O bêbado e o seu mercado

Por Jairo Lima
Publicado na revista Palumbo e no blog Papo Furado

Nas tardes modorrentas de Natal o Mercado de Petrópolis era o Taj Majal do silêncio e do vazio. Abertos, só eu, com o sebo e bistrô Kriterion e o bar do Gilmar; ele com alguns poucos, mas fidelíssimos clientes, eu com as moscas. De manhã, ainda aparecia algum cliente para comprar uma frutinha, uma carne de sol, ou para tomar uma cervejinha gelada ou ainda um café com tapioca na Dalila. A partir das onze e meia da manhã, começava o ruído metálico das grades dos boxes se fechando. O abandono zunia como vespas aprisionadas, e só a presença de uma ou outra gata prenha, um ou outro cachorro vadio, um ou outro papudinho, amenizava a devoção ao nada dos grandes cemitérios.

Eu era vidrado nos papudinhos. Eram uns cinco – coitados, quase todos morreram no mesmo ano; como todo bêbado, seres solenes e territorialistas. Bebuns de outras plagas eram expulsos sem compaixão, preservando severamente de alienígena contaminação a sua trêmula e zelosa confraria. Ah, já não lembro os nomes. Foram morrendo um a um, ou melhor, aparecendo mortos dentro do próprio mercado, pois era lá que viviam. De tão ciosos de sua individualidade, cada um morria de sua própria doença, como se algum destino inescrutável quisesse ilustrar com suas mortes um manual de patologia clínica.

A decadência do Mercado de Petrópolis era leitosa e macia. Faltava-lhe a impostação das grandes tragédias. O mercado morria em miúda intimidade, balbuciante, voltado para dentro, prostrado, em silêncio.

Os papudinhos um dia foram chamados ébrios. Palavra tão doce, redonda e alevantada que servia até para pai de família. Ébrio. Vicente Celestino marmorizara o termo, dera-lhe contorno trágico e tessitura poética. Ao ébrio, como aos grandes trágicos, não o conduzia o sentido comum do prazer, mas, antes, a carga inexorável da dor, sobretudo, ah, sobretudo a dor da traição. Por trás de todo ébrio havia uma mulher quenga e fatal. Não eram fantoches do destino. Eram deuses trêmulos, voluntariosos e veneráveis. Para eles se erguia o hinário da cantiga popular, em todos os altares, mercados e rimas: Vá embora, pois me resta o consolo e a alegria de saber que depois da boemia é de mim que você gosta mais.

Tiêta era ébrio, gostava de cachaça e do seu companheiro, que por falha inaceitável da memória aqui deixo anônimo. Era uma celebridade. Não a celebridade vazia dos amadores dos popismos culturais. Celebridade mesmo. Com C maíúsculo. Ex-presidiário, vivia com seu companheiro, a quem a dignidade de bêbado titulava para afeição eterna. Eram inseparáveis. Viviam ao léu, como lhes dava na telha. Em tempos passados, dizia-se, tiveram um quartinho ali pelas cercanias do mercado, mas quando os conheci, viviam da severa generosidade de Tia Deja, mulher solar e inteira, mãe e avó de muitos, cozinheira como poucas; tia Deja lhes dava o que comer; os centavos que pingavam aqui e ali lhes prodigalizava a cachaça a quem consagravam os incensos do dia.

Eram criaturas de silêncio. Quase não falavam entre si, exceto para uma comunicação urgente, inadiável, essencial. Viviam sempre juntos, por ali, dormindo nas portas do mercado ou, nos dias de calor mais intensos, tirando a madorna na calçada larga que dava para o bairro de Mãe Luiza. Eram, como dizia, criaturas de silêncio: às vezes, quando muito tocado, ouviam-se uns berros de Tiêta, guturais, herméticos, cifrados; do companheiro, nem um piu. Não brigavam. Não discutiam. Não reclamavam. E deixavam a neurastenia da vida para as novelas da televisão e os noticiários. Ali estavam e eram dois. Bastavam-se.

Diante deles só era possível a contemplação, como se fossem obras de arte. Não eram interativos. Não eram lúdicos. Não pediam nem davam pena. Eram carne, nervos, ossos monumentalizados pela solidão.

Um dia o companheiro morreu. Ou melhor, uma noite. Ou, ainda, uma noite de boleros, com casais rodopiando no cimento da praça de alimentação.

Desenganem-se os enamorados; o bolero foi feito para morrer.

E ele, inominado nesta croniqueta por escassez de juízo do cronista, morreu tão se apagando lentamente que ninguém notou; finda a festa, o baile passou por ele indiferente, julgando-o adormecido. Um bêbado adormecido. No dia seguinte, como já fosse tarde, alguém se aproximou para ver seu olhar opaco, crivado de brumas, fixo, doce, inalterado. Alarmou. Cadê Tieta? Cadê Tieta?

O pobres e desvalidos desdenham de sinos e catedrais para morrer; basta-lhes um tremelicão, espichar os ossos, apagar o lume dos olhos e ei-los embarcando para o curto período de memória que antecede a sua morte definitiva, quando ninguém sequer lhes lembra o nome. A memória de uma vida de bebum é tão nublada e cambaleante que nem chega no Alecrim*.

Cinco e vinte da tarde

Fecho a Kriterion, de tardinha, e saio pela porta do fundo. O dia escurecia e sangrava. Tiêta, em pé, olhando para o alto, não me viu passar, não respondeu ao meu boa noite. Voltei-me, encarei-o. Ele não me viu nem mesmo assim, perfilado à sua frente, encarando-o. Ali estava, perplexo com a dimensão vazia da sua dor. Como se tivesse morrido em pé.

A luz da tarde que se apagava, tremia.

Aquele olhar inerte desdenhava das nuvens ensanguentadas que encenavam sua primeira noite de saudade, como se ali, naquele céu de opereta, houvesse um deus a quem amaldiçoar.

O Mercado de Petrópolis é o olhar de Tieta, vazado de trevas, perfurando a tarde, a solidão, o vazio.

Logo depois, Tiêta desaparecia do mercado para aparecer no jornal, numa foto implausível.

Limpo e barbeado, pasteurizado pela generosidade doce e equivocada de algum benfeitor, parecia o busto de si mesmo.

Estava mais morto que o seu morto.

O jornal indagava de sua família. Ora, éramos nós. Um dia, alguém foi buscá-lo e ele retornou ao mercado, à cachaça, à sujidão, aos gritos, à vida intensa e descuidada. Era o Tiêta de sempre. De diferente só o olhar, esmagado de saudade.

P.S.

Há um ano deixei Natal e o seu mercado. Há um ano deixei Tiêta e não soube mais dele. Alguém pode perguntar pro Gilmar, pra Tia Deja, pra Dalila, pros bebuns, pra Dona Cristina, pro seu Pedro, pra Dona Yolanda; alguém pode me perguntar por Tiêta? E mandar notícias pra mim?

*Cemitério de Natal

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dez − oito =

ao topo