O bar

O bar é uma instituição democrática. “Um sindicato de sócios da mesma dor”. Foi nesse ambiente que vivi grandes momentos da minha vida que confesso, bebi em grandes tragos. Nos bares travei grandes debates filosóficos, poéticos, passionais e amorosos. Muitos namoros nasceram nos bares e escurinhos.

Mário Quintana tem um poema que eu gostava de dizer nos aniversários dos meus amigos. Aquele que fala da erudição das garrafas e da gargalhada até o crânio rachar. Foi assim gargalhando que vi muitos bares fechar e fechei alguns. Depois de pedir a saideira e pedir para passar a régua.

Tomei muito samba em Berlim, cuba livre e Hi-FI.
Do gim gostava o cheiro. Da vodka polonesa ou russa no congelador.
Natal infelizmente não tem uma grande tradição de bares. Perdemos todas as referencias. O Iara-Bar ali na praia de Miami nunca fechava. Chegávamos na madrugada e encontrávamos Oscar meio sonolento que nos atendia da penúltima saideira da noite. Muitas vezes saíamos do cinema para os bares onde se estabelecia um colóquio da mais acirrada discussão sobre o filme visto.

No Nemésio ali na avenida Rio Branco tomamos toda sua carta de vinhos maravilhosos. Em alguns bares dava-se verdadeira catarse de um tempo duro. Cantávamos a ultima de Chico ou do Gonzaguinha. Na casa da maçã vindo da festa de Santos Reis encontramos Giovanni que furou a bola de encher de uma das minhas queridas amigas. Ele sempre com aquelas conversas pesadas. Encontrar ele na noite era um sinal de adensamento do ar que ficava irrespirável. Bom papo assim mesmo.

Com o “galo” discutimos toda a filosofia de Wittigenstein e a poesia de Elliot e Pound. Pena que ele não escreveu tanta sabedoria, mas com certeza encheu as nossas noites de erudição e saber. Não foi tão feliz no amor como um outro amigo que tomava todas. Até aquela mulher da noite ele tomou de mim. Eu dirigia e ele namorava. Inteligente e poeta, pagava a conta com versos e humor. Lá pro final da noite a conversa ficava séria e começava a discussão sobre a vida.

Gosto muito de histórias de bar. Veríssimo numa de suas crônicas fala do Rubens que toma tudo por ele. Ele sempre pede duas doses. Uma para ele e outra para o Rubens. Claro, que é o Rubens quem sai bêbado.

Essa conversa já vai se alongando e já acumulei muitas rodelas de chopp. Só assim o garçom não me enrola e não tenho como justificar só duas cervejas com aquele escritor que tomava todas.

Bebi com muita gente maravilhosa. Luis Carlos, Newton Navarro eram bons copos e companhia. Lamentei não ter alcançado o tempo áureo do amigo Jarbas. Um grande bebedor pagava todas com direito a porrada nos braços. Se é para o bem de seu fígado e felicidade dos amigos que ele continue assim. Eternamente bêbado de virtudes e poesia. Nem todo mundo é Baudelaire.

Alguns amigos beberam outras coisas e já foram deixando versos e saudades. Aprendi tudo sobre vinho e comecei tomando capelinha e sangue-de-boi. E os caras reclamam dos dias de hoje com tudo mais fácil e uísque oito anos do Paraguai ao preço de um Hi-Fi de antigamente.

Hoje, bebe-se melhor e mais barato, mais tenho saudades do tempo do crush.
Até. Vou tomar uma.

Um brinde á vida. Gracias.

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