O cão encadernado

Por José Castello
A LITERTURA NA POLTRONA

Há uma frase de Jacques Lacan, em seu Seminário XX, que sempre me impressiona. Diz Lacan: “No amor, prometemos ao outro o que não possuímos e dele esperamos o que ele não possui”. Aceitando a tese lacaniana a respeito do amor, por contraste, a amizade _ em que amamos o amigo não pelo que ele tem, mas pelo que ele é _ ganha inesperada grandeza.

Reencontro essa fértil oposição entre amor e amizade na leitura de “O mal-estar contemporâneo: buscando saídas”, ensaio breve da psicanalista (e amiga!) Carmen Da Poian. Texto inédito, que ela apresentou, recentemente, em um seminário do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro. Com muito sucesso, não preciso dizer.

Carmen trata de um sentimento que também me define: a aposta no outro que, antes de ser um suspeito em potencial, é um parceiro em potencial. Aproxima-me mais ainda da amizade e do calor que dissemina. Lembro-me, então, de Vinicius de Moraes, para quem o uísque era “o cão engarrafado”. Pensava Vinicius no amor incondicional dos cães, amor que nada espera além do amor mesmo. Amor que o poeta, sem vacilar, transportou para o álcool. O amor dos cachorros pelos homens é uma metáfora antiga, mas potente, para a amizade.

Sou apaixonado por cachorros, mas aqui substituo o uísque pelos livros. Penso um pouco a respeito do amor incondicional que os grandes leitores cultivam com os livros por que se apaixonam. Carmen se inspira em um livro do filósofo Francisco Ortega, “Para uma política da amizade”, em que ele defende a idéia de que a amizade é (aqui copio Carmen) “energizadora e subversiva, colorindo a existência individual e, ao mesmo tempo, abrindo para um campo mais amplo de circulação da libido”. Livros também não nos energizam?

Sem nada esperar além da presença do outro _ assim como os livros nada esperam de nós, a não ser que deles nos aproximemos _, a amizade alarga a vida pessoal e amplia nossos horizontes afetivos. Propõe-nos Carmen, então, que a amizade seja “um exercício político, servindo como resistência à despolitização e à desumanização da sociedade de massa”. Os laços fraternos guardam uma potência em que nem sempre acreditamos.

A amizade, prossegue Carmen, revela “gratuita e prazerosamente quem somos”. É uma espécie acolhedora de espelho, em que nos miramos para confirmar e sustentar nossa existência. Prossegue minha amiga: “Enquanto o amor, em sua dimensão genital, procura a verdade sobre si numa emoção fechada em singularidades, a amizade reinventa o espaço público, introduzindo movimento nas rígidas relações sociais”.

Volto à literatura _ meu “cão encadernado”. Por que não chamá-la assim? Quando um autor nos oferece um novo livro, nada espera de nós além de um exercício de aproximação. Quando abrimos o livro e nele nos embrenhamos, são afetos, sentimentos fortes, memórias antigas que entram em cena. Creio muito na potência da literatura. Quanto mais o mundo se fragmenta e se banaliza, mais forte ela se torna. Como um cão fiel, ela nos acompanha nos melhores e piores momentos.

“A amizade designa justamente esta capacidade infinita de reconhecimento e de aceitação daquilo que somos”, prossegue Carmen, “sendo a mais abrangente expressão do amor”. Propõe-nos, então, uma bela imagem: a amizade como um ancoradouro de nós mesmos. Volto aos livros: também ancoramos, como barcos solitários, nos livros que lemos. A leitura silenciosa é uma espécie de pausa, em que o mundo se apaga momentaneamente, para ceder lugar a “outro mundo”, que na verdade não passa de outra maneira de observar o mesmo mundo.

Por isso, os livros que amamos nos acompanham ao longo de toda a vida. Nunca os largamos. Cães encadernados, eles estão sempre por perto, indiferentes às oscilações de nossa existência. Prontos para nos consolar, para ampliar nossa visão do mundo e nos tirar um pouco de nossa inevitável solidão.

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