O Bar do João

Foto de Rodrigo Soldan

Por François Silvestre
NO NOVO JORNAL

Cruzamento da Rua da Glória com a Cândido Mendes, onde moram Raoni, Aurélia e Felipe. Das mesas na calçada, se avista a torre singela e clara da igrejinha do Outeiro da Glória. Aqui ainda se vive a ilusão de uma cidade pacata. Nesse recanto do Rio, que a exemplo de todos os lugares o sossego coletivo cedeu lugar à paranóia da violência. Ou melhor, à violência que alimenta a paranóia coletiva.

Pela manhã, curo a ressaca do chope com Felipe, me obrigando a jogar bola no pequeno corredor do apartamento. De olho na sua corrida ainda aprendiz, vez ou outra trombando o rosto no taco da casa e enfeitando a testa com galos carentes de gelo e afago.

Uma discussão, daquelas sem fim dos bares, me levou a ler um belo e enigmático livro, por sugestão de Raoni. “O último teorema de Fermat”. Obra que trata das figuras ímpares de Pitágoras, Fermat e Andrew Wiles; Tendo por tema de fundo um enigma matemático que desafiou o pensamento humano por mais de trezentos anos.

Na assistência de um jogo Olímpico, o príncipe Leon de Pilos perguntou a Pitágoras de Samos como ele se definia. “Eu sou um filósofo”. Ao ouvir aquela palavra estranha pela primeira vez, o príncipe quis saber o que significava.

Pitágoras explicou que ali mesmo, naquele evento, estava a explicação. Havia pessoas que viviam para ganhar dinheiro. Outras que vivem para dominar e impor. Outras tantas para variadas atividades. E algumas poucas, pouquíssimas, que vivem para compreender o que se passa. Era aí onde se enquadrava Pitágoras e a nova palavra inventada.

Revejo, no Rio, caminhos que fiz na época da clandestinidade. Não voltei aos pontos do turismo burocrático. O Redentor me basta de longe. O Pão de Açúcar nem é tão imponente quanto a Pedra Rajada. A Praça Floriano continua linda, vista de uma mesa de bar. Faço com facilidade amizade com garçons. Eles exercem a mais útil de todas as profissões.

São psiquiatras do ar livre ou da liberdade que a bebida oferece. O bar é um repelente da hipocrisia.

Passam ou chegam figuras famosas. Do cinema, televisão ou teatro. Vistas assim nem são tão belas. Ou são comuns como nós. Sem o brilho do palco ou das telas. Com seus dramas pessoais, suas fisionomias desvestidas de ilusão.

Felipe adormeceu e eu vou ao Bar do João, (Rest. Vila Rica), onde me espera um chope de espuma amanteigada.

Vou brincar de Pitágoras, tentando compreender o que se passa na cabeça dos passantes. Pergunto ao garçom o que é um teorema. Ele responde com outra pergunta: “É de massa ou de carne”?

Adianta explicar que é de números? Nem por que “doze” é um numero excessivo, “dez” é deficiente e “vinte e oito” perfeito?

Um dia, Felipe saberá disso. Melhor do que nós. Té mais.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Lívio Oliveira 20 de junho de 2011 6:47

    Belo texto, François. Vale um “vinte e oito”, posto que redondinho, leve. Tem um humor peculiar e tocante.

    Abraço pra você.

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