O Canto do Mangue

II – Cronicas Natalenses

Tarde final de verão quente de uma Natal vestida de mulher. Ela não sabe que o dia é hoje. A éguinha – Exupery passeia livremente pelo cais do potengi-amado. O canto do mangue está lindo e o seu pôr-do-sol continua idílico e místico. Um oceano de lágrimas e emoções deságua naquele cantinho potiguar.

Pescador tem muitos segredos e a branquinha aquece o coração de marear. O mar é para poucos e destemidos homens curtidos de espuma e sal que protege a vida. Valério entende tudo de peixe, mas não vai pescar.

O canto do mangue é um teatro de arena raso. Na barraca-quiosque do Pernambuco um regalo com a brisa que vem lá dos longes. Já envergado pelos oitentas costados, Pernambuco ainda serve a ginga com tapioca feita na hora. Divina ginga. Depois uma cabeça de cangulo para dar sustância. Por um instante o tempo pára e aparece uma deusa vinda ninguém sabe de que concílio. Um diamante negro cobre o dia com seu vestido vaporoso, e lufadas de ventos fazem do mar uma tempestade coberta de rosas e acantos.

Uma deusa surge onde antes só havia mangue contemplando estrelas, com suas raízes fincadas no lodo. O céu é tomado de um azul natier e por um instante a deusa desaparece, para depois reaparecer na balaustrada de
toros cortados de madeiras beijadas pelo mar. Cenário, roteiro, luzes e figurinos de um filme que não sei como terminar. A atriz principal é ela e, a arena, o canto do Mangue.

Apareceu ali uma estátua que não estava no cenário. O menino vem e dá-lhe uma paulada arremessando o dedo de gesso para longe. Outra paulada e vai embora a cabeça que veria o pôr-do-sol.
– Pergunto ao Valério se aquela cena não seria um protesto contra aquele homem colocado em plena praça dos pescadores. Ao que Valério responde:
– que nada… ninguém sabe do que se trata e muito menos o que representa aquele monumento engessado. Tento levar a discussão para o tema da educação, mas o meu assistente diz que é complicado se for utilizar desse viés.
Melhor ficar com o leitmotiv do filme – ou seria um sonho – e sua protagonista principal. Pernambuco treme às mãos servindo mais cerveja com caldo de cação. Pernambuco ri daqueles meninos levados e diz que
conhece bem a moça. A dele, claro. Seu viagra é o peixe. Um homem passa na cadeira lembrando de tempos atrás. As grávidas comem o juízo do peixe.
Pescadores tomam cachaça. Um gordão aparece despedido de churrascaria rodízio. – Não precisa pagar, mas não volte mais aqui.
Filmo tudo para depois fazer os cortes e editar. Pernambuco tem muitas histórias de amores. Gravo algumas e sonho com a minha amada:

Ainda que não escutes as minhas palavras…
Ainda que não saibas quem eu sou Ainda que sintas ciúmes dos olhares indiscretos
Guardarei os segredos desse amor que se desmancha numa colcha de espumas
de uma noite nua de um sonho que ainda não terminou…

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 + 20 =

ao topo