O cangaço, a estética, o mal

Amigas e amigos:

Nossos diálogos sobre cangaço, estética e mal tendem, agora, a perder uma carga prioritariamente ideológica (ausência de argumentação demonstrativa e analítica) e começam a apresentar problemas mais palpáveis para a discussão intelectual que interessa a todos:
1) Que é o cangaço como fenômeno social?
2) Que é a estética como campo de experiência e pensamento?
3) Que é o mal como valor filosófico e social?

Existem, entre nós, estudos clássicos sobre o cangaço e seu tecido constitutivo. Além dos especialistas que se dedicaram mais diretamente ao tema (Maria Isaura Pereira de Queiroz, Rui Facó, Luiz Bernardo Pericás, Christina Matta Machado, Jorge Villela e tantos mais), não podemos esquecer dos grandes ensaístas clássicos que debateram dilemas na formação social do Brasil, como Euclides da Cunha, Oliveira Vianna, Victor Nunes Leal e Maria Sylvia Carvalho Franco. Através desses autores, dá para situar a discussão sobre o cangaço no universo de relações com a posse da terra e as estruturas de poder no Brasil. A violência do cangaço, portanto, ultrapassa em gigantesca escala as figuras dos cangaceiros, abrange a violenta sociedade brasileira, aquela mesma que preservou a escravidão até à undécima hora e que hesita mesmo depois em promover uma reforma agrária para valer – até hoje!
Junto com esse material interpretativo, figuram os grandes ficcionistas de cinema, quadrinhos e literatura: José Lins do Rego, Glauber Rocha, Graciliano Ramos, Nelson Pereira dos Santos, Jô Oliveira. No universo da Poética, eles dialogaram com a mitologia do cangaço, fazendo profundas indagações que podem nos interessar muito. Lembro, em especial, de Glauber Rocha: do ponto de vista de Antonio da Mortes (que talvez se confunda com nosso ponto de vista: o intelectual que contempla a sociedade “de fora”, como se não fizesse parte dela), cangaço é parte do atraso popular brasileiro, junto com o messianismo. Era no tempo da esperança em revolução. E hoje, com as revoluções despedaçadas, como ficamos nós? Somente o povo é atrasado, nós, elites, somos o quê?
Depois do imaginário poético, cabe pensar sobre o que significa uma estética e, em particular, uma estética do cangaço. Sabemos que o termo estética nasce no século XVIII, especialmente através de Baumgarten, embora seu universo – a experiência do belo e a reflexão sobre isso – percorra a história da filosofia ao menos desde Platão. No clássico grego, o belo é face do verdadeiro – um problema geral da filosofia, portanto. Admitir uma estética do cangaço significaria identificar faces do verdadeiro em sua ocorrência. Ao mesmo tempo, não podemos escapar de conseqüências filosóficas, políticas e históricas gerais nessa discussão: o mesmo se dá quando falamos numa estética do catolicismo (Vieira), numa estética do nazismo (Riefehnstal), numa estética do mundo sem deus (Nietzsche)… Tudo pode ter uma estética? Ter uma estética esvazia cada experiência de problemas – às vezes graves problemas? Qual a possível verdade naquelas experiências que nos horrorizam – nazismo, genocídio na colonização, racismos em geral?
Por último, o mal. Sabemos como essa noção se enraíza em religiosidades (o mal é o que não corresponde aos valores de uma crença – a tradição judaico-cristã situa o mal fora dos valores sagrados), como pode ser associado à matéria degrada em relação ao elevado espírito. É possível que a filósofa Hannah Arendt tenha feito a discussão mais historicizante do mal: ele existe dentro de condições sociais e políticas muito concretas. Essa reflexão de Arendt nos convida a refletir sobre a banalização da violência, tão patente na experiência nazista, e também sobre o conforto de dizermos que o mal é apenas tudo aquilo que não somos – cangaceiros, traficantes, torturadores.
Voltemos agora ao trio cangaço/estética/mal. Existir uma estética do cangaço não significa identificar esse fenômeno social, automaticamente, ao belo e ao verdadeiro. Apontar a violência em práticas dos cangaceiros não significa transformá-los em portadores do Mal absoluto nem mesmo em representantes apenas do mal. O cangaço não se reduz à beleza de seus trajes e adereços, ele repõe problemas da sociedade onde nasceu. A violência não se reduz à ação dos cangaceiros, ela até contribuiu para a invenção dos mesmos. O mal não se reduz à violência mais visível, ele até costuma frequentar ambientes e níveis sociais muito restritos e protegidos – o tráfico atual é negócio de altas finanças, as batalhas nas ruas do Rio de Janeiro possuem comandantes civis muito protegidos em seus gabinetes com ar condicionado e nos melhores endereços.
O chute inicial foi dado. A partida promete lances magistrais.Quem quer ser escalado/a?
Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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