O autor está morto, diz Jean-Luc Godard

Por Fiachra Gibbons
THE GUARDIAN – FSP

Jean-Luc Godard tem uma solução para a crise financeira da Europa. Ela é simples e criativa, como se poderia esperar de um homem que nos anos 1960, juntamente com todos os jovens cineastas da Nouvelle Vague, libertou o cinema da camisa-de-força dos estúdios. “Os gregos nos deram a lógica. Temos uma dívida com eles por isso. Foi Aristóteles quem propôs o grande ‘logo’. ‘Você não me ama mais, logo…’. Ou, ‘encontrei você na cama com outro homem, logo…’. Usamos essa palavra milhões de vezes para tomar nossas decisões mais importantes. É hora de começarmos a pagar por ela.”

“Se formos obrigados a pagar dez euros à Grécia cada vez que usarmos a palavra ‘logo’, a crise acabará em um dia, e os gregos não precisarão vender o Partenon aos alemães. Temos no Google a tecnologia para rastrear todos esses ‘logos’. Podemos até cobrar das pessoas pelo iPhone. A cada vez que Angela Merkel disser aos gregos ‘nós emprestamos todo esse dinheiro a vocês, logo vocês precisam nos pagar de volta com juros’, ela será obrigada, logo, a pagar primeiro aos gregos pelos royalties.”

Ele ri, eu rio, alguém que está ouvindo na sala ao lado ri. É claro que Godard é contra todo o conceito capitalista burguês do copyright: ele dá uma banana a isso em uma gag pouco sutil no final de “Film Socialisme”, a mais recente salva de tiros em sua guerra de 40 anos contra Hollywood, lançado no Brasil no final de 2010. O “enfant terrible” do cinema pode estar com 80 anos, mas não perdeu nada de sua verve em matéria de irreverência e espírito do contra.

“Film Socialisme” é o mais puro Godard em toda a glória desconcertante de sua fase mais recente: um ataque visual avassalador que entorpece os olhos, o cérebro e as nádegas do espectador, que toma liberdades com a paciência e a resistência mental dele, mas cuja originalidade é inegável. Não há trama, é claro. Em vez disso, estamos ao mar em um cacofônico navio de cruzeiro no Mediterrâneo, uma Las Vegas flutuante que se afoga em consumo excessivo, onde um coro grego de atores e filósofos perambula entre os passageiros de meia-idade, citando Bismarck, Beckett, Derrida, Conrad e Goethe em francês, alemão, russo e árabe.

Não é fácil de se assistir. A vontade de viver frequentemente desaparece enquanto imagens do último século atormentado passam diante de nossos olhos –apenas para ser despertada outra vez pelas tomadas sublimes que Godard faz do navio e do mar, ou por alguma citação aleatória que acerta o alvo em cheio. “Ter razão, ter 20 anos, ter esperança”, ouvimos enquanto Patti Smith percorre o convés com sua guitarra, como uma adolescente mal-humorada. Quer dizer que é isto o futuro do cinema, como alegam os defensores de Godard? Tenho minhas dúvidas. Só sei que ninguém mais faz filmes deste jeito. E que outro diretor importante colocaria o filme inteiro no YouTube –embora em velocidade-relâmpago– no dia antes de chegar aos cinemas.

Os discípulos eternos de Godard veem “Film Socialisme” como não apenas uma metáfora da Europa –um navio de descontentes envelhecidos boiando à deriva em sua própria história–, mas como um manifesto em favor de “uma nova república de imagens”, livre do domínio morto da propriedade corporativa e das leis de propriedade intelectual. Este novo cinema será recortado e colado em um mundo para além do copyright, onde os direitos do autor em pouco tempo passarão a ser vistos como tão medievais quanto o “droit du seigneur” (o suposto direito dos senhores feudais de deflorar as donzelas que viviam em seus domínios, antes de elas se casarem). Godard lançou pouca luz sobre sua criação até agora, tendo desaparecido sem explicações exatamente quando o filme fez sua estreia em Cannes este ano, deixando apenas uma mensagem: “Em função de problemas de estilo grego, não poderei estar com vocês em Cannes. Eu iria até a morte pelo festival, mas nem um passo além disso.”

Este é o tipo de Godard satírico que já conhecemos, o Godard dos grandes gestos, o Godard que é objeto de piadas intelectuais desde que fez um desvio pelo obscurantismo maoista depois de reescrever as regras do cinema no início dos anos 1960 com filmes como “Acossado”. Incitado por Raoul Coutard, seu brilhante diretor de fotografia, ele filmou ao improviso, com câmeras seguradas na mão e praticamente nenhum roteiro, abrindo o caminho não apenas para a Nouvelle Vague francesa mas para toda uma geração de diretores independentes em todo o mundo. Scorsese, Tarantino, Altman, Fassbinder, De Palma, Soderbergh, Jarmusch, Paul Thomas Anderson –de uma maneira ou outra, eles e incontáveis outros se inspiraram neste enigmático cineasta suíço dotado de uma reserva inesgotável de aforismos espirituosos que manterão os teóricos do cinema ativos por séculos: “A fotografia é verdade. O cinema é verdade 24 vezes por segundo”, “uma história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem”.

Mas parece que, em algum lugar no meio desse caminho, o homem foi consumido pelo mito. O Godard que está sentado à minha frente em um apartamento de Paris, usando uma camiseta tão apertada que lhe dá o ar de um Buda de óculos e barba por fazer que foi acordado no meio de sua soneca da tarde, é tão mais humano, tão mais infantil que a lenda. Ele fala com um ligeiro ceceio. Ele é brincalhão e paciente. Procura responder perguntas que outros poderiam interpretar como insultos. Ele faz sentido, na maioria das vezes. É difícil enxergá-lo como o sujeito “merda” com quem o colega cineasta da Nouvelle Vague François Truffaut se desentendeu nos anos 1970.

Godard chega a falar bem de Hollywood, ou, pelo menos, da Hollywood dos anos 1930-1950, “que sabia fazer filmes como ninguém mais sabia. Hoje, nem mesmo os noruegueses conseguem fazer filmes tão ruins quanto os americanos.” Ele se derrama em elogios à forma não narrativa dos westerns. “Só o que você sabe é que um estranho chega à cidade a cavalo.” Pergunto sobre a pressão de ser visto como o autor dos autores, um visionário permanente. “Não sou um autor, bem, pelo menos, não agora”, ele responde tão casualmente como se deixar de ser autor fosse como deixar de fumar. “Houve uma época em que pensávamos que fôssemos autores, mas não éramos. Realmente não fazíamos ideia. O cinema acabou. É triste que ninguém esteja explorando o cinema realmente. Mas, fazer o quê? De qualquer maneira, com os celulares e tudo o mais, hoje todo o mundo é autor.”

Godard raramente concede entrevistas e frequentemente as cancela. Há mais de 30 anos ele vem tentando encontrar uma nova linguagem do cinema, encerrando-se em sua garagem na enfadonha cidade suíça de Rolle. Um filósofo francês me contou que certa vez passou uma semana diante da casa de Godard, aguardando em vão por uma audiência. Pergunto sobre o significado do lhama e do asno em “Film Socialisme”, motivo de muitos questionamentos por parte de críticos. “A verdade é que eles estavam no campo ao lado do posto de gasolina na Suíça onde filmamos a sequência. Voilà. Não há mistério algum. Eu uso o que encontro.” Ele diz que as pessoas frequentemente identificam significados inexistentes em seus filmes. Começo a me perguntar se é possível que Godard tenha sido profundamente incompreendido: será que, na realidade, ele é muito mais simples do que parece?

“As pessoas nunca fazem as perguntas certas”, ele diz. “Minha resposta à pessoa que jamais vai me fazer a pergunta certa sobre este filme é que a imagem que eu gosto realmente é a imagem sobre a Palestina, os trapezistas.” É uma metáfora da beleza que nascerá no dia em que judeus e árabes aprenderem a trabalhar em conjunto.

Estamos nos aproximando do tópico espinhoso do suposto antissemitismo de Godard, tema que voltou à tona novamente no ano passado quando ele recebeu um Oscar honorário. Sua hostilidade a Israel e seu apoio forte à causa palestina muitas vezes foram confundidos com ódio aos judeus, acusação que ele diz ser “idiota”. O filósofo Bernard-Henri Lévy, que trabalhou com Godard em uma série de projetos abortados sobre “o ser judeu”, certa vez descreveu o cineasta como um homem “que está tentando se curar de seu antissemitismo”. Este pode ou não vir de sua família franco-suíça de alta classe, muitos de cujos membros foram favoráveis a Vichy. Em “Film Socialisme”, Godard volta a enfiar a mão no vespeiro, com falas como “que estranho que Hollywood tenha sido inventada pelos judeus”.

Outro livro que o acusa de antissemitismo saiu algumas semanas atrás, do intelectual Alain Fleischer. Este define como antissemita qualquer pessoa que se opõe à existência de Israel; ele admite, contudo, que Godard é antissemita apenas no mesmo grau em que “um judeu às vezes pode sê-lo”. Procuro espicaçá-lo para que dê uma resposta, mas Godard não morde a isca. “Isso me deixa triste. Ele diz que o homem falou isso, mas o homem e a obra são coisas diferentes.” Pergunto se isso quer dizer que o homem pode ser antissemita, mas a obra não é, mas Godard faz um gesto de afastar com as mãos. “Não, não! Isso é ridículo.”

Preparo-me para partir, perguntando o que ele vai fazer a seguir, e ele se levanta rapidamente, como um adolescente, e vai procurar entre objetos na sala ao lado, retornando com um roteiro. “Tome”, diz Godard, escrevendo uma dedicatória a “o guardião da cinematografia”, pensando, por alguma razão, que eu talvez possa ajudar para que o filme seja feito. Fico comovido, mas profundamente entristecido pelo fato de um grande pioneiro do cinema estar sendo obrigado a usar desses estratagemas para divulgar sua criação.

Mas será que ele está mesmo? Será que Godard, aos 80 anos, está simplesmente oferecendo sua criação para quem quiser vê-la –como, por exemplo, colocando seu filme no YouTube? Enquanto desço o bulevar Magenta, me pergunto se eu mesmo deveria fazer o filme, já que direitos autorais e o conceito de autor já não significam nada para Godard. O roteiro é intitulado “Adieu to Language” (Adeus à Linguagem), e é mais ou menos isso mesmo. Trata de um casal e um cachorro, da vida, da morte e de todo o resto, embora o cachorro seja o protagonista real. Sim, quem sabe eu deva fazer o filme. Mas será que o mundo já está preparado para “Lassie – A Busca de um Cão por Sentido em um Universo Existencial”? Ou, algo mais louco ainda– um filme de Godard com final feliz?

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