O apartheid das oligarquias

Por Suely Caldas

Aplicado em 65 países para avaliar o nível educacional de jovens de 15 anos de idade, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) reprisou um dilema que se repete há décadas no Brasil, sem registrar nenhum progresso: os estudantes de Estados do Nordeste têm baixíssimo nível de compreensão e aprendizado escolar e, no futuro, serão tão segregados no mercado de trabalho quanto foram seus pais. Realizado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa detectou avanços lentos entre os alunos do Sul e do Sudeste e mais em escolas privadas do que nas públicas. Mas no Nordeste a tragédia é reprisada a cada pesquisa.

Essa realidade nada mais é do que um sintoma, reflexo de uma situação política em que há quase um século certas oligarquias nordestinas dominam o poder político e econômico local, apropriam-se de bens e riquezas e mantêm a população confinada na pobreza. Há anos à frente dos governos, não interessa a essas famílias democratizar e melhorar a qualidade na educação, porque seu sucesso eleitoral depende justamente do atraso, da falta de conhecimento e de informação de uma população reduzida à condição de servos, de multidão aclamadora nas eleições.

A boa notícia é que, na maioria dos Estados, os eleitores já começaram a separar o joio do trigo e a afastar as famílias oligarcas. Ceará, Pernambuco, Bahia, Sergipe, Piauí e Paraíba têm hoje governadores formados na vida política, que não mais exploram o sobrenome e a herança familiar que eternizam o poder, como ainda ocorre no Maranhão, Alagoas e Rio Grande do Norte. No Estado do Pará, o remanescente da prática coronelista Jader Barbalho acaba de renunciar ao mandato por ter sido condenado pela Justiça com base na Lei da Ficha Limpa. Foi eleito senador, mas não toma posse na próxima legislatura.

É verdade que, mesmo em Estados onde não ocupam o governo, os oligarcas ainda mantêm fatias importantes de poder. Mas também é verdade que a democracia fez a sua parte e os tirou dos palácios de governo. Porém, naqueles onde ainda governam, eles tratam de alimentar o esquema político que os sustenta há anos e que inclui o manejo da máquina administrativa, aliança com os Poderes Legislativo e Judiciário, relações de troca com o poder central em Brasília e domínio dos meios de comunicação, este último fundamental para manter sob o cabresto a população local, sobretudo os menos afortunados em acesso à educação e à informação.

No ranking do Pisa são justamente os Estados dominados por famílias – Rio Grande do Norte, Maranhão e Alagoas – que apresentam as piores pontuações do País em leitura, Matemática e Ciências. Neles, é o ensino público que prevalece, pois a população é pobre, não tem como pagar escola privada. Neles, professores descrevem cenas dramáticas de estudantes desnutridos, carteiras quebradas, falta de livros e cadernos, escolas desabando, professores despreparados, ausentes e mal remunerados. As crianças até estão na escola, mas não aprendem. Ao distribuir verbas, os governos não priorizam a educação ou desviam o dinheiro para campanhas eleitorais. É assim que, comparado com os Estados do Sul e Sudeste, os governos do Nordeste submetem os nordestinos a um verdadeiro apartheid social, em educação, emprego, alimentação, etc.

Criada em 1959 pelo economista Celso Furtado, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) tinha o propósito de levar progresso econômico, reduzir desigualdades regionais e tirar o Nordeste do atraso e da pobreza. O progresso não aconteceu, as desigualdades persistem, o atraso também, e os recursos públicos que deveriam financiar empreendimentos econômicos sumiram em projetos inexistentes. Furtado tinha boas intenções, mas os aplicadores do dinheiro não.

Se canalizado honestamente para a educação, todo o dinheiro público que alimentou a Sudene e a indústria da seca e outros recursos tomados em nome do povo nordestino, nos últimos 50 anos, a esta altura só existiria por lá doutor.

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