O Cavalo de Turim

Dica de post do Fernando Monteiro.

Por Carlos Alberto Mattos
NO BLOG RASTROS DE CARMATTOS

A produtora de Béla Tarr, Juliette Lepoutre, avisou à plateia do Moreira Salles no domingo: “O que vocês vão ver não é um filme, mas uma experiência de vida”. Ela não estava exagerando. Vivenciar os 145 minutos de O Cavalo de Turim é algo de quase físico, que extasia e exaure. Saí dizendo que minha roupa estava cheirando à fumaça daquela casa perdida num ermo qualquer, onde pai e filha passam seis dias à espera de que seu cavalo doente possa retomar as atividades que sustentam a família. Tudo é repetição e dolorosa rotina naquelas manhãs e noites que testemunhamos sob a luz fraca dos candeeiros ou sob o açoite dos ventos que não cessam do lado de fora. As imagens, a música igualmente cíclica, os sons rudes penetram em nossos poros como coisa vivida.

Apesar da insistência do meu amigo e cinéfilo-mor Julio Miranda, ainda conheço pouco da obra do húngaro Béla Tarr. Mas sei que nela a ideia de maldição está muito presente (Maldição, aliás, é o título do outro filme seu que vi domingo). Aqui, a história faz referência metafórica a um fato real. Nietzsche tentou proteger um cavalo das chicotadas de seu dono e, a partir daquele incidente, perdeu a voz e a razão pelos últimos 11 anos de sua vida. A chegada do velho com o cavalo à casa, na primeira cena, seria então subsequente àquele momento. O que passa a acontecer seria, quem sabe, o efeito de uma maldição. A vingança de Nietzsche, talvez.

O fato é que pai e filha, tal como aconteceu com o filósofo, começam a ser abandonados pela vida. Progressivamente, o cavalo se recusa a comer e a puxar a carroça, a água do poço seca, o fogo se recusa a manter-se aceso. Em dois momentos, eles são visitados por estranhos, a quem reajem com indiferença ou repulsa. Formam uma célula isolada e indivisível, como seres desde sempre expelidos (ou auto-expelidos) do mundo social.

Há muito o que observar e pensar enquanto se vê/vive o filme. Uma das coisas que me vieram à mente, a partir de uma sugestão do Júlio, foi a filiação bastante clara deste filme a clássicos do cinema mudo, especialmente escandinavos. O Dreyer de Dias de Ira, o Sjöstrom de O Vento e A Carroça Fantasma, e mesmo um Bergman a eles filiado como Noites de Circo. Nessa mesma linha evolutiva, vejo os filmes de Eduardo Nunes, tanto os curtas Terral e Tropel como o igualmente arrebatador Sudoeste.

Comentários

Há 10 comentários para esta postagem
  1. José Saddock 12 de outubro de 2011 18:45

    Kkkkkkkk Eu sei, Nina, também tenho estado assim… Abraços!

  2. Nina Rizzi 12 de outubro de 2011 12:44

    Saddock (?²), a imagem que tenho não é a de uma criança agarrada às carcaças ensaguentadas por bêbados, de c.e.c.

    Eu também estava bêbada, sonhando e louca.

  3. José Saddock de Albuquerque 11 de outubro de 2011 19:20

    Você está equivocada, Nina, a cena se passa em Crime e Castigo; Os Irmãos Karamazóv é outra história…

  4. Nina Rizzi 11 de outubro de 2011 16:39

    Toda vez que digo, perguntam! ao que parece, cara Alice N. (?), a obsessão de Nietzsche foi herdada do camarada Fiódor. Sim, há o sonho de Raskolnikóf em Crime e Castigo, como o há – cavalo, mujique, o louco e a turba (isso dava uma releitura pra o tarot!) – numa das mais poderosas passagens de Os Irmãos Karamazóv.

  5. José Saddock de Albuquerque 11 de outubro de 2011 15:48

    Aos 3 de janeiro 1889, ao sair de casa, Nietzsche vê, na Pizza Carlo Alberto, um cocheiro bater em seu cavalo. Ele se joga no pescoço do animal, chorando, e depois desmaia. Algum tempo depois, Franz Overbeck, vem ao encontro do amigo, que está em estado de demência. Nietzsche viveria assim por mais dez anos. Esse episódio, também, está retratado em “Crime e Castigo”, de Dostoiévski… É interessante observar na crítica, que pai e filha parecem ser condenados a solidão… Zononi, do escritor inglês Edward Bulwer Lyton é um ser misteriosos que vive eternamente e que tem sua própria moral – bebe e não consegue se embriagar, provoca a morte de um inimigo… Enfim, desiste da imortalidade, casa-se com uma cantora de ópera e morre na guilhotina, na época da revolução francesa) e que sofre imensamente com a solidão de sua imortalidade… Nietzsche tem, principalmente em Zaratustra, um pouco de tudo isso – a solidão do homem superior, o desprezo, a coragem dos grandes desafios, a tragédia e finalmente o risco – e que expressam o que deveria ser uma convicção íntima do homem: a de ser responsável pelo próprio destino frente a si mesmo e frente a eternidade, e que fazer o próprio destino é arriscar na solidão.

  6. Alice N. 11 de outubro de 2011 11:39

    Nina, a cena do cavalo não é de um sonho de Rascolnikof no livro “Crime e castigo”?

  7. Jarbas Martins 11 de outubro de 2011 11:20

    encantei-me com a fotografia, Fernando, vista no FB.

  8. Fernando Monteiro 11 de outubro de 2011 11:01

    O Cinema ainda está vivo, sim.
    Ou seja, não precisamos acreditar que ele morreu (VIDE, por exemplo, este “O Cavalo de Turim”, de Béla Tarr), apenas porque temos de ver, nos multiplexs, as merdas cinematográficas que a Folha de São Paulo vem dizer que são “obras-primas”…

  9. Nina Rizzi 11 de outubro de 2011 9:57

    E esse filme, deve ser uma “coisa”! Enquanto isso em Fortaleza, nem mesmo a Melancolia de Trier. Afe.

  10. Nina Rizzi 11 de outubro de 2011 9:54

    O caso do Nietzsche com o cavalo foi posterior à história – idêntica – retratada por Dostoiévski (de quem é alemão era leitor apaixonado) em Os Irmãos Karamazóv, momento que marca também a insanidade de Ivan, não obstante ter sido Dmitri a viver a cena do cavalo. O que me faz perguntar: qual o limite entre loucura/ sanidade, arte/ vida? ora, circunstâncias dadas ou forjadas, vontade e a vontade de poder… querer e não querer é sempre a mesma coisa.

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