O cânone russo de Putin: literatura e poder, tudo a ver?

Por Sérgio Rodrigues
BLOG TODO PROSA – VEJA

Não é simples dar conta da notícia de que Vladimir Putin, ex-presidente, atual primeiro-ministro e novamente candidato à presidência da Rússia, propôs num longo artigo de jornal – intitulado “Rússia: a questão étnica” – a formulação de uma lista oficial de cem livros que traduzam um certo espírito russo, a serem adotados nas escolas de todo o país como forma de fortalecer sua unidade cultural.

O jornalista russo Alexander Nazaryan, residente nos Estados Unidos, optou neste artigo (em inglês) por encarar a notícia pelo lado escuro – o que no caso do primeiro-ministro, ex-agente da KGB, faz sentido – e comparar Putin a Adolf Hitler no nacionalismo exacerbado e manipulador. “Engenharia social por meio de uma literatura sancionada pelo Estado: nenhum outro ato de Putin até agora foi tão escancaradamente soviético em seu desejo de manipular e subjugar o intelecto humano”, alarmou-se Nazaryan, prevendo como contraponto ao cânone oficial uma lista de livros banidos, embora Putin não toque no assunto.

Eis o lado ruim, certo, mas qual seria o bom? Simples: o fato mesmo de acharem – Putin e Nazaryan – que a literatura tem essa importância toda em pleno século 21. Tanto as ideias do primeiro-ministro quanto as de seu crítico soam curiosamente obsoletas a uma sensibilidade ocidental contemporânea, não soam? Será que esses caras estão falando mesmo de literatura? Como “fortalecer a unidade nacional” ou “subjugar o intelecto humano” com um instrumento tão ultrapassado – diria o cidadão médio, com sua dieta cultural dividida entre a internet e a TV –, que só interessa a uma meia dúzia minguante de pessoas? Ah, esses russos…

A polêmica deflagrada por Putin atualiza o imemorial paradoxo do censor, que leva a sério – e quase sempre ajuda a consagrar – o livro que proíbe como “perigoso” ou “imoral”. Vale trazer para a conversa outro russo, este naturalizado americano, o poeta Joseph Brodsky: “Existem crimes piores do queimar livros. Um deles é não lê-los”.

Registre-se que Brodsky, que ganhou o Nobel em 1987, foi expulso da União Soviética em 1972, depois de ser preso e condenado como “parasita social”. Teve a sorte de ter vivido na era pós-Stálin, que, pelo número de poetas que mandou matar, credencia-se ao título de maior entusiasta do poder da lira que já viveu.

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