O aparelho ‘humildificador

Por Francisco Daudt
FSP

Em uma crônica no “Globo”, Joaquim Ferreira dos Santos elogia um aparelho imaginário que nunca construí, mas inventei: o humildificador. Ele traz a pessoa à sua devida desimportância, deixando-a livre para expor suas ideias, sabendo que não mudam o mundo, que são opiniões pessoais, mesmo que defendidas com lógica irretocável.

Faço uso do aparelho sempre que escrevo para você. Seus raios são amorosos, companheiros e gentis. Dizem que estou fazendo o bem, mostrando aspectos da natureza humana que você não tinha levado em conta e poderiam te meter numa roubada. O humildificador me mostra também como é gostoso fazer o bem, ele se paga em si.

Mas, se sou despretensioso na forma literária (só quero que me entendam), sou ambicioso em mostrar coisas que possam ajudar o leitor a se sentir mais dono de si.

O artigo tão carinhoso do Joaquim me provocou a demonstrar a diferença entre dois aspectos de nossa natureza completamente opostos.

Falo da humildade e da humilhação. É, estou entrando na complexidade do cérebro.

Ocorre que o Joaquim -que tem site, blog e essas coisas modernas às quais não me adaptei- tem recebido pedradas, escárnios e insultos de leitores numa tal “caixa de comentários”, à qual fui apresentado por ele e que ele considerou que fosse o “humildificador digital”. Ora, telefonei para ele discordando radicalmente de sua tese.

Meu modesto humildificador faz qualquer coisa, menos humilhar alguém. Ele diz que a humildade é uma virtude e que a humilhação é um insulto. Ela só desperta a indignação (o ódio contido), ou mesmo um estado depressivo. Que esses comentaristas pusilâmines, ocultos em seu anonimato covarde, obtêm o gozo sádico descrito por Bataille por meio do triunfo efêmero de ferir o famoso, destilando ódio e inveja por não serem capazes de uma produção semelhante.

É como glória de pichador de monumentos: para seu pequeno palco, obtém 15 minutos de fama: “Que lindo! Ele escatologizou o belo, frente à incapacidade de produzi-lo”.

Há um capítulo de um livro meu (“O Aprendiz do Desejo”, Cia. das Letras) intitulado “O dilema fodão-merda”, que penso ser sobre o tema.

O inseguro tem sua oportunidade de sair do sentimento de ser “um merda” ao tentar fazer com que o cronista se sinta como tal. Descobre no outro um defeitinho para lhe puxar a orelha, nem que seja uma vírgula mal colocada.

E até o Chico Buarque, que caiu na besteira de pôr uma caixa de comentários em seu novo site, descobriu-se odiado, tais as barbaridades que leu lá. A isso se dá, em alemão, o nome de “schadenfreude” (alegria com o sofrimento alheio). É uma triste contribuição da internet, entre outras tão boas. O meu humildificador é o oposto disso.

FRANCISCO DAUDT, psicanalista e médico, é autor de “Onde Foi Que Eu Acertei?”, entre outros livros

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