ruas e me parece que todos saíram ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo. Hora do rush às 18 h. Os faróis acesos em luz alta, os pisca-alertas ligados tornam mais tumultuada a enorme confusão das ruas. Freadas e buzinaços são o reflexo da impaciência e da desorganização ora instalada nas ruas da capital.

Penso: – se escapar vivo dessa pago uma promessa pra São Cristóvão! Consigo, aos trancos, chegar as portas do shopping, mas, para meu espanto, estão todas cerradas. Todas as lojas fechadas, algumas com funcionários à frente fazendo vigilia.

Da minha frustação vem uma conclusão lógica. Não estou vendo nenhum guarda de trânsito ou policial tentando organizar o fluxo e o contra-fluxo. Deve haver um plano emergencial a ser colocado em prática nesses casos.

Os guardas em seus carros e motos iriam para as principais avenidas e comandariam o sentido da mão e contra-mão com seus apitos, luzes e sirenes. Bem…era pra ser assim… mas não!

Consigo, a muito custo, sofrimento e medo, desviar-me das colisões e dos xingamentos de motoristas possessos; e retornar à casa são e salvo.

– Graças a Deus, cheguei vivo!

Bem, na escuridão total e aproveitando o calorão que a acompanha “de grátis”, fiquei mais de duas horas esperando que a luz viesse organizar o caos. Repentinamente ela retorna e a alegria é total. Clima de gol decisivo de final de campeonato. Gritos, assobios, apupos e foguetório.

Respiro aliviado e vou às notícias da mídia: O apagão afetou os Estados do Norte e Nordeste e comprometeu 22% de toda a oferta energética do período! Decorreu de uma parada de transmissão em alguma hidrelétrica do Pará! Mais informações quando as investigações avançarem! E bla-bla-blá!

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Edmar Cláudio

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