O Canhão do Nordeste : A Realeza de Marinho Chagas

A história emocionante da maior estrela potiguar pode servir de inspiração, fonte de criatividade ou mera diversão em meio a tempos canhestros. Sim, o divertimento também é fonte de rebeldia.

O tempo é feito por nós. Cabe-nos filtrar aquilo que desejamos carregar. A história de Marinho permite a confecção de duas memórias opostas. Uma, a de um canalha galanteador, perdulário e drogado.

Outra, a de um adulto que, contrariando as vozes da solidez, conseguiu manter a molequice, levando uma vida livre em vez de construir um império.

“Sorria para fazer sorrir aqueles que sofrem”

É que a grandeza de Marinho está no sonho. Muitos desejariam que Marinho fosse um grande empresário, homem sério, com visão e tino para converter seu nome num sucesso. Tolas pessoas…

Quem sabe poderíamos estancar um pouco da babação ao tal do Cascudo para derramar saliva sobre costas mais… maleáveis?

O esquecimento pode ser bom. Esqueçamos, ao menos um pouco, seu lado condenável para que possamos enxergar na sua figura um monumento à despreocupação, ao relaxamento, ao desvio e à efemeridade[1].

Sobre o livro

“Porém, a capa meio sem graça não reflete a riqueza da narrativa. Por excesso (ou falta) de preciosismo, o livro sobre Marinho desperdiça potência comercial por erros primários. 

Publicado pela casa mais admirável do RN, a Editora Tribo, o livro de Luan Xavier verte um caldo pra lá de precioso. Mais do que “loucos por futebol”, A Bruxa é um livro pra qualquer pessoa que se interesse por uma boa leitura.

Porém, a capa meio sem graça não reflete a riqueza da narrativa. Por excesso (ou falta) de preciosismo, o livro sobre Marinho desperdiça potência comercial por erros primários. 

A ilustração de Teófilo Viana[2] apresenta um rosto genérico, irreconhecível. O cocuruto é cortado, omitindo o cabelo, enquanto o clássico número 6 do uniforme fica escondido na orelha. Marinho aparece na parte interna, sozinho, imenso e sorridente com a camisa da “CBD”[3].

A quarta capa, que deveria servir de delicioso convite à leitura, exibe nada mais que um algarismo de contornos borrados e um triste código de barras : /

Nem uma linha sobre a viagem à Jamaica pelo Náutico de Recife (sob comando dum contrabandista indiano) onde Marinho trocou ideia com Allan Cole e Bob Marley[4]. Nem uma linha sobre o encontro com Messi, Thierry Henry, Eto’o e Deco no Camp Nou. Nada sobre o New York Cosmos. Nada nem mesmo sobre as honras que recebeu na inauguração do Arena das Dunas.

Arrisco dizer que a história de Chagas se confunde com a história dessa cidade, sua vocação para um brilho internacional repetidamente se ofuscando em vacilos sucessivos.

A Personagem

Escrita em estilo leve (para contar uma história densa), a obra vai além dos fatos mais comuns para adentrar na intimidade de um ser humano de espírito largo, naturalmente marcado por falhas.

“Marinho veio ao mundo para alegrar o povo”, disse Milton Neves. O que não significa que tenha agradado todo mundo. Muito pelo contrário.

Tirar onda com Pelé, dar close no Chacrinha e trocar porradas com Leão (então goleiro e futuro técnico) foram apenas alguns tópicos do seu extenso curriculum. Mesmo acusado de ser o responsável pelo gol que fez o Brasil perder a Copa de 74, não faltava quem o elogiasse.

Bolas de prata

Prum garoto nascido na lateral do cemitério do Alecrim, receber o apelido de Bruxa seria apenas ironia do destino. Tão genioso e folgado quanto talentoso, Marinho estampou jornais e capas de revistas exibindo ao longo dos anos 70 a melhor face do futebol brasileiro.

Marinho Chagas (1952-2014)

Biriteiro, cigano e transador, Marinho é a encarnação do espírito da Praia do Meio, onde sua alma segue vagando - comendo ginga e tomando cerveja antes de dar um mergulho na (hoje finada) piscina do Hotel Reis Magos.

Ídolo do ABC à CBF, Marinho foi sensação em todos os clubes onde passou, desde o Riachuelo da base naval ao Botafogo de Futebol e Regatas, incluindo Fluminense e São Paulo.

Alegre e despudorado - um louco no meio da ditadura - Marinho pavimentou o clichê do boleiro muito antes dele ser sedimentado por incontáveis figuras. Tão ousado; nem parece que saiu de Natal.

A vida de Marinho parece algo entre Trapalhões e Austin Powers quando, bêbado numa turnê em Nice, disputando o Troféu Teresa Herrera, foi visto sarrando na princesa de Mônaco.

Memórias de uma estrela

Tornar-se a maior estrela potiguar (até Ítalo Ferreira?) não fez dele uma pessoa arrogante e babaca. Manteve sua simplicidade, mas não conseguiu se desvencilhar do álcool e se arrastou ao fundo de um poço de mediocridade.

Especulações à parte, é importante dizer que o livro de Luan Xavier é bom e merece uma edição mais cuidadosa. Se a Jovens Escribas estivesse melhor das penas (e dos bolsos), esse seria o trabalho perfeito.

***

Homenageado por Crujff, Beckenbauer e Zico, não raro a memória de Marinho é ignorada aos pés do Elefante.

Vivendo essa maré de baixo astral, sinto que O Meia esticou as canelas no momento certo. Alguém aí consegue lembrar-se de si no ano de 2014?

***

[1] Quem sabe uma estátua de Marinho, na Redinha, desvie a atenção dos imbecis que insistentemente se dão o trabalho de quebrar a estátua de Iemanjá. Em vez da Redinha, o monumento de Guaraci Gabriel se encontra na entrada do estádio do Mais Querido – Frasqueirão.

[2] Tirada, infelizmente, da fotografia do jogo contra a Polônia, quando o Brasil perdeu o mirrado terceiro lugar. 

[3] Sigla que atualmente ostenta conexões curiosamente interessantes…

[4] “Dois fatos marcaram a passagem pelo clube pernambucano. No fim de uma série de amistosos, surpreendeu-lhe a aclamação de um rastafári que cantou no intervalo de uma partida no estádio de Kingston, Jamaica. No vestiário, Marinho recebeu, além de um abraço, uma proposta de Bob Marley: três discos em troca da camiseta que vestiu na partida” [por Rodrigo Levino].

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 − 5 =

ao topo