O bigode de Sarah Maple

Por Luciano Trigo

No começo dos anos 50, Matisse recebeu de seu filho Pierre, marchand radicado em Nova York, catálogos que reproduziam obras de Pollock e outros artistas do expressionismo abstrato. Ele mostrou os catálogos a Picasso, seu velho amigo e rival, que rejeitou de forma categórica aquela nova maneira de pintar, “francamente desagradável”.

Matisse ponderou que um artista não pode compreender -e, portanto, não deve julgar- as inovações de seus sucessores. Picasso discordou: “Sou contra esse tipo de coisa”.

A conversa é narrada por Françoise Gilot em suas memórias. Procuro lembrar-me dela quando escrevo sobre a produção artística contemporânea. Picasso, gênio que revolucionou ao menos três vezes a história da arte, destruindo uma convenção após a outra, não foi capaz de aceitar um movimento moderno que, de certo modo, era um desdobramento das inovações que ele próprio desencadeara.

A história está cheia desses exemplos de artistas que causaram escândalo por estarem à frente de seu tempo. Mas, por necessária que seja, essa constatação, sintetizada no argumento de Matisse, não deve virar um dogma limitador da reflexão crítica -do contrário, toda e qualquer bobagem que se apresente como arte estará protegida de antemão de contestação.

Não estamos longe disso, aliás.

Por exemplo, a jovem Sarah Maple vem sendo apontada como a nova revelação da arte contemporânea. Dá para conhecer um pouco de sua já premiada produção no site www.sarahmaple.com -onde ela é apontada como herdeira de Tracey Emin (que, por sua vez, se consagrou internacionalmente ao expor como obra de arte a própria cama desarrumada, com lençóis sujos, camisinhas etc).

Daqui a um ano ou dois aparecerá a herdeira de Sarah, que será premiada pela Tate Gallery, ganhará destaque na mídia e também inscreverá seu nome na história da arte.

Uma das obras de Sarah Maple é uma fotografia em que ela aparece com um penteado fashion, um batom berrante e creme de barba no rosto simulando um bigode. O autorretrato é intitulado “A tribute to Frida”. Para não deixar dúvidas sobre a piada, a artista usa no peito um button de Frida Kahlo. Só faltou uma legenda explicando que a mexicana tinha bigode.

Quanta profundidade! Sem falar na luz, nas cores, na composição… Trata-se, sem dúvida, de verdadeira Picassa.

Em outra série de fotografias, disponível no site e intitulada “Cocks”, Sarah fotografa a si mesma com diferentes “paus” (um galho, um telefone, um guarda-chuva, um exemplar do livro “Código da Vinci” (“Da Vinci Cock!”) -uma ideia que exige uma idade mental de aproximadamente cinco anos. Se é esse o nível do debate sobre as questões de gênero na arte hoje, estamos mal das pernas.

Também se afirma que Sarah contribuiu para o debate sobre a opressão sexual e religiosa ousando usar burca e seios de plástico. Será mesmo? Ou se trata apenas de mais uma reedição do surrado recurso de provocar polêmica barata? Em 1919, quando Marcel Duchamp também recorreu a um bigode (na Mona Lisa) para chamar a atenção, isso até fazia sentido. Mas que relevância tem essa “transgressão” 90 anos depois?

Uma fração significativa da arte contemporânea está cada vez mais parecida com a indústria da música: muita atitude, rebeldia de butique, rostinho bonito e zero talento.

Haverá quem diga: sempre houve artistas medíocres, é melhor ignorar esse tipo de obra. Discordo. Sarah Maple não é uma pobre coitada, uma inocente que mereça desdém ou compaixão. Ela encarna a “mainstream” da arte contemporânea: é essa a produção que as instâncias mais poderosas do sistema da arte reconhecem, promovem, premiam e vendem (nos dois sentidos) como o que de melhor se faz hoje. É esse o padrão que se estabelece, diante da complacência geral e da falência da crítica.

Isso não passa em branco: tem impacto até no mais bem-intencionado estudante de arte, que se matricula numa escola de artes visuais e se depara com um mundo em que técnica, talento, disciplina e estudo não têm mais importância. Que conhecimento da história da arte é necessário para tirar uma fotografia segurando um celular como se fosse um pau?

Ainda que existam artistas contemporâneos relevantes, como existem, no cenário pós-histórico em que vivemos, quem dita todas as regras é o mercado, sem que exista nenhuma reflexão crítica independente e informada como contrapoder.

Diferentemente dos artistas e movimentos modernos, que contestavam as instituições e o mercado, hoje se adere incondicionalmente a ambos. E, como há técnicas para fazer as pessoas comprarem (em sentido real e figurado) qualquer coisa, muitas vezes a mediocridade triunfa, por mais que se tente dourá-la com discursos vazios e citações pedantes.

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