O cego e o elefante

(ou Allan Dwan e eu)

Por Inácio Araújo
NO UOL

Com o pedido de perdão pelo sumiço, o problema é o seguinte: o teclado francês de computador, mais que o italiano, é infernal.

Para nós, claro: o A fica no lugar do Q, por exemplo, e vice-versa. Eu escrevia e, quando ia ver, estava uma maçaroca inacreditável.

Então parei. E, de Bolonha, volto atrasado apenas para re-registrar o encontro com o cinema de Allan Dwan, de que eu só conhecia um Ali Babá mudo (1922, se não me engano) e “The Sands of Iwo Jima”, já sonoro.

No mudo ele teve prestígio realmente grande, que se estendeu para o começo do sonoro. O filme dele com a Gloria Swanson, “Manhandled”, é muito, muito forte, mas não é o único entre os que eu vi

Algo que se repete com frequência em parte de seus filmes: a presença ou ausência do pai como proteção. Por vezes, como em “While Paris Sleeps”, o pai deve se esconder (era um forçado, a filha não pode saber) para protegê-la. Ela acredita que ele, também herói de guerra, está morto. A cena final, com Victor McLaglen explodindo um prédio, morrendo junto, não sem antes berrar que “os mortos devem continuar mortos”, é uma obra-prima.

Em “Manhandled”, o noivo faz papel de pai, e quando se afasta a moça faz besteira. Belíssimo o início: os pés das funcionárias de uma grande loja descendo as escadas, no fim do expediente. E, logo em seguida, Gloria Swanson no metrô cheio: notável. Mas não a única coisa notável da história.

Me pareceu interessante os anos 40, fim dos 30: primeiro, fim dos 30, ele parece ter menos prestígio na Fox. O que vi em seguida, anos 40, tem produções pequenas, da Republic, com momentos fortes, mas um pouco acanhados.

Dos 50, pude ver “Silver Lode” (Homens Indomáveis), o filme de que o Scorsese tanto fala, o filme anti-McCarthy. Gostaria de rever sem essa injunção (que por si só é extraordinária…), porque o filme me parece superar esse episódio específico. Assim como “Tennessee’s Partner” (A Audácia É Minha Lei”), que se passa disso: John Payne é um jogador de bom caráter que só tem por amigo Ronald Reagan: o resto da cidade o tem como criminoso.

“O Mais Perigoso dos Homens” é um filme, também, de homem solitário contra um mundo corrupto. Mas me pareceu (não pude ver inteiro) que a produção desse seu último filme era muito, muito deficiente). Coisa de fazer falta mesmo.

Lendo agora a filmografia no IMDb vejo que vi alguns outros filmes dos anos 50, mas só agora, acredito, me fiz uma ideia de sua personalidade: uma abordagem muito direta da cena, sem nenhuma firula, é seu hábito. Essa cena ele faz habitar por homens de grande pureza numa sociedade que se corrompe facilmente. Esse me parece o tom dos 50: a solidão do herói é quase delirante. Trata-se de um mundo onde não há lugar para justiça, onde os ideais do jovem Dwan, de “nobre primitivo” parecem enterrados, assim como as esperanças dos anos 40 em uma renegeração.

Digo isso depois de ver uns oito filmes (sem contar os primeiros, rápidos, onde a ideia de pessoas impolutas na alma triunfando sobre um mundo já um tanto pestilencial se impõe).

Diante de um cara que fez tantos filmes é como a história do cego apalpando o elefante.

Mas o que mais se pode fazer? – como pergunta a heroína do “Hiroshima”, aliás outro belo restauro que se pôde ver no Ritrovato deste ano.

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