[Conto] O caderno de Deuzivaldo

I

Não é um hábito recente. Ainda jovem gostava de ler os pequenos anúncios de falecimento nos jornais. Alguns singelos, outros mais elaborados, com foto e palavras bonitas. Sempre faço as contas para saber a idade do falecido. Comovo-me quando constato que se trata de alguém jovem. Penso que seja uma boa ideia deixar também uns dizeres bacanas, uma foto garbosa e o dinheiro guardados para um pequeno anúncio futuro, o que evitará que os familiares, com pena do gasto, publiquem qualquer coisa sobre mim, ou sequer publiquem. Não se pode confiar em parentes, sobretudo se já batemos as botas.

Sou um homem prevenido e que não teme a morte. Acho que herdei esse temperamento da minha avó. Ainda jovem, ela mandou fazer a mortalha com a qual gostaria de ser enterrada. Felizmente, só veio a morrer muitos anos depois, quando a mortalha já estava meio desbotada. E embarcou com essa mesmo, que morto não tem gosto, querer ou a quem reclamar os dissabores finais.

O problema é que o pessoal é meio desligado. Está com o pé na cova e acha que viverá mais um ano, dez, cem. Deixa tudo sem providências, confiando não sei em quê. Foi assim com tio Aniceto, que não fez inventário e os filhos até hoje brigam pelos bens, umas migalhas. Esse negócio de herança, por menor que seja, destrambelha a cabeça das pessoas. A coisa chegou ao ponto de um deles, no dia seguinte ao enterro, invadir a casa e levar o que conseguiu colocar dentro do carro. Um neto, que estava com o cartão e a senha da conta do banco sacou o dinheiro disponível e ainda fez um empréstimo consignado. O resultado é que estão intrigados uns com os outros, de ferro a fogo, e a confusão foi parar na justiça.

Não sei explicar bem a razão deste inofensivo hábito de ler os anúncios fúnebres. Antes que me olhem atravessado, não o relaciono a nada mórbido, sou de natureza leve e alegre e dado a gaiatices. Acredito que seja mais por curiosidade. Na vida a gente obedece a muitos impulsos sem explicação plausível. Mas, pelo menos essa mania não faz mal a ninguém e nem a mim mesmo. Não que eu espere encontrar notícia da morte de algum parente, amigo ou conhecido. Essas chegam rapidamente pelo telefone ou pessoalmente.

Esses pequenos comunicados agora são frequentes nas redes sociais, até mesmo porque a maioria dos jornais fechou. Mas, não é a mesma coisa. Gosto de ver no jornal impresso. Antigamente, notícia ruim chegava por telegrama. No interior, onde morei os primeiros anos de vida e o telefone chegou muito tarde, quando alguém queria enviar um telegrama para comunicar a morte de um familiar recorria a Tobiniano Ribeiro. Um dos poucos homens cultos da cidade. Ele fazia com gosto e atendia sem demora a todos. Havia estudado na capital, mas não chegou a se formar. Foi obrigado a abandonar o curso de Direito devido a problemas graves de saúde. Seus telegramas e cartas faziam as pessoas chorarem.

Pois foi graças a esse hábito antigo que fiquei sabendo da morte de Deuzivaldo. O comunicado não informava a razão do passamento. Desconfio que tenha sido de Covid-19. Ele era dois anos mais novo que eu. Quando o conheci estava perto de se aposentar, aguardava apenas completar um quinquênio no cargo de engenheiro do Ibama, o que melhoraria o valor da sua aposentadoria.

O discreto anúncio foi publicado à página sete da Tribuna do Norte. Sobre os mortos só se pode dizer que foram bons. Se não for para falar de bem é melhor calar. Mas, eu não sei dizer, assim de certeza, se Deuzivaldo foi um homem bom. Não o conheci a fundo. Por isso, sobre o seu caráter nada posso dizer, nem de bom e nem de ruim. E é até melhor assim. Julgar os outros é sempre temerário. Podemos acabar imputando a quem julgamos as nossas faltas. Não se enganem. As pessoas sabem quando isso ocorre e comentam com repulsa.

Policio-me para evitar isso. Contudo, não garanto que não ocorra de vez em quando. Proceder com humanidade e compaixão é dificultoso e como todos, embora ninguém admita, sou dado a bondades e maldades. Desde cedo compreendi que a vida é traiçoeira e movediça e é preciso resiliência para enfrentar a falta de sorte e resignação e fé para suportar os reveses. Sem isso, o chão que se caminha é mais duro e a estrada insuportável.

Só agora, lendo o anúncio fúnebre fiquei sabendo o nome completo dele: “Deuzivaldo Medeiros da Silva (1963-2020)”. A lembrança deste conhecido me veio nesse momento mais forte e com um certo travo de desgosto. Não procedi com as confiança e lealdade que ele esperava de mim. E, acredito, merecesse. Afinal, nada me fez de mal. Contarei como o conheci e o que ocorreu entre nós, esperando com isso não reparar o irreparável, mas pelo menos ficar mais sossegado com minha consciência. Não foi uma relação estreita e nem longa. A gente se avistou algumas vezes e estive uma única vez em seu apartamento, ao longo de menos de três anos.

Corria o ano de 2012 quando a sorte se lembrou que eu existia. Finalmente, tinha conseguido um emprego melhor. Com isso, aluguei um apartamento num prédio novo em Petrópolis. Havia chegado, enfim, à classe média, à custa de muito trabalho, gastrites e enxaquecas e à difícil arte de engolir sapos sorrindo. Fui dos primeiros moradores a chegar. Deuzivaldo chegou cerca de um mês antes que eu. Por aí.

Nos meus primeiros contatos com ele tomei-o por um senhor que estivesse no prédio para algum serviço de montagem de móveis, hidráulico ou elétrico, comum em apartamentos novos. Magro e de baixa estatura, usava óculos e tinha o cabelo curto e desgrenhado. Andava de boné, roupas e sapatênis gastos. O conjunto lhe dava um aspecto excêntrico, que se sobressaía ainda mais naquele ambiente de classe média e gente que se passava por importante e rica.

Avistei-o umas duas vezes nos primeiros dias e o esqueci. Qual não foi minha surpresa quando cerca de um mês depois lá estava ele na reunião do condomínio. As aparências mais uma vez me pregaram uma peça. Mas, quem nunca cometeu um equívoco desses levante a mão. E para completar, com duas plaquinhas com direito a voto na assembleia, sinal de que tinha dois apartamentos no edifício, que não eram baratos, devido ao tamanho, três quartos, varanda gourmet, moda entre os novos ricos, e à localização.

Depois o vi saindo e entrando do prédio em uma velha bicicleta, que ele usava para trabalhar e passear. Como eu havia comprado uma, em certa ocasião, na garagem, conversei com ele sobre percursos seguros para se passear. Combinamos de fazer um passeio juntos, mas isso nunca aconteceu. Tempos depois ele bateu à porta do meu apartamento, morava um andar acima do meu, para pedir água para beber. Imaginei que tivesse havido algum problema com a geladeira ou com a entrega do garrafão de água mineral. Mas, não comentei nada.

Às vésperas de uma assembleia do condomínio, para decidir sobre a individualização da conta de água, Deuzivaldo me ligou pelo interfone para saber como eu iria me posicionar e esticou a conversa. Contou que estava pensando em fazer um abaixo-assinado contra o vizinho do andar de cima, que passava o dia arrastando móveis e que havia sofrido uma tentativa de envenenamento. “Alguém entrou no apartamento e colocou veneno na comida ou na água”, disse-me. Suspeitava também que haviam jogado veneno na caixa d’água do prédio.

Dias depois, “Seu” Ambrísio, o ASG, me disse que, a pedido dele, foram checar a caixa d’água. Mostrou-lhe que a tampa do reservatório era fechada com um cadeado, não havia possibilidade de se jogar veneno dentro.

Quem estaria por trás dessa tentativa de envenenamento, conforme Deuzivaldo relatou-me, era um inquilino do prédio anterior onde ele havia morado e com quem se desentendera seriamente e que agora o perseguia implacavelmente. Ele suspeitava que o celular dele e a rede de interfones do prédio estavam grampeados. Disse-me que tinha achado estranho o aviso dado pelo síndico de que os interfones estariam fora do ar por dois dias para manutenção.

A história toda me pareceu fantasiosa e não dei muita importância. Até que certo dia ele me ligou pelo interfone pedindo para eu ir até o seu apartamento que tinha um presente para me dar. Fiquei um pouco desconfiado, mesmo tendo alguma convivência com pessoas esquisitas, tanto no trabalho quanto na família. Cheguei a trabalhar, inclusive, alguns anos, com um paranoico. Com pessoas assim não se pode bater de frente, tem de ir levando na diplomacia, evitando discordâncias e embates. Aprendi que maluco não tolera ser contrariado.

Subi e encontrei a porta fechada, guarnecida por duas fechaduras. Apertei a campainha. Ele checou pelo “olho mágico” e abriu. Pelo lado de dentro havia dois ferrolhos reforçados e câmeras eletrônicas de vigilância. Mas, isso não me impressionou tanto. O que realmente me provocou estupefação foi o completo desmazelo dentro do apartamento. A sala havia sido transformada em quarto de dormir e escritório, com uma cama velha, no chão, uma mesa e um computador, cadeiras quebradas, uma televisão de tubo e um rádio toca-fitas também no piso, calças, camisas, lençóis, toalhas e cuecas jogados pelo local.

A pretexto de conhecer o apartamento, saber se era mais ventilado que o meu, pedi para ver os outros cômodos. Os quartos haviam se transformado em depósito de tralhas. A cozinha era uma filial do caos reinante na sala. Uma geladeira com bom aspecto, mas um fogão enferrujado de duas bocas em cima de um tamborete, panelas com e sem comidas e pacotes de alimentos pelo chão. A pia cheia de utensílios, sujos e limpos. Não havia armários. Pensei comigo, agora já sei de onde vem as baratas que infestam o meu apartamento.

Enquanto caminhávamos falou da perseguição que vinha sofrendo e das tentativas de envenenamento. Achava que havia inquilino infiltrado ajudando o “inimigo”. Ele falando e eu sem conseguir me concentrar direito com a visão do interior do apartamento. Eu jamais havia visto algo parecido. Como uma pessoa, com um bom salário, de engenheiro florestal, vivia numa situação daquela? Fiquei dias com aquelas imagens de sujeira e desorganização na minha cabeça.

Antes do final da visita ele me deixou sozinho na sala e foi fechar a porta do banheiro da suíte, que estava batendo devido ao vento. Fiquei sozinho por instantes e me chamou a atenção um caderno Tilibra no chão, ao lado da televisão de tubo sem uso e em meio a pastas e papéis velhos. Num impulso, peguei o caderninho e escondi rapidamente dentro da bermuda. Jamais furtei nada na vida. Não sei o que deu em mim para pegar o caderno alheio. Um mal feito desse – no tempo em que eu era menino e adolescente -, se meu pai soubesse me matava de uma surra.

De volta à sala, Deuzivaldo se lembrou do presente que me prometeu. Afinal, eu tinha ido lá para recebê-lo. Entregou-me duas canetas Bic azuis novas, que eu agradeci.

Logo que retornei ao meu apartamento, já arrependido da merda que tinha feito, abri o caderno empoeirado que carreguei escondido. Além da caligrafia ruim, pareceu-me um amontado caótico de comentários sobre alguns episódios da vida dele. Algo como o esboço de um diário, mas sem datas sobre quando havia sido escrito. Estava de saída para o almoço e o joguei dentro de uma caixa onde guardo fotos, cartas e cartões de felicitações. Acabei esquecendo-o.

Em outras ocasiões, ainda conversamos no elevador e umas duas vezes por interfone. Até que a minha sorte mudou novamente de uma hora para outra. Fui demitido de um dos meus trabalhos e fiquei sem poder arcar com o aluguel. Mudei de condomínio e perdi Deuzivaldo de vista.

Hoje, após a leitura da nota fúnebre, senti uma forte curiosidade em saber o que estava escrito no caderno. Abri e o li sem parar e agora compartilho com vocês. Não alterei uma vírgula. O que segue abaixo é absolutamente fiel ao que está escrito no caderninho Tilibra de Deuzivaldo. Não é possível saber quando as anotações, que pulam de um assunto para outro, aleatoriamente, caoticamente talvez seja uma definição mais apropriada, foram escritas porque não estão datadas.

 

II

“Doca era um homem bom e um cabra safado ao mesmo tempo. O mundo está cheio de pessoas assim. Não o julgo. Eu mesmo conheci vários ao longo da vida, alguns até amigos meus e familiares. Tenho minhas faltas também. Não vou negar.

Muito querido na cidade por ajudar o próximo, estava sempre entre os primeiros a receber a hóstia nas missas. Gostava de fazer favor e participava das campanhas de caridade da paróquia. Morava duas ruas atrás da nossa. A casa dele estava sempre cheia de meninos. Ele formou e mantinha um clube de futebol com crianças e adolescentes.

Uma tarde, sem nada em que me ocupar, fui até a casa dele. Guiado só pode ser, pelas mãos do diabo, que não perde uma boa oportunidade de levar a gente para o precipício. A porta estava só encostada e eu entrei. Ele estava no quarto. Percebeu que alguém tinha entrado e perguntou quem era. Eu respondi: É Valdo, que era como todos me chamavam. Ele disse: ‘Venha pra cá, Valdinho’. Eu fui. Quando entrei ele estava de bermuda, sem camisa, deitado na cama e com o ventilador ligado. Fazia um calor da moléstia.

Mandou eu sentar na beira da cama de casal e começou a passar as mãos pelo meu corpo. Um alisado nojento. Depois me beijou no pescoço, nos braços e pediu para eu ficar à vontade, tirasse a camisa e o calção. ‘Se você for bacana comigo e guardar segredo eu escalo você como titular em todos os jogos do time’, prometeu. E cumpriu. Ainda hoje sinto aquele bafo fedorento da boca dele pelo meu corpo. Não tem banho ou perfume que tire.

 

A ideia desse nome ridículo, Deuzivaldo, que me causou tanta gozação na escola, foi do meu pai. A sorte é que depois da adolescência passaram a me chamar de Valdo ou Valdinho. Meu pai era um bruto. Sempre calado, mal humorado, resmungão. Minha mãe, uma santa, sofreu nas unhas dele. Eu e minha irmã levamos muitas surras do velho, pelos motivos mais bestas. A morte de pai teria sido boa pra gente. Até hoje não entendo porque os ruins ficam e os bons se vão cedo. Os desígnios de Deus são mesmo incompreensíveis.

Minha irmã discorda, acha que ele não foi ruim. Cada um tem seus pontos de vista. Eu não abro mão dos meus. A imagem que guardo do velho é ele acocorado, com os dois pés em cima do vaso sanitário, fazendo suas necessidades. Não se acostumou a usá-lo sentado.

 

Minha irmã se chama Lirgônea. Não quero negócio com ela nem pra ir pro céu. Já estive, inclusive, perto de lhe dar uns tabefes. Durante meses, mãe juntou dinheiro para comprar uma geladeira. Pois ela pediu o dinheiro e disse que compraria a geladeira no cartão. Depois que gastou a grana chegou com a conversa de que o cartão estava bloqueado. Resultado: nem dinheiro e nem geladeira.

Sabendo que sou pavio curto e iria tomar satisfação, mãe não me contou a história. Só vim saber depois, por intermédio de uma vizinha fofoqueira. Disse poucas e boas à minha irmã e até hoje estamos sem nos falar. O que acho ótimo, pelo menos não vem mais pedir dinheiro emprestado, que sempre esquece de pagar.

Sei que ela espalha que sou um pão duro, um miserável. Que se dane! Sou apenas uma pessoa previdente, controlada, Nunca precisei dela e nem da família para nada. Fracassados tem essa mania de querer culpar os outros por suas derrotas.

 

É impressionante como tem gente querendo o meu mal. Hoje enfrento perseguições implacáveis no trabalho e no condomínio onde moro. Mas, não me vencerão. No trabalho, é Lisarb que está sempre mexendo os pauzinhos para me prejudicar.

Repararam direito no nome do sujeito? Brasil ao contrário. Pensava que era só eu que tinha nome ridículo. Por conta desse Lisarb já fui preterido em promoções e os chefes não gostam de mim devido às intrigas que ele faz. Não sei ainda como não saí na tapa com esse indivíduo.

No prédio que resido é um tal de Quintino, que em conluio com o síndico atanazam a minha vida. Nada que eu reclamo é resolvido e se dou alguma sugestão nunca é acatada. Nas reuniões do condomínio percebo que os dois cochicham e soltam risinhos direcionados a mim. Por conta disso, nem os porteiros me respeitam mais. Mas, não me conhecem, sou madeira que cupim não rói.

 

Minha filha é complicada. Chama-se Glicéria. A gente não se entende bem. Me dou melhor com o rapaz, embora ambos me visitem raramente. Acho que a mãe, de quem me separei há mais de dez anos, enche a cabeça deles de coisas. Para ela, eu sou um maluco. Até já me disse para procurar um psiquiatra e convenceu os meninos de que preciso de um. Só no inferno mesmo!

O rapaz, Glicério, é temperamental. Nisso puxou a mim. De vez em quando a gente se estranha e fica um tempo sem se falar. É manicaca, manipulado pela mulher, que acha que tenho obrigação de sustenta-los. Não vão trabalhar não! Sem falar que virou um fanático político. Isso tem azedado nossos poucos encontros.

Mas, não ligo, não preciso deles e eles precisam de mim, de vez em quando batem aqui para pedir uma ajuda para isso e aquilo. Quase nunca nego para não dar pé de falarem mal de mim. Os filhos, todos, são uns mal agradecidos e ingratos, essa é que a verdade.

 

Casei com Gersônia, mãe dos meus dois filhos, quando éramos muito jovens. Eu tinha 23 e ela 20 anos. Mas, eu gostei mesmo foi de Danúbia. Essa Gersônia é uma sonsa. No início muita compreensiva e educada, acabou se revelando uma ingrata e chata. Não exagero ao dizer que ela infernizou a minha vida nos últimos anos em que estivemos juntos. Acho até que botava chifre em mim. Ouvi uns rumores. Paro por aqui porque só de lembrar dessa criatura já me encho de raiva.

 

De Danúbia eu tenho gosto em falar. Era bonitona, alegre, sempre de bom astral. Fazia amor como ninguém. Não curtia sexo anal, mas em compensação dava show no oral. Foi a única mulher que conheci que engolia esperma com a gulodice de quem come uma guloseima predileta. Lambia meus pentelhos, com avidez, não deixando escapar um pingo de gala. Era bonito de ver aquilo. Já Gersônia tinha nojo, dizia que era uma “cola”. Mal acabava o sexo corria para se lavar, toda cheia de frescura.

Ainda hoje eu poderia estar com Danúbia, não fosse o invejoso do José Sobrinho, Zebinho, que eu chamava de Sebinho, ter inventado mentiras sobre minha pessoa. Fingindo ser meu amigo, o safado fez tanta intriga que conseguiu me separar dela. Acabaram casando e eu fiquei com fama de pessoa complicada, neurastênico. Tudo inventado pelo salafrário.

Com a mesma rapidez que dá a vida tira. Um piscar de olhos e tudo muda. Pena que a gente aprenda isso tarde demais. Quando se é jovem costuma-se ser perdulário, desperdiçar amor, como se isso não fosse fazer falta mais tarde, na madureza da vida. No ganha e perde que é a vida, perdi mais que ganhei, saio no prejuízo. E de tudo que perdi a falta maior mesmo é de Danúbia.

 

Esta terça-feira vai ficar na história. Eu acho é pouco. É claro que houve um arrumadinho nos bastidores. Não cabe na cabeça de ninguém uma derrota de 7 a 1 da seleção brasileira. Esse Filipão nunca me enganou. Uma humilhação maior que a de 1950, no Maracanã, contra o Uruguai. O que a CBF, que é uma máfia, ganhou com essa marmelada não se sabe ainda. Se eu fosse presidente mandava prender tudinho. Magote de cabras de peia.

 

Saí ontem com meu amigo Gilnézimo. Fomos a um bar na Zona Sul. Umas moças estavam sentadas numa mesa do outro lado do salão. Resolvemos mandar pelo garçom um recadinho num guardanapo, convidando-as para virem à nossa mesa. Elas leram, deram risadinhas e devolveram o bilhete. Gil comentou que ‘cabelo branco’ só serve mesmo para pagar as contas e ser feito de besta. Sou obrigado a concordar. O fato é que as coisas mudaram muito e rapidamente. Desatualizado do que agora pode e não pode, além de leso, caí na besteira de dizer a uma colega do trabalho que ela estava linda, tentando ser cavalheiro, e ela respondeu chateada que não tinha pedido minha opinião.

 

Na minha juventude eu queria comer todo mundo. Era uma energia que não tinha mulher que desse conta. Hoje eu me aquietei. Lembro que quando tinha 22 anos participei de uma farra com um grupo de amigos e pessoas que conheci naquele momento. Lá para as tantas, com todo mundo bêbado, eu dei em cima de uma jovem, que deveria ter a minha idade e estava tão embriagada quanto eu. No outro dia, ela disse a uma conhecida minha que forcei-a a fazer sexo comigo. Eu jurava que tinha sido de comum acordo. Se um dia a encontrar de novo pedirei desculpas, a juventude costuma ser cega e impiedosa. Por isso, não se pode usar a mesma régua para avaliar casos passados e presentes e se julgar jovens e velhos.

 

Estive na semana passada na cartomante e vidente Irmã Jacirema. Queria uma luz sobre o que me aguarda. O baralho cigano mostrou um grande amor a caminho. “Mas, antes virão graves problemas de saúde, de origem desconhecida”, previu a vidente, que me vendeu um óleo milagroso, visando fechar meu corpo. Toda noite eu o espalho pela pele, espero que funcione.

 

O trânsito está cheio de assassinos. Tenho de redobrar os cuidados. Para não matar e nem ser morto. Ontem, um endemoninhado quase me atropela no caminho do trabalho, a sorte foi que puxei a bicicleta para o meio fio. Acabei caindo, mas sem maiores consequências. O filho da puta nem olhou para trás, prosseguiu na mesma alta velocidade que vinha.

 

Começou a propaganda eleitoral gratuita na tv. Eu já não gosto de televisão e nesse período é que não assisto mesmo nada. Uma corja de candidatos ignorantes, hipócritas e vigaristas em busca do voto de um bando de eleitores ignorantes, hipócritas e vigaristas. Dou uns pelos outros e não quero troco. Se reiem pra lá.

 

Amanheci ruim hoje, um mal estar geral. Vou marcar um médico. Tentam me envenenar. Não há mais dúvidas sobre isso. Lembrei que irmã Jacirema previu um problema de saúde sério. O celular e os interfones estão grampeados. Os meus passos estão sendo monitorados. O complô envolve gente graúda. Estou reunindo provas contra o solerte inimigo. Ele que não conte vitória antes do tempo.

 

Passo grande parte dos dias sozinho no apartamento. Por isso, desenvolvi um método para evitar a solidão. Falar com as coisas e as pessoas. Dou bom dia e boa noite aos apresentadores do telejornal (‘Boa noite, William Bonner’); esculhambo os ministros e autoridades que aparecem nas reportagens (“ladrão, salafrário, corrupto”); falo intimamente com a minha rede (“hoje não troco você por nada”) e com os utensílios domésticos (“não sei o que seria de mim sem você, liquidificador”).

 

Ultimamente tenho sonhado com minha mãezinha. Ela quer me dizer alguma coisa importante, mas quando vai falar eu acordo. Faz três anos que ela morreu e eu ainda não me acostumei com a ausência dela. Acho que não me acostumarei. Não há consolo para uma falta dessa. Pelo menos ela está no céu, disso eu tenho certeza. Pena que não poderei encontrá-la, vou direto para o inferno. Seja o que for que ela tenha para me falar estou preparado para ouvir. A essa altura da vida não temo mais nada.

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