O canto plural de Nelson Patriota

A princípio, surpreendeu-me o convite feito por Nelson Patriota: elaborar as “orelhas” de um livro de poemas seu significou para mim uma honra e um susto, um salto no inusitado. Ora, eu já conhecia todo o humanismo enciclopédico de Nelson, advindo de sua plural e rica condição de ensaísta crítico, tradutor, ficcionista. Agora surgem – diante dos meus olhos perplexos e deslumbrados – essas belas odes, canções poéticas que vinham sendo guardadas a sete chaves (com algumas poucas exceções expostas em publicações locais) de um poeta que se desvela por inteiro no livro que se apresenta ao leitor, elegendo-se um gênero que se espraiou ao longo dos tempos, chegando aos modernos e contemporâneos com a mesma força de outrora (Álvaro de Campos/Fernando Pessoa já nos dava bons exemplos com a “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima”).

Não se faz necessário afirmar que nesses versos está situada uma comovente e sublime maneira de tratar a palavra poética. Nelson não desperdiça palavras em suas doze Odes. Sentimentos, sonoridades, lugar da estética musical, uma razão lógica e lances de emoção desbragada se casam e se harmonizam, encontrando lugar na poesia que envolve o leitor sob fino e macio tecido.

Leio (e proponho que assim sejam lidos) os poemas de Nelson: como quem contempla aquarelas, face à beleza calma e contida dos tons e matizes, mas sem deixar de perceber os fortes sentimentos, a paixão e a ardência que, inexoravelmente, transbordam das pinceladas leves e delicadas. Nosso tempo não é um tempo fácil. Ainda mais para se poetizar. Nelson já relembra isso na sua “Ode ao Poema Ferido”. Seria, assim, um lance de extrema ousadia de Nelson fazer o caminho inverso ao de muitos escritores contemporâneos, que têm se deslocado da poesia (menos afeita, possivelmente, à popularidade entre leitores) para a prosa?

Nelson busca, talvez, o caminho mais difícil ou o mais valoroso, para poucos e bons, encontrando pedras na estrada e as transformando em pepitas, num trabalho digno de um alquimista. Bom saber que Nelson não se acomodou num único gênero dentro da suas amplas possibilidades do fazer literário.

A palavra de Nelson vai até onde vão o seu olho sensível e a sua profundeza de alma. A sensibilidade humanística desse prosador e poeta não carecem de dilação probante. Já se mostra ampliada nos seus próprios conceitos estéticos bem assimilados pelo estudioso e homem de amplo espírito. Essa palavra peculiar, valiosa e viva de Nelson Patriota se projeta em todos os cantos. E nos traz a beleza, algo essencial aos nossos frenéticos e caóticos dias. O poema e a poesia não se acovardam na lavra desse poeta que está diante de nós. Confiram e confirmem.

(Texto publicado nas “orelhas” do “Livro das Odes”, de Nelson Patriota)

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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