O céu dos pecadores: “Macaíba em Alvoroço”

No artigo “Breve resumo da literatura norte-rio-grandense” (A Imprensa, 18 jun. 1922), Câmara Cascudo afirmava: “Com noventa anos de literatura (do primeiro jornal em 1832 a hoje) possuímos meia dúzia, se tanto, de livros em prosa”.  Sete anos depois, em outro artigo (“Para fazer um romance…”, A República, 08 dez. 1929), o então Príncipe do Tirol reclamava que “O Rio Grande do Norte está à espera do seu romancista. Importa dizer que o romance inda não foi feito”.

Na sua argumentação, o romance local começaria com Polycarpo Feitosa (Antônio de Souza), mas não havia ainda, entre os escritores da narrativa, o “espírito da terra”, cuja presença nos enredos era apenas um detalhe: “[…] apenas soa para avisar que é das nossas vizinhanças o ambiente escolhido”.

O que mais chamava a atenção, no segundo texto de Câmara Cascudo, era a situação da leitura no Brasil quanto à preferência de gênero: “[…] os grandes nomes literários de agora são de romancistas. Todos os sucessos de livraria são romances… Falta de público? Não é. Os livreiros são unânimes a dizer que vendem 70% de romances”.

O autor chega a arriscar que a preferência de leitura das ‘nossas senhoritas’ era por autores estrangeiros, fenômeno que seria determinado pelo que hoje chamamos de indústria cultural.

O nome de Polycarpo Feitosa não é citado por acaso. No ano anterior, aparecera um terceiro artigo de Cascudo em que são emitidos juízos de valor favoráveis ao romance Flor do sertão (“O livro de Polycarpo Feitosa”. A República, 20 maio 1928). Segundo Manoel Onofre Jr. (Polycarpo Feitosa: o excêntrico Dr. Souza. Natal: 8 Editora; Caravela, 2016), esse romance repercutiu além dos limites potiguares, chegando a receber elogios do prestigiado Medeiros e Albuquerque.

Dos primeiros romances aos de hoje, seguimos o ritmo nacional de leitura, em que a necessidade de ficção é atendida não necessariamente por uma escolha consciente do leitor. O mundo da imaginação chega ao público, na maioria das vezes, ancorado em produções massivas de comunicação, com forte comercial e fraca demonstração de procedimentos que justifiquem uma escrita criativa.

A palavra escrita, na sua função criativa, não parece fazer parte do cotidiano brasileiro. Por isso, talvez seja tão difícil opinar sobre o exercício livre da escrita que se propõe à invenção por meio da linguagem.

De acordo com o senso comum, a ficção é um mundo julgado à parte (um inferno, que pode ser também um paraíso, dependendo de que lado se está em determinadas circunstâncias).

Para não ficarmos presos à dicotomia, digamos que a opinião sobre tal escrita seja algo como um purgatório, de acordo com certa crença medieval… Pisemos, pois, em brasas que, no caso da literatura local, podem ser de quentura intolerável, talvez devido à persistência de abanadores que, ao redor da ardência, alimentam efeitos de pirotecnia.    

Macaíba foi importante entreposto comercial entre o Sertão e a capital potiguar; berço de figuras ilustres, hoje é um cidade-dormitório, cuja memória reclama uma justa visibilidade.

O Folheto como representação da cultura popular

Escolhi, para comentar aqui, um romance publicado recentemente pelo nosso renomado teatrólogo Racine Santos (Macaíba em alvoroço. Natal: Trapiá, 2017), por se tratar de um acontecimento que reflete uma tendência atual no Rio Grande do Norte: o surgimento de publicações de prosa de ficção com autoria de escritores que já vinham exercitando a escrita em outros gêneros (teatro, poesia, crítica, escrita jornalística…). O fato sugere que a produção de um romance requer, especialmente, o amadurecimento do seu autor no mundo da escrita.

O mundo inventado pelo narrador de Macaíba em alvoroço é marcado pela forte presença da cultura popular e as personagens mais destacadas giram em torno da feira nordestina.  À certa altura, a cidade fica paralisada diante de um mistério policial. Macaíba, situada na Grande Natal, fora cidade importante na geografia potiguar, como entreposto de comércio entre o sertão e a capital do estado.

Berço de figuras ilustres da história local, hoje exerce a função de cidade-dormitório, cuja memória reclama uma justa visibilidade. Reclamam chorosos, por corredores estreitos e amplas salas de casas cariadas, os fantasmas que, possivelmente, Racine Santos recupera para a nossa leitura. No entanto, não se tratam de fantasmas do famoso Solar do Ferreiro Torto e sim de figuras humanas do tipo comum, do cotidiano da pequena cidade.

Destacam-se, no enredo, três personagens: o vendedor de folhetos Xexéu, o cabeceiro Sérgio e o soldado Cancão. São eles os três cavaleiros da “tábua redonda”, amigos de infância que, no espaço da feira, testemunham, se envolvem na trama e desvendam o mistério de uns bilhetes anônimos que infernizam a vida de alguns moradores com a frase “Tô de olho em você”.

Ilustração: Adele Bea

Comportamento das personagens

O desequilíbrio das ações narradas ocorre com o aparecimento dos bilhetes, mas é graças a esse acontecimento inusitado que o mundo da escrita entra para a consciência das três personagens populares e elas são tocadas pela poesia em ocasiões favoráveis do enredo.

Xexéu, o vendedor de folhetos, queria ser poeta: “[…] meu sonho mesmo é escrever um folheto, um romance. Uma história de paixão, ciúme, desprezo, amor, sangue e violência”. (p. 72). Segundo o narrador, ele já tinha mais ou menos alinhavada na cabeça essa história, baseada num crime de morte que Cancão lhe contara certa vez.

No entanto, a máxima “Tem frase que é punhal/no coração do vivente”, disparada em dado momento da narrativa em função do misterioso enunciado “Tô de olho em você”, mobiliza o poeta a pensar sobre o poder da palavra.

A máxima acionada adia a escrita da história contada por Cancão e entra em pauta o plano de um romance em versos, todo em sextilhas, cujo título seria “Macaíba em Alvoroço”. O verdadeiro autor da novela de Racine Santos é, portanto, o poeta Xexéu.

Sérgio, o cabeceiro, é tocador de cavaquinho. Aparentemente, a habilidade musical do cabeceiro é inverossímil no âmbito da novela, mas ela é fundamental para a compreensão do comportamento do soldado Cancão na trama do crime a ser desvendado. Em confronto com o autor dos bilhetes (o brincador de João-Redondo), Cancão afirma que a brincadeira dos bonecos não era arte e que “[…] arte era tocar cavaquinho ou fazer verso”.

Escrita como ideal artístico

Como esta leitura não optou por comentar o enredo da novela e sim um aspecto do comportamento das três personagens populares – a entrada do mundo da escrita nas suas consciências –, interessa assinalar também que a música é valorizada juntamente com a palavra escrita, em detrimento da cultura popular expressa pela oralidade. Com efeito, a escrita como suporte literário parece ser o ideal artístico dos três amigos, conforme sugere o seguinte diálogo entre Xexéu e Sérgio:

[…] A feira é ou não é um mundo? E um pedaço desse mundo você carrega em cima da cabeça.

– E você carrega esse mundo dentro da cabeça, fazendo verso – sentenciou o cabeceiro, que ficou admirado de suas próprias palavras. E Xexéu, satisfeito com o que ouviu do amigo, devolveu a gentileza:

– Se você soubesse fazer verso, era um poeta melhor do que eu. O que você diz é verdade. Eu carrego o mundo dentro da cabeça, você carrega em cima dela, e Cancão, safado como é, fica só de longe, se rindo e mangando da gente. (p. 96-97).

Cancão, o soldado, arremata o diálogo dos amigos com uma não menos inventiva tirada: “– O importante é que a gente é amigo, desde menino sambudo – e levantando o copo, bradou: – a gente é três Cosme e Damião”. (p. 97). O menos dotado de senso artístico dos três amigos tem, no entanto, o seu momento de glória como poeta, no seguinte diálogo:

– Sérgio, tem palavra que é pior do que uma punhalada – sentenciou Cancão.

– Taí, gostei. É verdade, Cancão, tem palavra que fere mais que uma punhalada e dói mais que um bofete na cara – disse Xexéu que, gostando do que ouviu do amigo, afirmou: – isso dá um mote.

[…]

O soldado mais uma vez sentiu e gostou de ser o centro das atenções. Gostou do que tinha dito e mais ainda de ter sido desafiado pelos amigos. Riu, fechou os olhos, baixou a cabeça e ficou contando nos dedos umas sílabas pronunciadas em voz baixa. Os amigos, rindo com a concentração do soldado, aproveitaram para tomar, cada um, sua dose de aguardente e morder um cajá. E, para surpresa dos dois, mal acabaram de beber, Cancão disse, quase gritando:

Tem palavra que é punhal

no coração do vivente. (p. 198).

Verba volant, scripta manent

Se a máxima tem uma relação imediata com o significado do bilhete misterioso, o sentido que emana do dístico de sete sílabas leva-nos a refletir sobre a valorização, na estrutura da novela, da literatura escrita em detrimento da cultura da oralidade como manifestação artística anônima.

No nível das personagens, o brincador de João-Redondo tem passagem efêmera na comunidade e somente consegue marcar presença por causa do uso da escrita como suporte, ou seja, por meio do bilhete anônimo.

Por sua vez, Xexéu ouve do professor Tibério Ró-Rói que o significado de verba volant, scripta manent é: “[…] o que a gente fala, o que a gente diz com palavras, o vento leva, mas o que a gente escreve fica, permanece, imprimindo para sempre, para toda a eternidade, a história do homem e das civilizações”. (p. 72). O cânone dessa representação é, para Xexéu, os poetas João Martins de Ataíde, José Pacheco, Leandro Gomes de Barros e Manoel Camilo dos Santos.

“Na novela de Racine Santos, o mundo popular sonha ascender à cidade das letras ou se espanta com as suas próprias possibilidades de ascensão.”

“Não há brigas nem arengas / Aquele curral de quengas / É o céu dos pecadores.”

O alvoroço causado pelo bilhete atinge, de acordo com esta leitura interessada em poesia, mais as vidas do delegado, do prefeito e do padre, personagens centrais da cidade, e menos a vida dos três cavaleiros da “tábua redonda”. Uma vez descoberto o autor dos bilhetes, os três amigos da feira relaxam as tensões e vão se divertir no Gango de Macaíba, o cabaré, tido como “o céu dos pecadores”.

Isso ocorre no capítulo 15, que termina com a citação de uma estrofe da jornada do Pastoril, como a sugerir o ideal de harmonia da comunidade sem alvoroço: “Boa-noite meus senhores todos / Boa-noite senhoras também / Somos pastoras, pastorinhas belas / Alegremente vamos a Belém…” (p. 205). A vida segue, pois, tranquila. O alvoroço era de poucos, cujo merecido estresse sobreveio por conta do alto grau de corrupção encoberta pelo caráter ostensivo dos cargos ocupados na comunidade pela sua elite.

Assim, a novela poderia ser finalizada no capítulo 15, com o clímax do enredo. Os demais capítulos funcionam como o desenlace e o último, conforme está nomeado, é o epílogo que traz, nos parágrafos finais, a figura do grande folclorista como aquele que, muito provavelmente, irá salvar para a memória escrita a efemeridade do brincador de João-Redondo que, àquela altura, já fugira de Macaíba e estava no grande palco da feira do Alecrim….

Na novela de Racine Santos, o mundo popular sonha ascender à cidade das letras ou se espanta com as suas próprias possibilidades de ascensão. Isso graças àquelas personagens do céu dos pecadores, as quais, por alguns instantes, pulam as brasas das fogueiras do purgatório terreal. São, elas, as personagens poetas.

Escritor, pesquisador e professor universitário [ View all posts ]

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