O barroco de Josefa de Óbidos na tela “Cordeiro Pascal”

Por Ana Cecília Silveira de Medeiros

“Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, tome cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro para cada casa.

Mas, se a família for pequena para um cordeiro, então, tome um só com seu vizinho perto de sua casa, conforme o número das almas; conforme o comer de cada um, fareis a conta para o cordeiro.

O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras

e o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o sacrificará à tarde. {Heb. entre as duas tardes}”

Êxodo. 12.3-6

Como lembrar do barroco português sem ao menos mencionar Josefa de Óbidos? Josefa foi uma grande artística barroca que fez com que Portugal também pudesse ser lembrado por sua arte em tela. Para conhecer um pouco mais sobre o barroco português e a arte de Josefa de Óbidos pode-se analisar uma de suas telas, no caso “Cordeiro Pascal”, e fazer a sua relação com o contexto da artista e do barroco. Dessa forma, é possível fazer um melhor aprofundamento do barroco português analisando a tela “Cordeiro Pascal” de uma das suas grandes artistas da arte barroca portuguesa.

O barroco é o aprofundamento sensorial e naturalista, que apela para as sensações fruídas na variedade incessante do mundo físico, é uma arte acentuadamente realista e popular, animada de um poderoso ímpeto vital, comprazendo-se na sátira desbocada e galhofeira, dissolvendo deliberadamente a tradição poética petrarquista, caracteriza-se pela ostentação, pelo esplendor e pela proliferação dos elementos decorativos, pelo senso da magnificência que se revela em todas as suas manifestações, tanto nas festas de corte como nas cerimônias fúnebres, e tende frequentemente para o ludismo e o divertimento. E é em meio ao barroco que surge Josefa de Óbidos.

Josefa de Ayala Figueira, mais conhecida como Josefa de Óbidos, ficou conhecida na literatura portuguesa por suas belas telas barrocas, que apresentavam temáticas religiosas. Josefa era filha de um pintor português chamado Baltazar Gomes e da espanhola Catarina de Ayala, ainda criança ela aprendeu observando o seu pai a arte da pintura.

Na adolescência os seus pais a mandaram para um convento em Coimbra no qual recebeu aulas de pintura a par dos ensinamentos religiosos. No entanto, Josefa não quis continuar seguindo a vida religiosa e voltou para Óbidos, a sua terra natal, em 1653, e, após a morte de seu pai, passou a pintar para sustentar a sua família até o dia em que morreu em 1684.

Os trabalhos de Josefa tinham inspiração religiosa, fato facilmente explicado pelos ensinamentos que recebeu durante o tempo que esteve no convento, e ainda as suas representações de natureza morta, são a sua imagem de marca e fizeram dela um dos nomes mais importantes da pintura barroca portuguesa. A sua pintura está presente em numerosos conventos e igrejas, que se encontram em Óbidos e em Cascais. O talento de Josefa é inegável, as suas telas são esplêndidas, assim como as suas representações da natureza morta e da Bíblia.

Josefa pintou várias telas com temáticas religiosas dentre elas, uma das que mais se destacou, foi “Cordeiro Pascal” pintada entre 1660 a 1670. O Cordeiro Pascal de Josefa de Óbidos é inspirado no “Cordeiro de Deus” de um pintor barroco espanhol chamado Francisco de Zurbarán e Salazar , que é uma tela pintada entre 1635 a 1640.

Mas a tela de Josefa tem o seu diferencial por ela retratar tão bem uma de suas grandes marcas que é a natureza-morta por meio de belas flores e uvas em volta do cordeiro, que se encontra aparentemente novo, enquanto que na tela de Zurbarán é encontrada apenas a representação do cordeiro que tem aparência um pouco mais velha em comparação com o cordeiro de Josefa, não sendo assim uma tela tão rica em detalhes.

O cordeiro é o símbolo mais antigo da Páscoa.

A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, que é conhecida por Pessach, que em hebraico quer dizer passagem, referindo-se a passagem do anjo da morte no Egito. Tendo, porém, significados diferentes. Na saída do Egito, quando o povo hebreu recebeu a instrução para que matassem um cordeiro e passem seu sangue nos umbrais da porta, para que o anjo livrasse seus primogênitos da morte, temos aí a representação do que é a verdadeira Páscoa. Para os cristãos, é o sangue de Jesus Cristo, o Cordeiro Pascal, que nos purifica de todo pecado e nos livra da morte eterna. Já para os judeus representa a comemoração da saída dos hebreus do Egito, onde eram escravos.

Depois de ter o conhecimento dos significados do cordeiro que Josefa representou poderia ter, fica evidente de que ela utilizou o significado cristão, mas isso não pode ser notado apenas pelo fato dela ter tido uma vida religiosa cristã, isso pode ser notado ao analisar a sua tela, sendo possível perceber a semelhança que ele tem com o cordeiro que deveria ser sacrificado para que o povo hebreu se livrasse do anjo da morte e Páscoa fosse celebrada.

Na pintura de Josefa o cordeiro é aparentemente novo podendo ter, dessa forma, um ano de vida assim como foi descrito o cordeiro das escrituras na Bíblia, o que não fica realmente claro é se esse cordeiro é macho ou não, mas é possível perceber que ele tem as suas pernas presas tornando-o pronto para ser sacrificado, assim como foi ordenado que o povo hebreu fizesse após mantê-lo preso por quatorze dias. Dessa forma, é possível perceber de que se trata de uma representação do Cordeiro Pascal cristão.

O Cordeiro Pascal de Josefa ainda tem algumas marcas que remetem a Páscoa cristã, como as uvas que ficam nos cantos da tela, representando o vinho, que por sua vez representa o sangue de Cristo. Sendo assim o cordeiro de Josefa está representando o sangue de Cristo tanto pelas uvas quanto pelo aparente sacrifício do cordeiro. Ainda é possível perceber na tela um anjo sob o cordeiro que dá a tela um caráter religioso marcante de Josefa.

Já o Cordeiro Pascal de Zurbarán só tem o seu significado facilmente compreendido devido ao próprio nome da tela se tratar de “Cordeiro de Deus” que remete ao significado cristão do cordeiro. Ainda é possível notar que o cordeiro que ele representa possui chifres deixando claro que se trata de um macho, a única característica que não está completamente claro é a idade que ele tem, pois devido ao seu tamanho e o tamanho dos chifres ele aparenta ter mais de um ano de vida. Mas cada pintor tem a sua forma de representar o que esta pensando e Zurbarán evidentemente representou o Cordeiro Pascal de uma forma diferente da que Josefa representou.

Ainda é possível analisar a tela do “Cordeiro Pascal” de Josefa de Óbidos de acordo com os aspectos barrocos. Podemos ver que ela abusa dos detalhes e faz uso das suas impressões sensoriais para elaborar a tela. A natureza morta é vista por toda a tela já que a própria representação do cordeiro se trata de uma natureza morta, assim como as flores e uvas que estão espelhadas ao seu redor. Os traços que Josefa usou ao pintar dão à tela a impressão de que é uma imagem real quase como um foto, devido ao grande detalhamento tanto do cordeiro como do que há em torno dele.

Então podemos dizer que o Cordeiro Pascal, como um todo, pode ser representado de várias maneiras, mas mantém sempre um significado simbólico. Tanto Josefa quanto Zurbarán fizeram as suas representações do Cordeiro Pascal, não cabe aqui dizer quem melhor representou o cordeiro, uma vez que, o que importa é perceber que cada pintor ou autor tem uma percepção diferente dos fatos que conhecem. Portanto, podemos apreciar telas com uma temática igual, mas com uma percepção completamente diferente da outra e dessa forma poder aprender um pouco mais sobre a percepção humana mesmo que indiretamente.

Mesmo tento um grande talento em suas mãos, Josefa, acaba por morrer ainda nova, com um pouco mais de cinquenta anos, e não deixa nenhum herdeiro de seu tão belo talento, apesar de que o seu irmão Barnabé de Ayalla também ter sido pintor, aparentemente Josefa não lhe passou os seus ensinamentos. Ela tinha as suas próprias impressões sensoriais, as sua própria forma de ver o mundo, e a sua forma de representar a natureza morta era única, além disso, as suas representações, podendo ser religiosas ou não, podem encher os olhos de qualquer apreciador da arte de alegria e satisfação, e não podendo ser copiadas e ensinadas com tanta facilidade por qualquer pintor que seja, devido as suas pinturas se tratarem de sua própria percepção sobre algum fato, sendo assim uma forma de mostrar a sua opinião por meio de uma bela tela.

Josefa de Ayala Figueira deixou um grande tesouro para a arte barroca portuguesa e deve ser guardada e lembrada por todos, independentemente de ser um apreciador da arte portuguesa ou não, e acabou, dessa forma, sendo um grande exemplo para o barroco em Portugal. Portanto, ao estudar o barroco português é preciso lembrar-se de Josefa e suas telas que apresentavam belas representações religiosas e de natureza morta, e saber que o barroco português teve, e ainda tem uma grande representante do barroco para o mundo.

Graduanda do curso de Letras da UFRN. Aluna do professor e poeta Márcio Dantas.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo