O caos de Kafka

Ensaio biográfico do escritor Louis Begley, recém-lançado no Brasil, explora diários, cartas e escritos que Franz Kafka queria que fossem queimados após a morte, em 1924

Fernando Mena
FSP

Mesmo sem deixar testamento, Franz Kafka (1883-1924) escreveu ao melhor amigo Max Brod um último desejo: que ele queimasse todos os seus manuscritos, sem os ler. A fogueira deveria transformar em pó diários, cartas, textos e esboços que estivessem guardados com Kafka ou com terceiros.

Brod resolveu não seguir as instruções do amigo, e dessa desobediência surgiram dois cânones da literatura: “O Processo” e “O Castelo”.

Das páginas de seus diários, cartas e anotações coletadas por Brod entre Praga e Berlim, no entanto, emergiram fragmentos de uma existência atormentada, marcada pela inadequação, por neuroses e pela doença.

São esses diários e cartas que o romancista Louis Begley destrincha para compor o ensaio biográfico “O Mundo Prodigioso que Tenho na Cabeça: Franz Kafka”, recém-lançado pela Companhia das Letras.

Paradoxalmente, em entrevista à Folha, Begley revela: “Se eu fosse Brod, teria queimado [os escritos pessoais] porque, no fim das contas, eles ficam entre a literatura de Kafka e seu leitor. Obstruem o caminho, divergindo a atenção da obra para o homem”.

E prossegue: “Kafka era muito escrupuloso. Queria destruir sua obra inacabada porque sabia que os escritos já publicados garantiriam sua reputação no panteão literário”.

Para Begley, se por um lado Brod trouxe aos olhos do mundo escritos importantes de Kafka, por outro “seus leitores e estudiosos estariam muito bem hoje em dia se textos fracos, como “Descrição de uma Luta” e “Preparativos para um Casamento no Campo”, tivessem sido queimados”.

Vasculhar os arquivos da intimidade de Kafka, os mesmos que Begley diz que queimaria, foi para ele irresistível. O escritor polonês que cresceu nos EUA, autor dos romances “Sobre Schmidt” e “Naufrágio”, é, assim como Kafka, judeu e doutor em direito.

A atração pelo universo kafkiano, no entanto, se deu pelo deslumbramento com os enigmas impressos em sua obra. “Quando li “O Processo”, aos 15 anos, senti uma afinidade extraordinária com sua escrita.

Kafka parecia estar falando diretamente para mim. Mais: ele parecia falar só para mim.” Em seu ensaio biográfico, Begley costura trechos de cartas e dos diários, enfatizando o contexto de antissemitismo que emergia na Praga onde Kafka nasceu e viveu quase toda vida.

Duplamente detestado

Tcheco que falava e escrevia em alemão, mas era judeu, Kafka era alvo dos sentimentos antissemitas e antigermânicos. “Ele era membro de uma minoria dentro de uma minoria, ou seja, ele era duplamente detestado”, explica Begley. “Crescer nessa atmosfera reforçou sua percepção de ser um intruso. Digo “reforçou” porque Kafka era tão complicado que fatalmente se sentiria alienado mesmo sem ódio ao redor.”

Intruso naquela sociedade, intruso em sua própria casa, onde ocupava um cômodo entre a sala e o quarto dos pais. Obcecado por silêncio, que julgava essencial a sua produção ficcional, ele era torturado pelo entra-e-sai na casa e pelo medo do pai que por ali circulava.

A hipocondria, a insônia, a vergonha do corpo, o horror à intimidade e a repulsa por carne -depois obrigado a comer para combater a tuberculose- formavam um catálogo de suplícios a que se submeteu. “A vida é meramente terrível, sinto isso como poucos”, escreveu Kafka a Felice Bauer, a alemã que cortejou por cinco anos, com quem trocou 700 páginas de correspondências turbulentas antes de noivarem e, não muito depois, romperem.

Kafkiano

“A claustrofobia do mundo retratado em sua ficção espelha a de sua própria existência”, avalia Begley, para quem existe apenas um “significado” na obra de Kafka, apesar de todas as teses, hipóteses e análises feitas sobre ela: é a reação que seus livros provocam no leitor.

Um “significado” concreto o suficiente a ponto de criar um adjetivo quase mítico, difundido em várias línguas: kafkiano. Para Kafka, “um livro tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós”.

Sua vaidade e absolutismo não poderiam permitir, portanto, que suas construções ficcionais ficassem aquém desse ideal. Daí a rejeição do que representa hoje um sexto de sua obra. Aquilo mesmo que ele queria ver transformado em cinzas.

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