O Bar do Aldo

Arte: Marcelus Bob

Houve um tempo em que o coração da boemia de Natal ficava no baixo, ali na praia do meio onde durante o dia reunia a moçada para tomar banho e sol e jogar frescobol. Descendo a ladeira do sol tomando as esquerdas ficava o bar do Aldo na calçada onde estava situado o famoso Castanhola- Bar e mais adiante o Hotel Reis Magos e a Tenda.

Nesse corredor até Miami ficavam os bares onde reuníamos em noites memoráveis. No Aldo tinha o melhor tira-gosto de Natal. Uma maminha e um bolinho de bacalhau como jamais comi outro igual. Atendimento caseiro e boa música onde improvisávamos o dancing de vitrola. Uma quina de parede servia de escudo para os namorados que ficavam na mesa.

Ali reunia toda semana um grupo de grandes amigos e um naipe feminino de primeira grandeza. A cachaça invadia a madrugada e molhava a palavra sedenta de cerveja e prosa. Muitas vezes quebrava minha velha TL e eu deixava na praia por dias, ate papai ir buscar. Os meninos faziam piquenique no seu interior até que um amigo meu chegou pela manhã e disse que conhecia o dono do automóvel

Todo bêbado tem suas manias. Um dos nossos queridos amigos gostava de sentar no colo do outro. Havia um outro que gostava de golpear no ombro e braços do que estava próximo. Um outro mais afoito em pegar a namorada do amigo. Tomou-me até aquela mulher da noite. Ninguém resistia à sua lábia. Para ter uma idéia da sua periculosidade, ele fez com que uma amiga que não era do grupo, gostasse de Noel Rosa.

Certa noite a cachaça foi maior e o bolinho de bacalhau estava melhor ainda. A musica boa alcançou a madrugada. Não tinha condições de nada, depois de tantas. Tive que dormir ali mesmo num quartinho de despejo. O amigo Aldo e sua gentil esposa me colocaram numa rede pouco esticada. Dormi com os gatos e de boca aberta. Acordei todo maquiado e de sapato alto num culto a San Genet. Tudo presepada de um poeta processo. Os amigos que tinham dormido ali e outros que foram chegando pela manhã e sorriam muito com aquela prejura pintada.

Chegou um grande amigo. Todo de branco com sua bata de médico saído de um plantão no hospital colônia. Tomou meu pulso e verificou minha pressão. Antes de medicar soro eu não consegui segurar a fúria daquela gorpada de vomito direto nos seus bolsos de linho branco. A comida da noite anterior ficou estragada e mal processada.

Tomar um banho e começar tudo de novo. No Bar do Aldo vivemos grandes momentos de boemia de uma Natal que já não há. De uma cidade horizontal onde a brisa abundava, conforme dizia um outro amigo. Saudades.

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