O brilho farto da literatura de espetáculo

Escritor Miguel Sousa Tavares e o jornalista Woden Madruga no Flipipa 2011

A literatura e seus valores contemporâneos viraram moeda miúda por esses dias que se sucederam ao Festival Literário da Pipa-Flipipa e ao Encontro de Escritores de Língua Portuguesa-EELP. Com direito às estrelas mais luminosas da constelação das letras brasileiras e portuguesas, os dois encontros não deixam de apresentar muitos pontos em comum. Um deles, mas não o menos importante, a importância de discutir o próprio fazer literário como uma extensão da obra autoral.

O que esses dois eventos tão proximamente coincidentes expressam com letras maiúsculas é sobretudo os múltiplos usos que a literatura é capaz de produzir. Entre uma conferência de Miguel Sousa Tavares sobre sua própria obra ficcional e uma discussão tratando do significado da correspondência de Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade, vai uma distância que, embora possa parecer ilimitada, encontra inúmeros pontos de contato, a começar pelas formas discursivas e suas variantes entre o texto do autor lusitano contemporâneo e os usos que delas fizeram Cascudo e Mário.

É verdade que o formato escolhido pelos organizadores do EELP não se preocupou tanto com a diversidade de personagens e assuntos que movimentaram a praia da Pipa, repleta de celebridades nacionais. A presença de Rubens Figueiredo merece especial menção, pelo que apresenta de paradoxal. De fato, considerando que ele acaba de realizar um dos trabalhos mais extraordinários na área da tradução literária, ao trazer para o brasileiro contemporâneo o épico “Guerra e paz”, de Liev Tolstói. Dessa vez, e pela vez primeira, diretamente do russo. Além disso, seu romance “Passageiro do fim do dia” ganhou o prêmio São Paulo de Literatura 2011, o mais cobiçado pelos autores.

Apesar dessas distinções, Rubens Figueiredo passou ao largo dos holofotes da Pipa e de sua esfuziante festividade literária. Sem aquela ênfase que, segundo Drummond, nada ganha sentido, o operoso tradutor e romancista não se deixou empolgar com o que viu, talvez devido ao fato de sofrer de uma timidez que se mostra irredutível em certas horas. E apesar dos esforços feitos pelo debatedor Carlos Fialho. Assim, quem poderia ter empolgado a platéia com revelações curiosas e interessantes sobre a trama tolstoiana ou sobre a peregrinação do livreiro Pedro, passageiro do fim do dia, pouco falou.

Mas não se há de negar que a literatura tem seu charme. Os escritores e leitores sempre souberam disso. A surpresa está em que o público geral – essa invenção da mídia e dos sociólogos militantes – comece a se deixar contagiar por esse fenômeno que é capaz de trazer à província, no período de duas semanas alternadas, escritores de Portugal e Angola, autores nacionais recém-premiados, além de outros fenômenos midiáticos permanentes, como o jornalista Fernando Morais e o cantor/compositor Arnaldo Antunes. Ou ainda o cantor Gabriel, o pensador.

Ao lado de todas essas celebridades, não faltou a presença de escritores potiguares para acrescentar o olhar local aos debates com os astros convidados e, em outras ocasiões, revisitar nossos clássicos, como aconteceu, no Flipipa, com a mesa em torno da correspondência entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade.

Os dois eventos também coincidiram num ponto intrigante: por que tão escassa representatividade feminina? No Flipipa, apenas a roteirista Thelma Guedes foi a exceção e, considerando o expressivo número de escritoras potiguares em atividade, isso deixou uma impressão (certamente errônea), de misoginia literária… O EELP, por sua vez, não chegou nem mesmo a quebrar a regra pela tímida exceção.

Mas entre tantas surpresas, a maior delas é seguramente a repercussão que eventos como o Flipipa, o EELP e outros vêm conseguindo, refletindo um interesse público pela literatura que não tem paralelo entre nós. Estranhamente, porém, Natal continua fora do circuito das bienais que, também, fazem sucesso lá fora.

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Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 10 de dezembro de 2011 0:01

    Jarbas Martins, para a antologia poética que você vai organizar ser um sucesso, de público e crítica, sugiro a seguinte fórmula, infalível e sem contra-indicação:

    1) Além dos poemas, inclua uma seleção de comentários elegantes do SP, em especial aqueles escritos com ‘muita humildade’, virtude que, nos meios literários, como sabe qualquer aprendiz de literato, costuma ser cobrada exatamente por gente arrogante e cheia de empáfia, por mais hipócrita e contraditório que seja – ou exatamente por isso!;

    2) Para dar uma conotação crítica e inteligente, acrescente uma lista ampliadíssima dos chatos, sobretudo os chatos virtuais, dentre os quais antecipadamente você pode incluir meu nome, porque, como já disse em comentário anterior acerca desse assunto, sou assumidamente chato, por há muito estar de saco cheio e saturado com esse tipo de crítica e falta de imaginação que é a tal lista dos chatos;

    3) Encomende ao Butantan dosagens equilibradas de soro antiofídico contra veneno de cobras, em especial aquelas que sabem esconder, dissimular invejas e calúnias;

    4) Não deixe de reservar não só remédio psiquiátrico, mas também camisa de força, eletrochoque e lobotomias para eventuais poetas doidos, notadamente no caso de se tratar de doidos agressivos, que serão devidamente amansados pela psiquiatria, caso não tomem o remédio direitinho, conforme preconceituosa e absurda sugestão que li aqui, no SP;

    5) Reserve também uma boa dose de resignação, não da sua parte, é claro, mas a oferecer ao público leitor, para aquilo que não tem remédio em Natal: a maledicência e a crítica medíocre, ou melhor, o veneno, o fel de quem elabora tais listas de chatos e fica em nojento anonimato!
    6) Por favor, Jarbas Martins, se você concorda com essa tal lista de chatos e com argumentação a favor de tais mediocridades, por gentileza, poeta amigo, peço de antemão que você não inclua nenhum poema ou texto meu nessa antologia. Que você e o editor do SP Tácito Costa me perdoem, mas faço esse pedido, por você já ter feito, publicamente, elogios a alguns dos meus poemas e talvez julgue que um ou outro mereça ser incluído nessa antologia, que você, a sério ou não, uma hora diz estar se empenhando em organizar, em outro momento você afirma ter desistido da ideia. Numa antologia com tantos poetas e poetisas, e poemas em grande quantidade, felizmente um ou outro poema meu não fará a menor falta…
    7) Fogueira de vaidades de medalhões em encontro de escritores ou a tal lista dos chatos – não sei o que é mais terrivelmente chato!.

  2. Jarbas Martins 9 de dezembro de 2011 20:43

    com máscara ou sem máscara, Rilke Vieira, você faz parte da minha chatíssima FLORES VIRTUAIS DO SUBSTANTIVO PLURAL. o editor Tácito me deu carta branca: “bote pra moer”.

  3. Lívio Oliveira 9 de dezembro de 2011 19:20

    A voz rouca de Rilke, meu vice-campeão predileto. Remédio pra tudo e pra todos. Raiz de todos os Santos.

  4. Rilke Vieira 9 de dezembro de 2011 19:09

    lívio,
    não faço falta alguma, o substantivoplural está bem representado, tanto na prosa quanto na poesia, olhe, aprecio e divirto-me muito também com os comentários, sempre tão elegantes e civilizados, sem falar na isenção e bom senso com que são escritos pelos humildes pluralistas e neopluralistas, soube que se trabalha numa antologia de poemas e numa nova lista revista e ampliadíssima dos chatos, somente chatos virtuais já passam dos cem, e ainda segundo minha fonte, quase todos pluralistas e neopluralistas, isso dará muito o que falar, mas não tem meu apoio, aqui no substantivoplural não tem chatos, isso é calúnia, coisa de gente invejosa, talvez tenha doidos, mas nem disso eu tenho certeza – o mundo está cheio deles e o substantivoplural não seria exceção, né?! – o problema é o doido agressivo, sim porque tem o doido calmo, sob controle dos tarja preta, a questão é como convencer o sujeito a se tratar, tomar os remédios direitinho, essas coisas, quanto à antologia o autor terá muito trabalho, a qualidade dos poemas fará com que a edição tenha mais de mil páginas, visto que o nível dos poemas é elevadíssimo, mas que venha assim mesmo, com mil ou cinco mil páginas, o mundo há de se curvar às flores virtuais desse novo parnaso pluralista. abç.

  5. Lívio Oliveira 8 de dezembro de 2011 21:34

    Sinto falta da voz rouca de Rilke. Precisamos trazê-lo do Altiplano. Talvez, até, para fazer nossa retrospectiva de 2011. Invoco-te, Rilke!

  6. Jota Mombaça 8 de dezembro de 2011 16:00

    Jardins magníficos subjazem o asfalto arredio da metrópole.

  7. Lívio Oliveira 8 de dezembro de 2011 14:45

    Jairo, falando nisso, cadê a festa do SPlural? Cadê a birita?

  8. Jairo llima 8 de dezembro de 2011 13:03

    Ainda prefiro os encontros de escritores numa mesa de bar enchendo a cara. Só fui um na minha vida para ouvir o meu amigo e escritor André Laurentino. Mal André ensacou a viola, peguei o beco. Vou nada. Tenho mais o que fazer.

  9. Lívio Oliveira 8 de dezembro de 2011 4:30

    Perguntas e sugestão:

    -Como trazer escritores a valores razoáveis? Como fazer eventos mais baratos? Como fazer um auto a baixo custo?

    – Fácil!!! Perguntem ao Procusto.

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