Jandaíra em rede de caçador

Sou fascinada por livros de memórias. Eles me levam ao passado, lugar que lembra os avós contadores de história, que amarei para sempre, apesar da distância.

Acho que o primeiro memorialístico foi “Uma casa na floresta” da escritora americana Laura Ingalls Wilder, lido aos doze anos. Lembro que a neve do Wisconsin, o xarope de bordo, os ursos e lobos chegavam, um após o outro, à minha cama, enquanto lia, nas noites chuvosas de Goiás.

Minha colcha azul de franjas era o esconderijo que me protegia dos animais selvagens e eu até mesmo lambia os beiços com a doçura do tal xarope que nunca provei. Por isso os livros de recordações me encantam. Sempre acho que viajarei para lugares interessantíssimos com as memórias alheias.

Dia desses o gentil Manoel Onofre Júnior presenteou-me com seu “O caçador de Jandaíras”. Foi durante uma das viagens da Caravana literária, enquanto conversávamos sobre literatura. Fiquei muito feliz pelo mimo, porque desejava aumentar minha coleção “onofreana”, por assim dizer.

Já havia lido “Chão dos simples” e algumas crônicas do escritor, publicadas na revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

A cada nova história, confirmava uma impressão inicial: Onofre é cristalino, não se demora em circunlóquios, não exagera no regionalismo e faz poucos e certeiros movimentos poéticos em sua prosa. Não há intenção de impressionar o leitor. Sua escrita é despretensiosa como ele próprio parece ser.

Cria de um tempo implacável

Em “O caçador de Jandaíras”, o escritor quer apenas ofertar o que os livros memorialísticos costumam dar: lembranças, paisagens, comidas, lugares e pessoas, que podem provocar no leitor, boas sensações, risadas, desejo de viajar e reverberações.

Manoel Onofre Júnior presenteou-me com seu “O caçador de Jandaíras” durante uma das viagens da Caravana literária.

Sim, a prosa Onofreana, como toda narrativa de qualidade, promove desdobramentos íntimos. A gente pensa no passado, conjectura sobre ele. Revisita a infância e a ressignifica.

Eu, que mal conheço as abelhas, que sou cria de um tempo implacável vivido na cidade grande sem árvores, onças ou cadeiras nas calçadas, tornei-me Jandaíra na rede do amigo caçador.

Minhas asas transparentes subiram a serra de Martins e lá encontraram a natureza frutificando em sortidos pomares. Sobrevoaram os “paitos” varridos com vassoura de palha e avistaram o Dr. Pelópidas sentado em sua “cadeira de peidar”.

Pousando nos alguidares, senti o aroma das “comidas do sertão” e quis experimentar todas, com especial desejo pelo Maxixe com nata e queijo de coalho. Sabe que até mesmo o pirão de Macambira do coronel Cristalino Costa eu quis provar? “A fome é o melhor tempero, me caro”, disse ele. Neste caso, é a história bem contada quem tempera a curiosidade. 

Paraíso serrano

Aproveitei o passeio para brincar no “João Galamarte” (se é que uma abelha consegue fazer peso suficiente para balançar em uma gangorra) e até fiz “guisado” de mentirinha, porque brincar de cozinhar era uma das minhas diversões prediletas na infância.

Esbaldei-me no paraíso serrano do caro Onofre, enquanto ouvia música da melhor qualidade nas vozes que a amplificadora, instalada na praça da matriz, alardeava. Imagine o leitor, Francisco Alves, Orlando Silva, Dalva de Oliveira e o nosso inesquecível Luís Gonzaga cantando:

Sabiá, tu que anda pelo mundo

Sabiá, tu que tanto já voou

Sabiá, tu que fala aos passarinhos

Sabiá, alivia minha dor

Sabiá, tem pena deu

Sábia, diz por favor

Onde anda o meu amor

Entardeceu e notei que “com pouco, era noite. A escuridão baixava sobre os campos, como o pano de boca de um grande teatro. Meus pais conversavam no alpendre, com os compadres e comadres, moradores de vizinhança. E, da minha rede, contemplava as estrelas e cismava…”.

Onde andarão Zefa Coqueiro, Pantaleão, Setembrino e Benigno, o ferrabrás? Teriam sido levados pela “Besta fera” de olhos de fogo que os sertanejos depois descobriram chamar-se carro? Ou teriam sido comidos pela onça que deu cabo do Barroso? Saberemos, se o nobre escritor se aventurar em uma nova caçada de recordações. As Jandaíras agradecem.

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